“Fauna e Flora”, mas e os fungos?

Por Elisandro Ricardo Drechsler-Santos, Depto. BOT-CCB, PPGFAP, MICOLAB – UFSC

Todo mundo já leu ou ouviu os termos “Fauna e Flora” em jornais, noticiários, documentários ou até mesmo na legislação, certo? Ok mas, e os fungos?

Figura 1: A deusa dos fungos, “Diana Funga”. Reprodução do artista brasileiro Claudio Toscan Jr. da obra original de Schaeffer (1774)

Todos sabemos o que significa “Fauna e Flora”. Quando falamos que a fauna é exuberante em uma determinada região, queremos salientar que os animais daquele lugar chamam muita atenção, como é o caso da Amazônia. Quando falamos que a flora de determinado lugar é muito diversificada, queremos dizer que existem muitas espécies de plantas que ocorrem lá, como é o caso da Mata Atlântica. E os fungos? Qual termo poderíamos utilizar para a diversidade de fungos de um ecossistema ou região que seja equivalente e ao mesmo tempo distinto de “Fauna e Flora”? A resposta é que não há um termo universal, que seja utilizado em diferentes línguas, em diferentes países, e que ao mesmo tempo seja entendido por todos. Pior, muitas vezes os fungos são tratados como Flora ou no genérico grupo dos microorganismos.

Incomodados com isso, pesquisadores micólogos do Projeto Hongos de Argentina (Argentina), da Fundación Fungi (Chile), do MICOLAB/UFSC (Brasil) e da Universidade de Harvard (EUA) começaram uma pesquisa em 2017 para encontrar o melhor termo, que representasse de forma justa e menos complicada os fungos. Muitos termos foram levantados e são discutidos no artigo científico (Kuhar et al. 2018, para acessar clique aqui) que apresenta como proposta de uso o termo FUNGA. A proposta dos 3 Fs, “Fauna, Flora e Funga” foi publicada no final de 2018 no conceituado periódico científico IMA Fungus. No artigo, Funga é representada pela imagem de uma deusa, “Diana-Funga” (Figura 1), reproduzida do trabalho de Schaeffer de 1774 (para acessar o original, clique aqui). A figura com os cogumelos, tanto aos seus pés como no corpo da deusa, demonstra a tradição clássica do estudo dos fungos.

Para os brasileiros talvez pareça um pouco estranha a palavra “Funga”, o que não acontece em países que falam espanhol, inglês ou outras línguas. Por outro lado, talvez um termo diferente e pouco conhecido seja mais fácil de gravar, facilitando também uma mudança cultural necessária no Brasil. De modo geral, nossa cultura ainda é micofóbica (que tem medo de fungos) e não micófila (que se alimenta de fungos) mas, aos poucos, isso está mudando. Os fungos no Brasil vêm se tornando mais interessantes e populares, principalmente quanto a sua importância sócio econômica e sócio ambiental. Hoje em dia, existem mais produtores de cogumelos e cervejas artesanais, mais grupos de pessoas trocando informações sobre os fungos em redes sociais, ou em eventos populares. Os jovens se interessam cada vez mais pela diversidade dos fungos e seus benefícios, tanto dos usos reais quanto potenciais. Assim, o termo Funga deve ser inserido nas legislações do Brasil e de todo o mundo, pois servirá de “combustível” para mudanças urgentes e mais profundas nas políticas públicas, principalmente na educação e conservação das espécies e de seus ambientes.

Por anos, os fungos foram considerados no reino das plantas e ainda hoje, em muitos Programas de Pós-Graduação, quem quer estudar os fungos no mestrado ou doutorado precisa procurar um programa de Botânica. O mesmo se observa em cursos de graduação, como por exemplo de Ciências Biológicas, onde os conteúdos de fungos ainda são tratados em disciplinas que também compreendem algas e plantas. No ensino básico não é diferente, os livros didáticos do sistema de educação de crianças, jovens e adultos, quando tratam dos fungos o fazem de modo equivocado, com muitos erros conceituais ou falta de informações e relacionamento com o dia-a-dia das pessoas. Isso é um atraso gigantesco!

Além das mudanças necessárias nos ambientes educacionais, com a definição de “Fauna, Flora e Funga” e seu uso em novas legislações, reconhecendo os fungos como diferentes de plantas ou dos microorganismos, também haverá incorporação dos mesmos e seus serviços ecossistêmicos em trabalhos de licenciamento, diagnóstico e recuperação/restauração ambiental, assim como mais apoio financeiro às pesquisas científicas.

Incorporar a micologia nos assuntos de interesse nacionais e internacionais, tais como educação e proteção de habitats e de suas espécies é urgente. A proposta de uso de um termo FUNGA para tratar a diversidade da comunidade de fungos é um passo importante que já foi dado.

Para finalizar: PRESERVE A FAUNA, A FLORA E A FUNGA

Para acessar os artigos originais citados nesse textos, clique nos links abaixo:

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