Homem Salamandra: Porque Stan Lee estava errado?

Por: Giordano W. Calloni – Dpto. de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC 

Caros leitores, venho, antes de tudo, convidá-los a ler (ou quem sabe reler) um post aqui do CDQ de autoria de quem vos escreve (clique aqui para acessá-lo).

Para aqueles sem tempo, irei brevemente resumir a questão: em 1963, Stan Lee, apresentou aos leitores um dos vilões mais inusitados das histórias em quadrinhos: O Lagarto. Esse ser monstruoso na verdade tratava-se do Dr. Curt Connors, um médico que perdeu seu braço direito na Guerra do Vietnã. O Dr. Connors passou então a pesquisar os répteis, mais precisamente lagartos, que já eram conhecidos na época por sua capacidade de regenerar suas caudas. O Dr. Connors desenvolveu então um “soro especial”, obtido a partir dos lagartos, e conseguiu seu braço de volta. Entretanto, o preço cobrado foi que sua forma humana foi substituída por um imenso lagarto, tornando-se um dos mais terríveis inimigos do Homem-Aranha.

O fato de um ser vivo conseguir regenerar um membro do corpo é, por si só, extraordinário. Por exemplo, nós mamíferos infelizmente perdemos essa capacidade apresentada por alguns répteis. Na vida real, a capacidade de regeneração dos lagartos é um pouco mais decepcionante. Nada na cauda regenerada de um lagarto está certo, as escamas são diferentes, o padrão de cores da pele é diferente e quando se olha para os tecidos que formam a cauda eles estão completamente alterados. Por exemplo, não há osso, sendo o novo esqueleto cartilaginoso.

Entretanto, há um animal capaz de realizar regenerações perfeitas de seus membros. Trata-se da salamandra.

Legenda para figura: a esquerda uma salamandra (um anfíbio) e a direita um lagarto (um réptil). Fonte Thinglink

As salamandras, que podem ser confundidas com os lagartos, na verdade são anfíbios e não répteis. Além de sua aparência externa, ligeiramente parecidas, a arquitetura do esqueleto e do sistema nervoso desses dois animais também são similares.

Então, curiosos do porquê das diferenças na capacidade de regeneração entre os dois tipos de organismos, cientistas descobriram que o segredo pode estar nas tão famosas células-tronco. As células-tronco são basicamente definidas por duas características principais: conseguem originar uma célula idêntica a ela (tronco) e também dar origem a vários outros tipos celulares diferentes. Por exemplo, no sistema nervoso podem originar neurônios e glia (células que sustentam e nutrem os neurônios). No estudo publicado no final do mês de julho de 2018 na revista PNAS, os pesquisadores realizaram vários experimentos engenhosos. Em um deles, verificaram se durante o processo de regeneração eram encontradas, nas caudas de lagartos e salamandras, as chamadas células-tronco neurais (CTN). As CTN expressam uma importante proteína chamada Sox2+. Pois bem, eles encontraram as CTN-Sox2+ nos dois animais, entretanto, elas estavam comparativamente em locais diferentes. Além disso, apesar de possuírem em comum a expressão de Sox2, as CTN de lagartos e salamandras apresentavam a expressão diferente de outras proteínas. Esse foi o primeiro indicativo de que talvez as CTN do réptil de do anfíbio fossem diferentes. Eles então observaram, tanto in vivo quanto in vitro, que as CTN-Sox2+ da salamandra se reproduziam mais comparativamente com as CTN dos lagartos. Finalmente, os pesquisadores observaram que CTN das salamandras eram capazes de originar diferentes tipos de neurônios e células gliais. Entretanto, as CTN dos lagartos não conseguiram originar apenas células gliais. Esses resultados confirmaram e explicaram o porquê das salamandras regenerarem suas caudas melhor do que os lagartos.

Talvez, o mais incrível de todo esse trabalho, foi a observação de que as caudas de embriões de lagartos em formação eram similares as caudas em regeneração de salamandras adultas. Dessa forma, observando diferenças durante o processo de regeneração da cauda entre lagartos e salamandras, os pesquisadores mostraram que as salamandras conseguem “recriar” a morfologia e o ambiente que seus tecidos encontram durante o seu desenvolvimento embrionário. Portanto, é como se a cauda da salamandra fosse reconstruída no mesmo ambiente que ela encontrou na primeira vez em que foi formada. Os lagartos adultos não conseguem recriar esse ambiente “embrionário” durante a regeneração de suas caudas. Segundo os autores, isso estaria relacionado a existência das diferentes populações de células-tronco encontradas nas caudas de anfíbios e répteis. Como evolutivamente estamos mais próximos dos lagartos, nós mamíferos acabamos por perder a capacidade de regeneração.

Bem meus caros leitores, como vocês podem perceber o Dr. Connors deveria ter usado o soro de um anfíbio e não de um réptil e Stan Lee deveria ter chamado seu vilão de Homem Salamandra.

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