Da tragédia à oportunidade: a nova geração de vacinas antitumorais

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

No começo de 2020, tivemos o início da trágica pandemia global do COVID-19, que mesmo quase dois anos depois ainda assombra as nossas vidas. Por se tratar de uma doença nova, contra a qual ninguém possuía imunidade pré-existente, tornou-se urgente o desenvolvimento de vacinas que prevenissem casos graves e se possível a propagação da infecção pelo novo coronavírus. Felizmente, apesar de estarmos ainda longe de obtermos altos índices de vacinação globais (especialmente nos países subdesenvolvidos), o que se viu foram múltiplas parcerias científicas-biotecnológicas que desenvolveram múltiplas vacinas através de diferentes estratégias. Neste cenário catastrófico, a gigante farmacêutica Pfizer, em parceria com a startup alemã BioNTech e sob a liderança da cientista Kathrin Jansen, viu o COVID-19 como uma oportunidade perfeita para testar uma tecnologia vacinal revolucionária. Ao invés de induzir imunidade a partir da injeção de partículas virais inativadas, a estratégia da Pfizer-BioNTech envolveu o uso de pequenas bolhas de gordura (chamadas de lipossomas) contendo fragmentos de material genético (RNA mensageiro – mRNA) do novo coronavírus. A ideia é que, uma vez injetadas, esses lipossomas carregam o material genético viral para células do indivíduo vacinado, sendo convertidos em proteínas virais. Essas proteínas virais, então, desencadeiam a montagem de uma resposta imunológica contra o vírus, tornando os vacinados imunes à infecção. O sucesso dessa nova estratégia tem levado cientistas a questionar se essa tecnologia pode ser útil no tratamento de outras doenças, incluindo outros vírus e até mesmo o câncer.

Com esta questão em mente, em um trabalho desenvolvido nas empresas BioNtech e Sanofi, liderados pelo doutor Dmitri Wiederschain e publicado na revista Science Translational Medicine em 8 de setembro de 2021, Cientistas Descobriram Que a estratégia utilizada na vacina contra o COVID-19 pode ser usada para induzir a produção de moléculas antitumorais em tumores de camundongos. Por serem invólucros que protegem a carga transportada e facilitam a sua entrega às células do vacinado, cientistas utilizaram mais uma vez lipossomas, agora contendo mRNAs que codificam a produção, dentre outras, de interleucina-12 (IL-12), IL-15 e interferon alfa. Vale ressaltar que essas proteínas são conhecidas por ajudar o sistema imunológico a combater células tumorais.

Uma importante vantagem desta estratégia, quando comparada com a injeção direta das proteínas antitumorais mencionadas, é que o uso dos lipossomas induz uma produção local e transitória das proteínas em questão. Isto não apenas contorna a baixa estabilidade de proteínas diretamente inoculadas em sistemas biológicos, mas também previne potenciais efeitos colaterais graves desencadeados pela ação de proteínas inoculadas em alvos não tumorais.

Em experimentos com camundongos injetados com células de tumores de cólon e melanoma, os cientistas observaram que o tratamento com o coquetel de lipossomos resultou na regressão dos tumores de 17 dos 20 animais tratados. Vale ressaltar que a regressão de tumores é algo bastante raro no arsenal de tratamentos antitumorais existentes. Outro achado interessante do trabalho científico foi que, quando combinados com imunoterapias (discutidas no CDQ no texto de 27/04/2021), o tal coquetel de lipossomas resultou em robustas respostas antitumorais, que incluíam a regressão completa de tumores. Estes achados encorajadores resultaram no início de testes com esta nova estratégia em estudos envolvendo pacientes oncológicos humanos tratados com o coquetel de lipossomas, combinado ou não com imunoterapias. Além desse coquetel em particular, outra dúzia de ensaios envolvendo lipossomos com material genético para o tratamento de tumores de próstata, mama, melanoma e outros estão em andamento.

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