No autismo, o amor é o calor que aquece

Por Julia Fernandez Puñal Araújo e Geison Souza Izídio, Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno do desenvolvimento caracterizado por desafios como interação social, fala e comunicação não-verbal, bem como comportamentos repetitivos. No entanto, comportamentos sensoriais atípicos são um aspecto central do autismo, pois afetam cerca de 90% das crianças. 

Devido à complexidade de se estudar o cérebro de recém-nascidos, ou mesmo de crianças, existem modelos animais de camundongos, que imitam alguns aspectos do autismo e que permitem avanços significativos nesta área de pesquisa. Sabe-se que durante a primeira semana de vida destes camundongos, a integridade sensorial é fundamental, pois os recém-nascidos têm que realizar comportamentos inatos vitais, como, por exemplo, a busca de mamilos para se alimentar. Por nascerem pouco desenvolvidos (sem pelos, cegos e com pouca mobilidade corporal), os filhotes de camundongos apresentam, nos primeiros dias de vida, uma dependência materna muito maior que bebês humanos para lidar com todos os desafios.

Dentre os vários estímulos que surgem do mundo externo, uma redução da temperatura ambiental é muito relevante para os filhotes de camundongos. De fato, ao contrário dos indivíduos adultos homeotérmicos (capazes de regular e manter sua própria temperatura), os camundongos recém-nascidos são pecilotérmicos, ou seja, diretamente afetados pela temperatura do ambiente. Portanto, eles devem ficar em contato próximo com a mãe e os seus irmãos de ninhada, para conseguir manter adequadamente a temperatura do seu corpo. Na ausência da sua mãe calorosa e amorosa eles são expostos às temperaturas frias e precisam fazer vocalizações ultrassônicas para alertá-la que estão em perigo, pois neste período de vida eles são incapazes de tremer (uma importante estratégia evolutiva para aquecimento do corpo). A única maneira que camundongos recém-nascidos conseguem produzir algum calor próprio é através do metabolismo do tecido adiposo marrom, chamado de termogênese sem tremores. Viver realmente é uma arte, um ofício, só que é preciso cuidado.

Os cientistas então avaliaram a reatividade, termo sensorial em camundongos recém-nascidos e que devido a uma modificação genética (sem o gene Magel2)1 são usados como modelo experimental de autismo. Para elucidar o mecanismo biológico destas alterações de calor, foram estudadas as relações do tecido adiposo marrom e do sistema da ocitocina. Os *Cientistas Descobriram Que (i) os recém-nascidos modelo de autismo apresentavam alterações nas percepções de frio/calor; (ii) a desativação de neurônios de ocitocina, no tecido adiposo marrom, reduziu esta alteração de percepção de frio/calor; e (iii) que a injeção de ocitocina no nariz tem potencial para melhorar esta reatividade termo sensorial. Este fato é muito interessante, pois o uso de ocitocina intranasal tem sido frequente na prática clínica em muitas crianças com autismo e, aparentemente, vem se mostrando promissora na redução de seus prejuízos sociais.

Curiosamente, os Cientistas também Descobriram Que a demora destes filhotes em perceber o frio e iniciar o chamado ultrassônico de alerta parece impactar diretamente nos comportamentos de cuidado materno, sugerindo que os sistemas de ocitocina da mãe e dos filhotes são igualmente importantes para que ocorra o reconhecimento e a criação de laços afetivos entre ambos.

A ocitocina ficou popularmente conhecida como o hormônio do amor. Responsável por aquela sensação maravilhosa experimentada por uma mamãe e seu bebê quando se olham pela primeira vez nos olhos, após o parto. Aparentemente, agora estamos abrindo espaço para que a ocitocina seja também um excelente alvo nas pesquisas, que ajudarão nossas crianças com autismo. 

Mas é sempre importante relembrar que a ocitocina é produzida em muitos momentos ao longo da vida. Então, quando chegar o mês de maio onde comemoramos o Dia das Mães, aproveite para ficar quentinho(a) no abraço da sua mamãe, fortalecer os vossos laços e multiplicar o amor entre vocês e com a ciência. Afinal, na pesquisa do autismo, o amor é o calor que aquece!

1O gene Magel2 se relaciona com duas síndromes, que ocorrem em pacientes com autismo, e que acarretam em dificuldade para regular a temperatura corporal, com episódios de hipo ou hipertermia.

Para saber mais:

* Early life oxytocin treatment improves thermo-sensory reactivity and maternal behavior in neonates lacking the autism-associated gene Magel2

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