Por Paulo César Simões-Lopes – Dpto de Ecologia e Zoologia – UFSC
Não somos os únicos animais espertos é bem verdade. Muito antes da ciência avaliar com parcimônia os fenômenos complexos, já buscávamos soluções para nossa saúde usando outros caminhos menos ortodoxos. Quem não tomou um chazinho para melhorar a digestão ou resolver seu problema de gases?
Sim, já faz tempo que aprendemos, por tentativa e erro, a contornar alguns de nossos problemas, fosse um processo inflamatório, uma queimadura, a dor das picadas de abelha, a ansiedade insuportável ou uma prisão de ventre. Não só agora, mas muito cedo em nossa linhagem humana, raízes e folhas e flores e sementes e mesmo toxinas extraídas da pele de animais têm sido testadas por nós e usadas com algum sucesso. Há também crendices absurdas que são verdadeiros delírios, mas delas não trataremos aqui.
Aos poucos nos confrontamos com situações surpreendentes verificadas também em outros animais. Sabe-se de casos de elefantas prenhes no Quênia que comem certas folhas de árvores para induzir o parto, ou de babuínos na Etiópia que comem as folhas de uma determinada planta para combater os vermes que causam a esquistossomose, ou de cães domésticos que comem capim para provocar um vomitório. A lista é grande.
Alguns desse casos foram bem estudados e os Cientistas Descobriram Que chimpanzés comiam a casca amarga de uma árvore chamada de albizia1 para contornar problemas gastrointestinais e eliminar parasitas2. Muitas outras plantas, por eles utilizadas, também tinham componentes antiparasitários, antibacterianos, antifúngicos, citotóxicos3 e até antivirais. Aí estava a farmacopeia (a importante arte de preparar, compor ou usar medicamentos naturais) da floresta em toda a sua exuberância…

Foi então que Gertrud E. Morlock da University Giessen, na Alemanha e seus colegas se depararam com o estranho comportamento do golfinho Indo-pacífico (Tursiops aduncus) no Mar Vermelho4.
O golfinho esfregava as costas, o ventre e a cabeça contra alguns invertebrados marinhos disponíveis no sistema coralino. Isto ocorria seletiva e preferencialmente sobre a gorgônia5 Rumphella aggregata, o coral de couro Sarcophyton sp., e as esponjas Ircinia sp. (algumas dessas cenas aparecem no filme Blue Planet II Episodio 1 da BBC, Natural History Unit).
As gorgônias Rumphella são conhecidas por produzirem substâncias antimicrobianas, bem como metabólitos secundários citotóxicos (isto é, substâncias capazes de destruir células vivas), assim como a esponja Ircinia sp. O coral Sarcophyton sp. contém metabólitos bioativos. De imediato esses autores pensaram na hipótese de automedicação, seja preventiva ou curativa (zoopharmacognose).
Os golfinhos foram frequentemente observados fazendo uma fila, um atrás do outro, para esperar sua vez de se aproximar dos corais e das esponjas. Apenas os animais adultos tinham vez.

Só depois os filhotes e juvenis se engajavam nessa atividade, o que sugere algum grau de aprendizado social e de passagem entre gerações. Vez por outra, os golfinhos arrancavam uma porção do coral e o carregavam com a boca por alguns minutos, espargindo seu muco urticante pelo corpo. Os cientistas-mergulhadores puderam verificar no corpo dos golfinhos uma coloração amarelada ou esverdeada marcante devido aos compostos excretados pelos invertebrados.

Cabia agora avaliar o conteúdo dessas pretensas drogas. Assim, amostras do material usado pelos golfinhos foram levadas ao laboratório numa mistura de gelo e sal, acondicionada a menos 20 graus centígrados.
Depois de análises detalhadas os Cientistas Descobriram Que havia cerca de 17 componentes bioativos, ou seja, com efeitos diversos sobre organismos. Dentre eles, componentes antibacterianos (contra bactérias Gram-positivas e Gram-negativas), antioxidantes, inibidores da acetil-/butirilcolinesterase6, atividades estrogênica, antiestrogênica, antiandrogênica e genotóxica7.
…E esta é apenas a ponta do iceberg da farmacopeia dos mares. Se os chimpanzés nos ensinaram a respeito dos seus conhecimentos sobre os fármacos da floresta, agora os golfinhos nos ensinam sobre o seu equivalente marinho. Neste caso não usam plantas, mas animais. Todavia nos queda inatingível o que eles sentem ao espargir o muco dos corais sobre seus corpos. Fato é que os recifes de coral são muito mais importantes do que sequer supomos e merecem ser preservados do progresso bruto (ou pouco inteligente). Não fosse por sua beleza extraordinária e pela biodiversidade que comportam, pelo menos por seus produtos ainda desconhecidos.
Informações adicionais:
1 Algumas plantas dessa família (Fabaceae) possuem sementes utilizadas no tratamento de diarreia, disenteria e hemorroidas e as folhas, no tratamento de úlceras e nas conjuntivites alérgicas. Ver: Caracterização farmacognóstica das folhas e sementes de Albizia lebbeck (L.) Benth. (Fabaceae)
2 Current evidence for self-medication in primates: A multidisciplinary perspective
3 Citotóxico: substância capaz de destruir células vivas ou deter o seu conhecimento
4 Evidence that Indo-Pacific bottlenose dolphins self-medicate with invertebrates in coral reefs
5 Gorgonia: coral de coloração viva, achatado e em forma de leque, revestido de carapaça córnea.
6 Enzimas cuja ação está relacionada a propagação de impulsos nervosos entre outras funções.
7 Genotoxicidade: capacidade que algumas substâncias têm de induzir alterações no material genético de organismos.