E os cientistas do Afeganistão… Será que podemos ajudá-los?

Por Ricardo Castilho Garcez Dpto. Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC.

Muito foi noticiado sobre a retomada do poder no Afeganistão pelo Talibã. No entanto, pouco se falou sobre os cientistas afegãos e seus alunos. E, principalmente, por que eles estariam precisando de ajuda?

Desde 2002, com o fim do regime Talibã, o Afeganistão testemunhou um boom de conhecimento e informação. Foram criadas novas Universidades e 1.900 veículos de mídia, de acordo com a organização cultural das Nações Unidas, UNESCO. A população estudantil aumentou de 8.000 para 170.000, um quarto dos quais são mulheres. A Academia de Ciências do Afeganistão cresceu para empregar mais de 300 pessoas. Diversas colaborações científicas foram estabelecidas com países da Europa e Estados Unidos. Isso faz com que a maior parte da produção científica afegã esteja atrelada de alguma forma ao financiamento e/ou colaborações desses países. E é aqui que mora o perigo!

Durante o primeiro regime do Talibã no Afeganistão (1996-2001) eram frequentes as violações às regras dos direitos humanos. Pessoas que tivessem relações com países ocidentais, considerados inimigos, eram duramente punidas. Apesar das promessas do Talibã de anistia, os cientistas e seus alunos temem serem perseguidos devido às suas relações com EUA e países da Europa. Mesmo que cumprida essa anistia, as relações futuras com esses países ocidentais, provavelmente, não serão permitidas. Nesse caso, sem a ajuda financeira e as colaborações científicas, os pesquisadores afegãos ficarão isolados. Nesse cenário, como se sustentaria a ciência afegã?

Esses problemas que os cientistas afegãos enfrentam hoje, já foram enfrentados por outros cientistas. Durante a guerra fria, o Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicada (próximo a Viena) foi estabelecido em 1972 como um lugar onde cientistas do Oriente e do Ocidente pudessem colaborar num país neutro. Tanto a União Soviética quanto os Estados Unidos estavam entre os sócios fundadores.

Atualmente, a  fonte de radiação síncrotron na Jordânia, SESAME, é um exemplo de uma dessas iniciativas de colaboração. É um projeto criado para apoiar pesquisadores em países que têm relações internacionais difíceis. Seus participantes incluem Chipre e Turquia, bem como Irã e Israel. Os pesquisadores do Afeganistão, provavelmente serão convidados. 

Ajudar a manter a ciência em um país é uma questão humanitária. A ciência e os cientistas formam a base das Universidades. Na Universidade é onde será formada a mão de obra qualificada de um país, permitindo que existam ali profissionais das mais diversas áreas do conhecimento. Esses profissionais possibilitarão tanto a produção, quanto a tecnologia, a educação, a saúde etc.  

É necessário que os países apoiem os pesquisadores do Afeganistão, mantenham linhas mínimas de comunicação com os novos governantes. Para isso, o Talibã precisará honrar sua promessa de não punir pessoas que recebem financiamento dos EUA ou da Europa, ou que trabalham com organizações internacionais. 

Para saber mais, acesse:

A saga dos cientistas que copiam a natureza: um novo capítulo na construção de biopróteses de válvulas cardíacas

Por Marco Augusto Stimamiglio – Instituto Carlos Chagas – Fiocruz/PR

A substituição das válvulas do coração é um procedimento que pode ser necessário quando há falhas no sistema de fluidos que permite o adequado bombeamento e circulação do sangue por todo nosso corpo. Algumas destas falhas são causadas por dificuldades na abertura ou no fechamento correto das válvulas cardíacas, situações que podem ocorrer no curso de doenças degenerativas associadas ao envelhecimento. Nestes casos, o uso de próteses mecânicas ou biopróteses construídas em laboratório com o uso de tecidos animais são possíveis soluções para a substituição cirúrgica das válvulas que não funcionam plenamente. Entretanto, quando se trata de malformações congênitas (anomalias funcionais ou estruturais originadas durante o desenvolvimento intrauterino) ou outras doenças infanto-juvenis que causam mal funcionamento das válvulas, o uso de próteses mecânicas e biopróteses acaba limitado. Essa limitação ocorre porque estas próteses e biopróteses têm tamanhos fixos e não acompanham o crescimento do coração de uma criança. Isso significa que o paciente necessitará de novas cirurgias para substituição das válvulas ao longo dos anos até atingir a idade adulta.

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Glândulas salivares são alvos para o coronavírus

Por Filipe Modolo – Dpto. de Patologia, UFSC

Partículas virais (cabeça de seta) em meio às células das glândulas salivares. Fonte.

A pandemia do COVID-19 é um dos assuntos mais importantes do momento. Diversos textos de minha autoria desse blog científico já trataram de alguns aspectos relacionados à pandemia do COVID-19, com destaque para “O impacto da COVID-19 na saúde bucal,O impacto emocional do COVID-19 e “Os ensinamentos da pandemia”. Felizmente, a ciência é incansável e, por meio do árduo trabalho dos pesquisadores, diversas descobertas muito importantes têm sido noticiadas ultimamente.

Recentemente, cientistas descobriram que as glândulas salivares são um importante reservatório para o coronavírus! Neste momento, você pensa: “Mas, espera aí, qual a novidade?! Todo mundo já sabe que as gotículas (cheias de saliva) infectadas pelo coronavírus e disseminadas por meio da tosse, do espirro ou da fala de um paciente doente, são a principal forma de contaminação! Até por isso recomenda-se o uso de máscaras e o distanciamento social!” …

A resposta para essa pergunta está na complexidade da saliva! A saliva é um fluido corporal fruto da mistura de 4 componentes principais: fluido produzido e secretado pelas glândulas salivares, fluido gengival, secreções respiratórias e células bucais descamadas. Não se sabe exatamente quais desses componentes são portadores do vírus… Partindo dessa premissa, um grupo de pesquisadores brasileiros da USP, Instituto Adolfo Lutz e Universidade de Michigan estudaram amostras teciduais de glândulas salivares de pacientes que faleceram devido ao COVID-191.

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Não basta o vírus da COVID-19, agora existe um fungo também?

Por Kelmer Martins da Cunha & Elisandro Ricardo Drechsler dos Santos,  Depto. BOT-CCB/UFSC

Você já ouviu falar que na Índia existe um fungo que pode representar uma nova ameaça aos portadores da COVID-19?

A COVID-19 já causou mais de quatro milhões de mortes no mundo, e continua matando milhares diariamente. Também sabemos que a doença pode deixar sequelas nas pessoas, mas é difícil imaginar que a situação poderia ficar ainda pior. Recentemente, uma doença chamada popularmente de “fungo negro” ganhou grande atenção na mídia por disparar um alerta das autoridades de saúde, que já estavam preocupadas com a evolução da pandemia de Sars-CoV-2, em especial nos países em desenvolvimento e populosos, como a Índia, onde acometeu mais de 30 mil pessoas. No Brasil ainda são poucos os casos, até agora menos de 100 foram registrados.

Estamos falando da mucormicose, uma doença grave, porém não transmissível, que se inicia através da inalação, ingestão ou introdução pela pele de esporos de um fungo. O que espanta é o alto índice de mortalidade, que pode chegar a 50%. Muitas vezes, os pacientes que sobrevivem precisam passar por cirurgias para remoção de partes de seus corpos.

Culturas de fungos Mucorales, algumas das espécies causadoras da mucormicose.

Juntamente com essa nova doença vem se alastrando alguns equívocos que precisam ser corrigidos. Por exemplo, não se trata de uma única espécie, assim como não deve ser chamada de “fungo negro”. A mucormicose pode ser causada por diferentes espécies de fungos Mucorales, que dão nome à doença. Esses fungos não produzem o pigmento escuro, chamado melanina, em sua composição celular, então não são “fungos negros” propriamente.

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É usado em harmonizações faciais e tem até no shampoo! Afinal, o que é o ácido hialurônico?

Por Talita da Silva Jeremias – Dpto. de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC

A informação mais importante que você tem que saber sobre o ácido hialurônico é que esta molécula está presente naturalmente no nosso corpo. Os tecidos que formam os órgãos são compostos de células e matriz extracelular. A matriz extracelular é uma rede tridimensional formada por diferentes tipos de moléculas, como por exemplo o já conhecido colágeno e o agora famoso ácido hialurônico, que auxiliam na sustentação, no suporte físico dos tecidos e até na comunicação entre as células.

Então, o ácido hialurônico é um componente dessa matriz extracelular e está presente em todos os tecidos, sendo mais abundante na pele, tecidos esqueléticos, válvulas do coração, vítreo do olho, líquido sinovial (do joelho e dos dedos) e cordão umbilical. Para você ter uma ideia, em uma pessoa de aproximadamente 70kg, 15 gramas é de ácido hialurônico. Estamos falando de mais ou menos uma colher de sopa de açúcar de ácido hialurônico! E saiba, bioquimicamente falando, que realmente esta molécula é um açúcar (carboidrato): um glicosaminoglicano composto por dissacarídeos repetidos, com carga negativa e altamente hidrofílico (retém/atrai água).

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Tumores hibernam para sobreviver à quimioterapia

Apesar de termos à disposição uma razoável gama de drogas com efeito antitumoral, de maneira geral, um determinado tumor será sensível apenas a uma fração destas drogas. Além disso, mesmo quando um tumor é sensível a uma droga específica, comumente observa-se o desenvolvimento de resistência a curto ou médio prazo. Uma das explicações mais aceitas para este processo é a de que, mesmo quando a maioria das células em uma massa tumoral é sensível à uma determinada droga, comumente existirão populações de células tumorais resistentes à uma terapia em questão. Assim, ao final do tratamento com uma determinada droga, haveria espaço para uma população inicialmente minoritária se expandir e formar novas massas tumorais. Levando em conta esta teoria, em casos de retorno da massa tumoral, a estratégia mais adotada é a de buscar uma droga alternativa que possa ser eficiente contra estas células tumorais emergentes. Entretanto, não raramente, há casos aonde não é possível obter resposta antitumoral com drogas alternativas, seja por falta de efeito da droga e/ou por excessiva toxicidade da terapia em questão. Infelizmente, estes casos costumam resultar em baixa sobrevida dos pacientes.

Com isso em mente, de forma a melhorar a resposta e a sobrevida de pacientes oncológicos, fica clara a importância de buscarmos compreender com mais detalhes como tumores tornam-se resistentes às drogas. Outra questão crucial, sem uma resposta no campo da oncologia, é sobre como células cancerígenas se mantém inativas (ou dormentes) durante anos após um primeiro tratamento, voltando a formar lesões tumorais as vezes décadas depois do primeiro diagnóstico. 

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Penas Vermelhas, Tráfico de Fauna e Prestígio: uma história dos tempos antigos… 

Por Paulo César Simões-Lopes – Dpto de Ecologia e Zoologia – UFSC

Fonte: Artes Visuais: 1995 | Fabio Colombini.

Como já disse anteriormente, somos bons nisso… Somos eficientes. Nossa fama não é a de um “exterminador do futuro”, …somos exterminadores do presente, mas desde quando? 

Há um deserto muito seco, talvez o mais seco do mundo e também muito salgado. Chama-se Atacama, no Chile, e é um lugar absurdamente lindo. Quando passei por lá, não sabia que outros mistérios ele guardava, mas agora sei. Sua secura e seu sal o tornaram um testemunho e um repositório de nossa passagem desastrosa pelo mundo. 

Penas vermelhas, amarelas, azuis e verdes, e também ossos, tendões, músculos e pele, permitiram que novas informações emergissem das areias finas e das rochas e do sal. Tudo perfeitamente preservado na forma de múmias animais. 

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