Por que algumas mulheres têm infecções urinárias recorrentes?

Por Fabienne Ferreira do Dpto de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFSC.

Infecções urinárias (IU) são muito comuns em todo o mundo, afetando milhões de pessoas anualmente. Estas infecções são predominantemente causadas por bactérias que habitam o intestino, sendo a bactéria Escherichia coli (E. coli) a mais incidente. Por isso, as IU são mais frequentes em pessoas com vulva/vagina (designadas, neste artigo, por mulheres), uma vez que a entrada do trato urinário (uretra) está bem próxima anatomicamente da região de saída do intestino (ânus), facilitando a migração das bactérias de uma região para a outra. A IU pode ocorrer em qualquer parte do trato urinário, incluindo a uretra (causando uretrite), bexiga (cistite) e ureteres e rins (pielonefrite), conforme ilustrado na figura.

Em geral, as IU causam dor abdominal, desconforto para urinar e até febre. Se não tratadas, podem causar infecções mais graves, como sepse (caracterizada por uma resposta inflamatória muito intensa, em que o sistema circulatório se torna incapaz de fornecer oxigênio e nutrientes para tecidos e órgãos vitais), podendo levar à morte. 

É documentado que, se uma pessoa já teve uma IU na vida, ela tem maior chance de ter outras, o que é chamado de infecção urinária recorrente (IUr). Estima-se que cerca de 20-30% das mulheres diagnosticadas com IU irão experienciar recorrência, com algumas destas sofrendo com seis ou mais episódios ao ano. 

Um recente estudo, publicado na Nature Microbiology, procurou entender por que algumas mulheres têm IUr e outras não. Para responder esta questão, os pesquisadores recrutaram dois grupos de mulheres: um COM histórico de IUr e outro SEM histórico de IUr (saudáveis). Os cientistas acompanharam estas mulheres durante um ano, coletando amostras de fezes, urina e sangue. Nestas amostras, foram utilizadas técnicas de análise do material genético (DNA ou RNA), denominadas de metagenômica (análise de DNA de bactérias nas amostras de fezes e urina) e transcriptômica (análise de RNA de células humanas nas amostras de sangue). Para entender mais sobre estas técnicas, clique aqui

A partir da análise das fezes, os cientistas descobriram que a microbiota intestinal (bactérias que habitam o intestino) das mulheres com histórico de IUr é diferente e não tão diversa quanto das mulheres sem histórico, sugerindo um “desequilíbrio” da microbiota no primeiro grupo (conhecido pelo termo disbiose). Além disso, bactérias produtoras de butirato também estavam em menor número nas mulheres com histórico de IUr, de maneira semelhante ao que ocorre em doenças inflamatórias intestinais, como a doença de Crohn. Butirato é um composto químico (ácido graxo de cadeia curta), produzido por bactérias intestinais, que é conhecido por beneficiar a saúde intestinal através de seu papel anti-inflamatório. Estes dados sugerem que a susceptibilidade das mulheres com histórico de IU é, pelo menos em parte, mediada pela microbiota intestinal. 

A partir da análise da urina, os cientistas descobriram que havia E. coli presentes no intestino e na bexiga das mulheres com ou sem histórico de IUr, e que estas bactérias eram bem semelhantes nos dois grupos (tanto em abundância relativa quanto nas características genéticas), sugerindo que a disbiose observada a partir das fezes não altera a dinâmica de transmissão intestino-trato urinário, e que o fato de ter E. coli potencialmente causadora de IU habitando o corpo não é, sozinho, fundamental para o desenvolvimento de IUr. 

Por fim, a partir da análise do sangue, foram estudados marcadores de inflamação e ativação de células do sistema imunológico nas células humanas, para verificar se existia algum tipo de diferença na resposta imunológica. Comparando os dois grupos, observou-se que o perfil de expressão de alguns marcadores analisados foi diferente, sugerindo que pode haver uma alteração no perfil de resposta do sistema imunológico nas mulheres com IUr. 

Apesar do estudo não ter analisado a causa da disbiose observada, o uso de antibióticos de forma recorrente para tratar IUr pode estar associado, uma vez que já é bem documentado que tomar antibióticos causa uma perturbação na microbiota intestinal. No entanto, são necessárias mais evidências científicas que caracterizem os mecanismos associados a disbiose e a IU. 

Para além dos resultados reportados, este estudo mostra o quão complexa é a dinâmica das IU, com fatores da bactéria causadora da infecção, da microbiota intestinal e do hospedeiro humano participando conjuntamente, reforçando o quão importante é fazer ciência multidisciplinar, em que cada área (microbiologia, imunologia, fisiologia etc.) atua junta na solução de uma problemática.

Para saber mais: 

  1. Longitudinal multi-omics analyses link gut microbiome dysbiosis with recurrent urinary tract infections in women

Duas células, duas funções, e um cabo de guerra no nosso coração! 

Por Daniel Fernandes, Departamento de Farmacologia UFSC

Cabo de guerra é um jogo bastante popular no qual duas equipes competem entre si em um teste de força puxando uma corda. Recentemente foi tema de um episódio da série “Round 6” que mostrou que o cabo de guerra não é um jogo somente de força, mas pode envolver muita tática e estratégia! Curiosamente uma pesquisa mostrou que nossas células podem estar fazendo um verdadeiro cabo de guerra no nosso coração!

A interrupção do fluxo sanguíneo para o coração, que acontece no infarto agudo do miocárdio, muito conhecido como ataque cardíaco, gera uma lesão no coração que pode ser fatal. Para os pacientes que sobrevivem, infelizmente os problemas não terminam! Estes pacientes apresentam um risco elevado de sofrerem uma arritmia cardíaca. As arritmias são alterações no ritmo cardíaco normal e que comprometem o bombeamento de sangue para o nosso corpo, uma situação que também pode ser letal.

Agora, cientistas descobriram que dois tipos diferentes de leucócitos (células sanguíneas também conhecidas como glóbulos brancos) influenciam as arritmias que acontecem após um infarto, sugerindo que a modulação destas células pode ajudar a reduzir o risco de morte nestes pacientes.

O infarto do miocárdio é associado com uma intensa mudança no número e no tipo de leucócitos no tecido cardíaco. Este cenário fez os pesquisadores se perguntarem se existe alguma relação entre essas células e as arritmias que acontecem após um infarto.

Para responder a esta pergunta os autores do estudo começaram desenvolvendo um novo modelo experimental em camundongos, no qual a combinação de uma dieta pobre em potássio e a indução de um infarto experimental é capaz de desencadear quadros espontâneos de arritmias, simulando muito bem a condição humana. Este feito já foi um grande passo, pois não tínhamos um modelo experimental para estudar esta condição. Fica também um alerta sobre a importância da manutenção de níveis adequados de potássio no sangue, principalmente para indivíduos que utilizam medicamentos diuréticos já que vários deles alteram os níveis de potássio, podendo favorecer o desenvolvimento de arritmias. 

Mas o melhor do estudo ainda estava por vir! Já era sabido que os neutrófilos, um tipo específico de leucócito, se acumulam no tecido cardíaco nas primeiras horas após o infarto. Os autores do estudo então reduziram o número de neutrófilos circulantes dos camundongos através de injeções com anticorpos contra algumas proteínas presentes nestas células. A depleção de neutrófilos foi capaz de reduzir as arritmias cardíacas nos animais infartados, indicando que os neutrófilos estão envolvidos no desenvolvimento das arritmias. 

Suportando estes achados em camundongos, os pesquisadores demonstraram ainda que pacientes infartados e que tinham um maior número de neutrófilos circulantes apresentavam maior risco de desenvolver arritmias e até mesmo morte. 

Mas as descobertas não pararam com os neutrófilos. Os pesquisadores estudaram também o papel de uma outra célula chamada macrófago. Os pesquisadores reduziram a quantidade de macrófagos no coração através de duas estratégias: 1) inibindo a proliferação de macrófagos que já estavam no coração e 2) impedindo a mobilização de monócitos do sangue para o coração. Os monócitos são um outro tipo de leucócito e podem dar a origem a novos macrófagos. Os camundongos infartados e com redução de macrófagos através destas duas estratégias tiveram um aumento no número de arritmias, indicando que os macrófagos protegem contra as arritmias pós-infarto. De acordo com o estudo, os macrófagos promovem o processo de reparação do tecido cardíaco lesionado. 

Resumindo, após um infarto, enquanto os neutrófilos promovem arritmias os macrófagos protegem contra ela, o que permite uma analogia com o cabo de guerra! Segundo os autores do trabalho, eles ainda estão “contemplando a melhor forma de transformar estas descobertas em estratégias terapêuticas”. Mas possivelmente no futuro poderemos usar táticas e estratégias neste cabo de guerra para que o resultado deste jogo seja favorável para o nosso coração! Esta compreensão pode permitir o desenvolvimento de uma nova classe de medicamentos antiarrítmicos que tenham um papel imunomodulatório. Sempre vale lembrar que são estudos iniciais, e há muito caminho pela frente, mas as perspectivas são animadoras.

Para saber mais:

  1. Neutrophils incite and macrophages avert electrical storm after myocardial infarction

O beijo da morte e a guerra entre linfócitos e tumores

Por Prof. Dr. Giordano Wosgrau Calloni – Depto de Biologia Celular, Embriologia e Genética, UFSC.

Na terceira parte de um dos maiores filmes da história do cinema norte-americano, o Poderoso Chefão, assistimos ao famoso beijo da morte. Michael Corleone beija violentamente a boca de seu irmão Fredo após descobrir a traição que este cometeu. O beijo era o sinal de que Fredo estava marcado para morrer. Para a máfia, este beijo imposto, de certa forma “roubado”, tem como objetivo sinalizar que a morte do ser beijado foi decretada.

Um beijo similar parece acontecer em escala microscópica no nosso organismo. Cientistas descobriram que existem beijos roubados entre as células que podem levar à morte do organismo em sua batalha contra células tumorais. 

Células NK roubam membrana tumoral

Para entendermos o que acontece, precisamos primeiramente falar de um grupo específico de células que circula em nossa corrente sanguínea e que possui um nome que mais parece ter saído de um filme de mafiosos: as Natural Killers, ou abreviadamente, NK, (literalmente assassinas por natureza, ou assassinas naturais). As células NK são um tipo de linfócitos do nosso sistema imune.

Muitos linfócitos são produtores de citocinas, ou seja, de proteínas que, como balas, saem da pistola de um gângster e são lançadas contra outros gangsters. Essas balas, ops, citocinas são lançadas e podem matar tanto células infectadas por vírus, quanto células tumorais. Linfócitos matadores de tumores foram relatados pela primeira vez em 1968, por Hellström e colaboradores. Alguns anos depois, em 1975, Kiessling e colegas, em paralelo com o grupo de pesquisa de Ronald Herberman, definiram uma nova população de linfócitos capazes de atingir células tumorais que foram chamados de Natural Killers (NKs). Portanto, as NKs seriam gângsters que valem a pena termos como aliadas.

Continuar lendo

Pode haver relação entre o estresse social e o envelhecimento do nosso sistema imune? 

Por Dr. Marco Augusto Stimamiglio do Instituto Carlos Chagas – Fiocruz

À medida que a população mundial de idosos aumenta, compreender as disparidades na saúde relacionadas à idade se torna uma tarefa essencial. O envelhecimento do nosso sistema imunológico tem papel crítico na manifestação de doenças e no declínio das condições de saúde relacionadas à idade, como a menor eficiência na recuperação de infecções e no combate a patógenos oportunistas. Mas será que pode haver alguma associação entre o envelhecimento do nosso sistema imune e o estresse social (como discriminação, trauma, estresse crônico) que somos submetidos ao longo de nossas vidas? 

É evidente que cada indivíduo tem uma taxa de envelhecimento do seu sistema imune e que fatores como o tabagismo podem acelerar esta taxa, enquanto a prática regular de exercícios físicos pode retardá-la. Em um estudo publicado em junho de 2022 na prestigiada revista PNAS, foram utilizados dados de saúde de mais de 5 mil adultos norte-americanos acima dos 50 anos de idade para revelar a associação entre fatores socioeconômicos ou de estilo de vida e o envelhecimento imunológico acelerado.

Continuar lendo

Um tesouro invisível no leite materno

Por Fabienne Ferreira, Dpto de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFSC

Você provavelmente já ouviu falar que o aleitamento materno apresenta inúmeros benefícios à saúde do bebê, certo? Não pode ser à toa que diversos órgãos em saúde, como a Organização Mundial de Saúde (OMS), recomendam o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de idade da criança. O leite materno já é conhecido a muito tempo por fornecer todos os nutrientes necessários nos primeiros meses de vida do bebê, além de conter anticorpos que ajudam a proteger a criança contra diversas doenças. Evidências científicas mais recentes apontam benefícios adicionais do leite materno, como o auxílio no desenvolvimento do sistema imunológico (sistema de defesa) do bebê, que parece impactar positivamente em etapas posteriores da sua vida. Talvez seja por isso que alguns estudos apontam que crianças alimentadas com leite materno tendem a apresentar menores taxas de alergias, diabetes e asma ao longo da vida. 

Continuar lendo

Sobre lobos, cães e homens… uma origem da domesticação

Por Paulo César Simões-Lopes – Dpto de Ecologia e Zoologia – UFSC

Há vários lobos dentro de mim, mas todos eles uivam para a mesma lua”, teria dito Virgílio. Os lobos traduzem nossos medos, que são muitos, no mais das vezes medos do mundo natural. Para muitos, natureza é só aquela que pode ser modificada, transformada, subjugada. E com os lobos não foi diferente. Nossa relação com eles não é nada nova, tampouco amistosa. Foram caçados, comidos, sequestrados e por fim modificados. Precisávamos de sentinelas gratuitas para nossos acampamentos quando ainda éramos caçadores-coletores nômades. Precisávamos de alguém com um bom focinho para seguir as trilhas olfativas de nossas presas. Precisávamos de carne quando tudo mais faltasse.

E foi assim que roubamos filhotes de lobos ou matamos suas mães zelosas para cria-los como parte de nossa família humana. Logo ficaríamos com os lobinhos mais mansos e abateríamos os mais ferozes. De geração em geração, dobramos seu temperamento, sua autonomia, sua iniciativa. Mas quando esse lento processo começou? Quando os lobos viraram cães? Onde foi que essa transformação ocorreu pela primeira vez? Teria ela ocorrido em diferentes locais ao mesmo tempo?

Continuar lendo

Sífilis: a história de uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST) possivelmente exportada das Américas para o Velho Mundo

Por Ricardo Mazzon, Dpto. de Microbiologia, UFSC

A sífilis epidêmica, doença causada pela espiroqueta Treponema pallidum subesp. pallidum, provavelmente é tão antiga quanto o advento das civilizações humanas modernas. Isto porque existem relatos de doenças com característica bastantes similares e de transmissão sexual que remetem à sífilis, embora sem comprovação, já no antigo Egito. Acredita-se que a primeira descrição confiável da sífilis ocorreu no século XV, devido a um evento epidêmico de grandes proporções na Europa a partir do retorno das tropas francesas regressando da Itália. Nessa época, a doença apresentava alta letalidade. Durante a Primeira Guerra Mundial, foi a segunda doença que mais afastou combatentes, perdendo apenas para a gripe espanhola. Já no início do século XVI, tinha-se a noção da transmissão da sífilis por meio de intercurso sexual, sendo que essa foi a provável explicação para a sua disseminação pelo mundo. 

Após 50 a 100 anos do evento epidêmico de 1495, a doença se tornou menos agressiva e menos letal, se mostrando mais episódica como é atualmente. Ela passou a apresentar fases mais marcadas, sendo a primeira fase representada pelas úlceras genitais, que se cicatrizam espontaneamente sem tratamento. Na segunda fase, na qual há o desenvolvimento de erupções cutâneas, febre e dores intensas. Em seguida, a infecção torna-se latente e assintomática por muitos anos até que a fase terciária da doença se manifesta por abcessos, úlceras, deformações (lesões gomatosas) culminando em debilidade severa e morte.

Continuar lendo