Dr. YouTubeTM, a evolução do Dr. GoogleTM

Por Filipe Modolo – Dpto. de Patologia, UFSC

Não é novidade para nenhum de nós que a internet tem uma importância enorme em nossas vidas e trouxe consigo diversos benefícios, como difusão mais rápida de informações, interação virtual em redes sociais, maior facilidade de comunicação entre pessoas que encontram-se distantes e diversas comodidades, como serviços de transporte, banco, entrega e namoro, entre outras… No entanto, quando a internet é utilizada de maneira inapropriada, traz consigo diversos malefícios, como informações superficiais e/ou falsas (fake news), superficialização das relações pessoais (muito amigos virtuais e pouco contato humano), propagação de crimes virtuais, ciberbullying, etc…

Na área da saúde, como consequência da propagação da internet, os profissionais das áreas médicas passaram a dividir seus consultórios com o “Dr. GoogleTM”. Todos sabemos que o GoogleTM está constantemente transformando a forma como as informações circulam e, com isso, promovendo acesso às mesmas por uma grande parcela da população, um conceito simplesmente FANTÁSTICO! No entanto, no campo específico da saúde, essa circulação de informações sobre as doenças está trazendo diversos problemas para o dia-a-dia dos consultórios, pois a maioria dos pacientes chega para atendimento já com um diagnóstico encontrado no GoogleTM

Mas afinal, quem nunca perguntou algo ao GoogleTM? Como culpar os pacientes pela curiosidade? As buscas nesse serviço são tão corriqueiras que já existe uma expressão para designar uma busca no GoogleTM: “Faz um GoogleTM!” … O grande problema é que as respostas dadas em uma pesquisa rápida no GoogleTM são extremamente inespecíficas e não necessariamente revisadas por profissionais da saúde… Por exemplo: o paciente que apresenta manchas avermelhadas na pele e pesquisa no GoogleTM “manchas vermelhas na pele” vai ter como possibilidades de diagnóstico desde uma simples alergia, até doenças graves como lesões por infecção pelo Zika vírus, Psoríase ou Lúpus Eritematoso… Ou seja, o “Dr. GoogleTM” não individualiza o atendimento para o caso de cada paciente (como devem fazer os profissionais da saúde). E normalmente traz respostas relativamente genéricas e superficiais. Isso é muito preocupante na medida que pode mudar as crenças da população e levar a hábitos e comportamentos danosos à saúde.

Cientistas descobriram que… o “Dr. GoogleTM” evoluiu para o “Dr. YouTubeTM”, um doutor bem mais “interessante”, pois não só dá o diagnóstico, como também faz isso na forma de vídeos explicativos e, muitas vezes, até divertidos. A equipe de pesquisa em doenças bucais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)(1) procurou no YouTubeTM por vídeos na língua inglesa que abordassem uma doença bucal chamada Leucoplasia e encontrou 1.690 vídeos! Como seria impossível estudar todos esses vídeos, os 100 primeiros foram analisados e, após a retirada de vídeos irrelevantes, sobraram 28 vídeos que foram profundamente analisados. A partir de um instrumento de análise que avaliava a fonte, duração, visualizações, número de “gostei” (likes), número de “não gostei” (dislikes) (disponíveis no website), qualidade, utilidade e confiabilidade (avaliadas por Cirurgiões Dentistas), os pesquisadores concluíram que a maioria dos vídeos era de baixa qualidade, pouco úteis e pouco confiáveis, um resultado extremamente preocupante! Ainda que os poucos vídeos de melhor qualidade tenham sido os mais assistidos e bem avaliados pelos usuários, predominaram os vídeos ruins e, certamente, esses aparecerão como fonte de informação para o paciente que queira saber um pouco mais sobre a sua doença…

Mas a culpa do mau uso dessas plataformas não é do GoogleTM ou do YouTubeTM, já que elas têm a filosofia de serem plataformas abertas (um conceito FANTÁSTICO) aos mais diversos conteúdos, sem triagem prévia. Quem deve reverter este quadro são os próprios profissionais e estudantes da saúde, que devem ajudar a alimentar essas bases de dados com informações baseadas em evidências, disponibilizando assim, material de qualidade para os usuários leigos, ansiosos por conhecer mais sobre a doença que estão portando. Fica aqui o convite para que todos os profissionais produzam mais conteúdos científicos em suas áreas (não só da saúde) e disponibilizem os mesmos na internet, como está fazendo o “Cientistas descobriram que…ACEITA O DESAFIO?

Para saber mais, acesse o artigo original:

 

Acionando a destruição de tumores a partir da injeção de células moribundas 

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Como discutido no artigo do CDQ de 30 de outubro de 2013 (Abaixo à corrupção tumoral!), apesar das células cancerígenas serem as protagonistas nas lesões tumorais, a conivência de células não tumorais, como as do sistema imune, é chave para o aparecimento e progressão maligna de tumores. Apesar de já estudada durante alguns anos, a utilização de células imunes geneticamente modificadas para matar tumores, também conhecidas como células T com receptor de antígeno quimérico ou células T CAR, só foi aprovada para uso em pacientes em 2017 pelo FDA dos Estados Unidos (U.S. Food & Drug Administration). Essa aprovação, inicialmente aplicada em pacientes pediátricos com leucemia e adultos com linfomas, abriu uma encorajadora gama de possibilidades para a potencial erradicação de tumores de difícil tratamento, como os com espalhamento metastático. Utilizando como base um racional parecido, em um trabalho liderado pelo Dr. Andrew Oberst da Universidade de Washington, publicado na revista Science Immunology, em junho de 2019, Cientistas Descobriram Que a inoculação de células não tumorais em estado moribundo são capazes de induzir significante resposta imune antitumoral em animais Continuar lendo

Cancele a omelete, os ovos podem matar você! Será?

Por Daniel Fernandes – Dpto de Farmacologia – UFSC

O leitor deve estar pensando neste momento “de novo, não!”. O debate sobre o consumo de ovos realmente parece não ter fim! Na década de 60, foram publicados estudos observacionais que mostravam uma importante associação entre os níveis de colesterol sanguíneo e o risco de doenças cardiovasculares. Sendo o ovo um dos alimentos mais ricos em colesterol e amplamente consumido, ele rapidamente se tornou um vilão. Diante deste cenário, em 1968 a American Heart Association, umas das principais organizações que determina diretrizes para a prevenção e tratamento de doenças cardiovasculares, recomendou que as pessoas consumissem menos de três ovos inteiros por semana, alegando que o colesterol elevado na dieta é igual a colesterol alto no sangue e, consequentemente, representa maiores riscos de doenças cardiovasculares. Isto gerou um grande medo na sociedade em relação ao consumo de ovos. Em uma crônica de Luiz Fernando Veríssimo intitulada “Ovo”, ele descreve bem esse fato: “Cardíacos deviam desviar o olhar se um ovo fosse servido num prato vizinho: ver o ovo fazia mal”. Continuar lendo

Proteger a Vida verde para que(m)?

Por Giordano W. Calloni – Dpto. de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC

Figura 1: Pahvo: um planeta sem Vida? Momento em que a nave USS Discovery adentra o planeta Pahvo (Fonte: Foto do próprio autor de Star Trek Discovery, Temp.1-8).

6’:55’ – Estamos dentro de uma nave e vamos nos aproximando de uma densa e exuberante mata. Detalhe: as folhas não são verdes, mas azuis.

7’:14” – Caminhando em meio às árvores a especialista Michael Burnham se apresenta ao público. Descobrimos que o planeta se chama Pahvo (Figura 1) e a tripulação da nave já está ali há 18 horas na vã tentativa de detectar alguma forma de vida.

7’:23” – A especialista, ainda em meio às árvores, nos adverte: “parece ser um planeta desabitado, mas único e, para nós, estratégico”.

7’:29” – A especialista Burnham está com os outros dois tripulantes da nave, o humano Ash Tyler e o alienígena Saru. Uma substância Continuar lendo

Novas “velhas” descobertas sobre cromossomos e a agressividade de tumores de próstata

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Uma vez ou outra nos deparamos com conceitos científicos que apesar de serem tidos como estabelecidos, às vezes simplesmente por fazerem muito sentido frente a achados clássicos da literatura, nunca foram testados de maneira aprofundada e sistemática. Esse é o caso da associação entre mudanças no número de cromossomos com o desenvolvimento de células tumorais agressivas. Esta mudança numérica, conhecida também como aneuploidia, é uma velha conhecida das aulas de genética na escola, especialmente nos casos das síndromes de Down, Patau e Edwards, aonde se observa uma cópia extra dos cromossomos 21, 13 e 18, respectivamente.

A ideia é que, devido à sua grande propensão de acumular erros na cópia de genes, Continuar lendo

A onda da impressão 3D de tecidos personalizados: como a ciência ensaia reparar o coração

Por Marco Augusto StimamiglioInstituto Carlos Chagas – Fiocruz/PR 

Cientistas da Universidade de Tel Aviv, em Jerusalém, construíram com uma impressora 3D um coração vivo a partir de tecido humano. Essa foi a notícia amplamente veiculada pela imprensa nacional e internacional no mês de abril de 2019. O estudo, publicado na revista Advanced Science, provocou um estado de êxtase na mídia em relação à possibilidade da realização de transplantes cardíacos sem a necessidade de busca por doadores compatíveis ou risco de rejeição. Apesar de seu tamanho reduzido (cerca de três centímetros), o coração impresso apresenta as características físicas bem próximas à realidade (tecido muscular, vasos sanguíneos, câmaras internas) efetivamente impressiona. No entanto, sem tirar o mérito dos cientistas israelenses, é importante ponderar o impacto deste estudo para o desenvolvimento da área de engenharia de tecidos e para sua possível aplicação clínica em pacientes cardíacos.

É bastante evidente a evolução das técnicas e estratégias de impressão 3D de tecidos nos últimos anos. O uso dos chamados hidrogéis, que são polímeros altamente hidratados como o próprio nome sugere (uma espécie de gelatina), permite moldar estruturas tridimensionais vascularizadas (com canais Continuar lendo

Mais uma esperteza das bactérias: contra tudo e contra todos

Por Rita Zilhão, Faculdade de Ciências de Lisboa, Portugal

Em 2015, escrevi para este blogue um texto que se intitulava “Mais uma lição das bactérias: dão de comer a quem tem fome”. Nesse texto eu falei da formação de nanotubos (apêndices membranares) entre bactérias que permitiam a transferência dirigida de elementos do citoplasma específicos com uma função nutricional. Os nanotubos ajudariam desta forma a distribuir as funções metabólicas dentro das comunidades microbianas, ampliando significativamente o seu repertório bioquímico e possibilitavam às bactérias enfrentar ou contrariar uma situação de stress nutricional.

Ora, já há muito se sabe, que bactérias patogénicas (patogênica, em português do Brasil) como as enteropatogénicas de Escherichia coli (EPEC), colonizam o intestino e utilizam um sistema de secreção conhecido como “injectossoma” – sendo essa justamente uma das características que as torna patogénicas – por transferirem para as células epiteliais (enterócitos), que forram o interior (lúmen) do intestino, diversas proteínas efectoras existentes no citoplasma da bactéria. Continuar lendo