Organizando a vida

Por: Giordano W. Calloni – Dpto. de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC 

Um artigo, publicado na conceituada revista Nature no último mês de maio, reforça, de maneira contundente, mais um dos aspectos da incrível conservação de mecanismos biológicos ao longo da Evolução.

Figura 1: a) experimento original de Spemann e Mangold, 1924.
b) experimento de Martyn e colaboradores, 2018. Figura modificada
de Pourquié, 2018.

Cientistas descobriram que em humanos ocorre a presença de uma estrutura que havia sido identificada inicialmente em embriões de sapos, há quase 100 anos atrás. Essa estrutura chama-se Organizador (tradução literal de “Organizer”). A história da descoberta do Organizador em sapos é por si só fascinante. Em 1924, Hans Spemann e sua aluna de doutorado Hilde Mangold fizeram o transplante de uma pequena região contendo um grupo de células de um embrião de uma espécie de salamandra (pigmentada) para uma outra espécie (não pigmentada) (Figura. 1a). O resultado foi absolutamente extraordinário: o grupo de células que foi transplantado foi capaz de induzir a formação de um segundo embrião parcial no tecido hospedeiro. Dessa forma, esse grupo de células transplantado tinha o poder de induzir os tecidos do hospedeiro a mudar seus “destinos” e formarem outras estruturas, originando um ser vivo novo e completo. Na verdade, esse segundo embrião formado, apenas um pouco menor, parecia um gêmeo siamês e era constituído pelo tecido transplantado, mas majoritariamente pelo tecido do hospedeiro. Continuar lendo

O homem pode ser o responsável por espalhar doença que extingue espécies de sapos em todo o mundo

Por Elisandro Ricardo Drechsler dos Santos, Dpto de BOT-CCB, PPGFAP – UFSC

Figura 1 – Capa da revista Science estampando o trabalho sobre a quitridiomicose (O’Hanlon et al.)

A descoberta ganhou a capa do último volume (11 de maio de 2018) da Science (Figura 1), uma das revistas científicas mais conceituadas na atualidade. Para entender o impacto dessa descoberta, precisamos primeiro entender a doença e seu agente causal.

Quitridiomicose é uma doença infecciosa, que mata sapos, rãs e salamandras, e que vem dizimando várias populações e espécies em todo o mundo (Figura 2). A doença recebe esse nome porque é causada pelo fungo Batrachochytrium dendrobatidis Longcore, Pessier & D.K. Nichols, que pertence ao grupo de fungos Chitridiomycota. Essa “micose dos anfíbios” se dá pelo contato com os esporos do fungo na água. Os esporos infectam e o fungo se desenvolve na pele do anfíbio, causando úlceras e uma série de outros sintomas, que podem mudar o comportamento do animal, mas a principal consequência é a morte. Essa doença fatal foi observada ainda na década de 70 por Herpetólogos – especialistas no estudo de anfíbios e répteis – mas se tornou reconhecida como um fenômeno mundial somente nos anos 90. Vários casos da doença já foram registrados na Austrália, Ásia, África, Europa e América e por isso é tratada como uma panzoomia. Continuar lendo

A saúde bucal da criança é um reflexo do comportamento dos pais

Por Filipe Modolo – Dpto. de Patologia, UFSC

Não é novidade para nenhum de nós que a família, principalmente os pais, são os grandes exemplos para os filhos. Também não é novidade que os adultos ensinam muito mais aos seus filhos pelas suas atitudes do que pelo seu discurso. No entanto, infelizmente muitos pais e familiares ainda se valem do provérbio “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” na educação dos seus filhos. As consequências dessa forma de educação já foram bem estudadas na construção da relação da criança com a sociedade e com o mundo que a circunda pela psicologia, sociologia, antropologia entre outras. Mas as provas científicas de que essa forma de relação também afeta a saúde das crianças são relativamente recentes. Continuar lendo

Um termômetro pode medir a temperatura de uma célula?

Por Victor Hugo Vitorino Sarmento – Dep. de Química – UFS

O termômetro é, sem dúvida alguma, um instrumento indispensável na nossa sociedade. Quem nunca teve uma febre no meio da noite e a mamãe, com toda a preocupação do mundo, colocou um termômetro embaixo do nosso braço e mediu a temperatura do nosso corpo? Era o que auxiliava na decisão entre tomar um antitérmico e voltar para cama ou tomar um banho e correr diretamente para o hospital!

Figura 1. (a), (b) Esquema da medição de temperatura usando um sensor de fibra óptica em um circuito integrado com trilhas de larguras diferentes (até 200 μm) cobertas por camadas sobrepostas de nanopartículas de íons Eu3+ e Tb3+ dispersas em filmes poliméricos, cobertas por uma camada de óxido de silício (SiO2) e de outra camada magnética, formada por íons de óxido de ferro em escala manométrica.

Continuar lendo

O Ministério da Saúde Adverte: O excesso de poder causa danos ao cérebro

Por Vitor Klein Professor do Depto de Governança Pública da UDESC

O ano é 2018; a TV dispara uma sequência nauseante de notícias. De um lado, em tom de ameaça, o líder norte-coreano faz um pronunciamento no qual enfatiza ter à sua mesa um botão nuclear; do outro lado, o presidente norte-americano replica, em sua conta do twitter, possuir um botão maior e mais poderoso. A sensação de que homens de poder podem nos lançar a um precipício, ao mesmo tempo em que permanecem alheios ao seu eleitorado e imunes aos conselhos de sua administração, é bastante perturbadora. O fenômeno Trump nos remete, no entanto, a uma intuição bastante antiga, a de que o poder tende a intoxicar e a corromper. Estudos recentes não só confirmam essa intuição, mas descrevem como o poder intoxica (Figura 1) e sugerem o que fazer para evitar que isso ocorra.
Continuar lendo

E se conseguíssemos simular computacionalmente o funcionamento de uma célula?

Por Guilherme Razzera, Laboratório de Bioinformática Estrutural – UFSC

Imagem de um fofossistema na membrana do cloroplasto. Para visualizar os vídeos, clique aqui.

Há muitas maneiras de se estudar o funcionamento de um organismo ou de parte dele, e certamente a experimentação in vitro ou in vivo, com as coisas reais mesmo, foi a principal maneira que encontramos para construir o nosso conhecimento científico. A questão é: existem outras formas que vêm se difundindo nos últimos anos. Você já parou para pensar no quanto podemos simular as coisas atualmente? Estou falando de uma grande capacidade que temos de construir modelos, como os meteorológicos, por exemplo, que envolvem uma grande capacidade de cálculos e nos oferecem uma boa previsão em curto prazo. Tá bom, tem vezes que não dá pra confiar totalmente e deixar o guarda-chuvas em casa com segurança, mas usamos no nosso dia-a-dia, certo? Agora: e se conseguíssemos simular uma célula viva? Dizer quais são suas características, quais suas sequências de DNA, quais RNAs, quais proteínas, quais os tipos de membranas, qual pH, qual força iônica, entre outros parâmetros, além de simular o seu funcionamento e suas respostas. Será Continuar lendo

Imitando o nariz canino

Por Renata  Kaminski Dpto. de Química, UFS / Aracajú – SE

Todos sabem que os cachorros possuem um olfato extremamente sensível, esse sentido aguçado se deve ao alinhamento de milhões de minúsculos capilares (tubinhos) que cobrem uma grande área superficial, fazendo com que nossos melhores amigos sejam capazes de detectar odores em concentrações extremamente baixas.

A inspiração dos cientistas na estrutura do nariz dos cães para criação de sensores gasosos não é tão recente. No entanto, a grande dificuldade de fazer uma “boa imitação” é que o material seja de fácil obtenção em escala industrial e a síntese seja reprodutível, ou seja, que se obtenha sempre o mesmo material e com as mesmas Continuar lendo