O Umbigo de Adão? Uma discussão sobre criacionismo

Por Paulo César Simões-Lopes  – Dpto de Ecologia e Zoologia – UFSC

Existem coisas que ninguém mais deveria propor, muito menos ensinar aos outros. coisas sem nenhuma fundamentação científica. A pergunta é simples e objetiva e mesmo um “terraplanista” conseguiria responder de pronto. Adão tinha umbigo?

Resposta número 1: tinha ora!… todo mundo tem umbigo, a charmosa cicatriz do cordão umbilical que nos liga à placenta materna. Assim, Adão, o dito primeiro homem, era um verdadeiro filho da mãe (dele, é claro). Digo isso com todo respeito que tenho pelas mães e mulheres desse planeta esférico. Assim, o umbigo de Adão nos leva a uma questão primordial: o primeiro homem era na verdade uma mulher (a mãe de Adão, ora), que maravilha! Numa sociedade machista e controladora, para não dizer despótica, isto virou um problemão. Assim vamos a outra hipótese.

Resposta número 2: Adão não tinha umbigo, pois foi criado por Deus e já nasceu adulto e branco. A igreja cristã dos tempos medievais não sabia lidar com isso e mandou cobrir o umbigo e o sexo em algumas pinturas da época. Colocou folhas de videira ou lençóis branquinhos de forma a eliminar os problemas umbilicais. Adão continuava pintado como um homem branco, mesmo tendo surgido na África, onde estão os registros mais antigos da espécie humana, mas pelo menos não tinha umbigo e isto já bastava para saciar aquele raciocínio antigo (afinal de contas a Ciência nem tinha surgido, assim como o CDQ). O problema dessa ideia é que se Adão não tinha umbigo, como se fosse uma boneca Barbi, então não era humano e sim um Deus, ora essa! Isto seria conveniente para explicar como ele “criou” a mulher a partir de sua costela. (O osso mais simplório do corpo teria dado origem ao organismo mais complexo e completo da história da vida!)

Ao considerar a hipótese número 2, voltamos ao mesmo problema de antes. Se foi Adão quem criou a mulher então seria ela, e não ele, o primeiro homem, ou seja, a sociedade machista daquela época (assim como a de hoje) continuava enredada num raciocínio circular, que a Ciência tentaria resolver no futuro. Nas duas hipóteses, o primeiro homem foi uma mulher com umbigo já que sua prole o tem até hoje.

Vejam que o Vaticano já bateu o martelo (ou o báculo) sobre o assunto. Já disse que as evidências científicas sobre o surgimento do homem (por sinal negro) na África ou no oriente próximo, há 100 ou 300 mil anos [1], não são antagônicas ao dogma religioso. Ambas as ideias podem conviver, pois o Adão com umbigo de Michelangelo, no teto da Capela Sistina, serve aos padrões da igreja e além do mais trata-se uma pintura extraordinária. Quando a igreja fala da origem de um homem chamado Adão, fala do homem religioso, aquele que poderia perceber Deus. Os teólogos modernos já resolveram essa questão….

É claro que existem evidências sólidas de que a religiosidade humana tenha surgido bem antes do cristianismo e até mesmo em nosso parente neandertal [2], mas não vamos embolar as coisas justo agora que o problema tolo do umbigo de Adão foi resolvido.

Veredicto: o primeiro homem tinha umbigo e veio de uma mulher com umbigo (que maravilha), aliás todos os mamíferos placentários têm umbigo. Enquanto isso, os alguns criacionistas baseados em ideias não científicas continuam a negar o sexo, o umbigo, a evolução da vida e as decisões do Vaticano, só por birra ou falta de leitura (É claro que também existem os criacionistas não católicos, alguns com uma lamentável aversão à Ciência…).

Pessoal, ensinar o criacionismo é como propor que a Terra seja plana, ambas podem ser aceitas como crenças pessoais, mas não como verdade, pois não têm fundamentação científica. Isso não contribui para nosso crescimento/evolução como sociedade! Se um “terraplanista” tiver oportunidade, que pegue um avião e siga, sempre em frente, que voltará para casa.

Para saber mais:

  1. As últimas notícias do sapiens: uma revolução nas nossas origens.
  2. As religiões da pré-história.

4 comentários sobre “O Umbigo de Adão? Uma discussão sobre criacionismo

  1. Sobre a magnífica pintura de Michelangelo na Capela Cistina, aceita pelos católicos como a representação do momento em que deus criou Adão e batizada (pelo artista) com o nome de “A Criação de Adão”, há rumores que indicam que, na cabeça rebelde de Michelangelo, que possivelmente seria ateu, pertencente à corrente naturalista, a imagem pode representar sim uma criação, mas ao contrário: Seria deus a criação de Adão e não Adão a criação de deus.
    Explicando melhor, a imagem mostra deus dentro de uma figura em forma de concha, que se assemelha muito a um cérebro humano, sugerindo, obviamente, que deus mora dentro da cabeça dos homens. Ou seja, um primeiro homem, assim que tomou posse da sua imaginação, característica primordialmente humana e representada como algo que está dentro do nosso crânio, inventou a religião e as divindades. Assim, Michelangelo genialmente esfrega na cara de todos os católicos que deus é uma criação dos homens, colocando em xeque um dos principais dogmas da igreja estampado no teto de um dos seus mais importantes templos, e todos os católicos do mundo engoliram a pegadinha e aplaudem a magnífica obra até hoje sem parar para pensar no que ela representa.

    (ver mais sobre esse assunto em http://monteolimpoblog.blogspot.com/2014/02/o-misterio-por-tras-do-quadro-criacao.html)

    • Bem lembrado Silvia, aproveito para sugerir a obra mencionada abaixo, onde o neuroanatomista Marcelo Valença demonstra que nessa pintura estão detalhes inequívocos do cérebro humano expressos nos nos próprios anjos e na figura de Deus.
      Marcelo Valença Reescrevendo a História da Neuroanatomia – Novas
      descobertas nas pinturas de Leonardo, Michelangelo e Rafael 2015

  2. Excelente resposta a de Sílvia Venturi. Dada a criatividade humana, obviamente que fomos nós que criamos Deus à nossa semelhança. Eu já versei, literariamente, sobre o fato de considerar a mulher anterior ao homem com a premissa de que o completo não nasceria do incompleto, a não ser que fosse um ensaio. A fábula sobre a criação dos primeiros ser humanos pode ter derivado da circunstância de que nossa espécie parece ter ficado à beira da extinção, por análises feitas a nível mitocondrial, que corrobora a possibilidade de descendermos de poucos elementos.

  3. Oi Prof. Dr . Paulo : muito pertinentes as suas colocações. Sou aposentada em psiquiatria da infância. Minha amiga é da biologia e bastante ciência. Achei genial q sua postura e análise, passei o artigo para ela apreciar. Ela riu muito, gostou demais, no final, me disse: é cada um tem que olhar o seu próprio umbigo, não é?
    Ficou 3 dias rindo!!!
    Parabéns, vc mandou muito bem. Beijos!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s