A presença de nervos sensitivos é importante para formação dos dentes

Por Michelle Tillmann Biz – Dpto. de Ciências Morfológicas / UFSC

O desenvolvimento de um organismo envolve um coordenado e complexo processo de interação entre células de diferentes tipos e origens, que culmina no desenvolvimento de tecidos e órgãos. A manutenção da homeostase (estado de equilíbrio do organismo), durante o processo de desenvolvimento, é muito importante para que o órgão alcance a sua adequada função completa. Assim, alguns estudos já demonstraram que a presença dos nervos fornece este microambiente de homeostase tecidual favorecendo a regulação do comportamento das células-tronco mesenquimais. Em alguns modelos, já se verificou que a “desnervação” (remoção do nervo de um determinado local) impacta o comportamento celular e o desenvolvimento de determinados órgãos. No que tange o desenvolvimento dos dentes, pela primeira vez Cientistas Descobriram Que os nervos sensitivos presentes na face possuem um papel crucial na homeostase durante o desenvolvimento do órgão dentário.

Em termos fisiológicos, os nervos classificam-se basicamente em sensitivos e motores. Enquanto os sensitivos são responsáveis pela transmissão das informações de sensação (dor, temperatura, pressão), os motores são responsáveis por transmitir impulsos nervosos que irão culminar em respostas musculares (contração/relaxamento). Estes nervos encontram-se espalhados por todo o organismo e, embora desempenhem papeis diferenciados, fazem parte de um sistema coordenado de ação/resposta.

Nesta investigação, os pesquisadores estabeleceram modelos de ratos desnervados na região de desenvolvimento dos dentes incisivos. Para verificarem exatamente o padrão de interferência, estudaram três grupos de modelo de desnervação: grupo com remoção do nervo alveolar inferior (nervos com função sensitiva), remoção dos gânglios cervicais superiores (nervos com função motora) e remoção de ambos (função sensitiva e motora).

Estabelecidos os modelos, os pesquisadores fizeram a análise morfológica nos dentes incisivos e avaliaram o comportamento biológico das células-tronco mesenquimais da polpa dentária (DPSCs) destes dentes.

Após análise, foi possível verificar que nos grupos em que foi removido apenas o nervo sensitivo e no grupo que foi removido o nervo sensitivo+motor os incisivos exibiram estrutura dentária desorganizada; enquanto que no grupo em que foi removido apenas o nervo motor houve apenas uma leve diminuição da espessura da dentina. Assim, foi possível identificar que o nervo sensorial (alveolar inferior) possui papel fundamental na homeostase tecidual para o desenvolvimento do dente incisivo, sendo que o nervo motor (gânglio cervical superior) não possui influência neste aspecto do desenvolvimento.

Numa segunda etapa, os pesquisadores realizaram uma análise laboratorial (in vitro) com DPSCs derivadas de dentes do grupo controle (sem desnervação) e dentes do grupo com remoção do nervo sensitivo. Assim, verificaram que a remoção do nervo sensitivo levou à uma disfunção das DPSCs em comparação com o grupo controle, sendo os principais achados: diminuição da capacidade de formação de colônia (análise padrão no estudo de células-tronco); capacidade proliferativa e maior porcentagem de células apoptóticas (células em processo de morte).

É também esperado que DPSCs exibam potencial de diferenciação osteogênica e adipogênica. Entretanto, as DPSCs derivadas do grupo desnervado exibiram capacidade de diferenciação osteogênica e adipogênica comprometida, o que, consequentemente, acarretou alterações no comportamento das células diferenciadas derivadas destas DPSCs, como, a menor formação de nódulos mineralizados e gotículas de gorduras, e menor expressão de genes osteogênicos e adipogênicos.

Desta forma, mais uma peça é adicionada a este complexo quebra-cabeça que é o desenvolvimento do órgão dentário: a presença de nervos sensitivos é crucial para a manutenção da homeostase tecidual que culmina com a formação adequada do dente.

Glossário:

  • homeostase: condição relativa de estabilidade em um organismo
  • célula-tronco mesenquimal: célula que pode dar origem a todas as células de origem mesenquimal
  • desnervação: remoção cirúrgica do nervo
  • in vitro: estudo que é feito em ambiente laboratorial; fora do organismo vivo
  • diferenciação osteogênica: processo que uma célula-tronco passa tornando-se uma célula óssea (osteoblastos)
  • diferenciação adipogênica: processo que uma célula-tronco passa tornando-se uma célula adiposa (adipócito)

Para saber mais, acesse o artigo original:

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