Fármacos antivirais podem ser aliados no combate à Doença de Alzheimer?

Por Iara Zanella Guterres, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Farmácia da UFSC, orientada pela Profa. Dra. Izabella Thaís da Silva do Depto de Ciências Farmacêuticas/UFSC. 

A Doença de Alzheimer (DA) é o tipo mais comum de demência em pessoas idosas. E, com o aumento da expectativa de vida, os casos têm crescido cada vez mais. Mas afinal, o que acontece no cérebro? Dois protagonistas desse processo são a proteína TAU e os peptídeos beta-amiloide (Aβ), que, quando se acumulam ou se modificam, podem prejudicar o funcionamento dos neurônios1.

Nos últimos anos, porém, surgiram evidências de que o Alzheimer pode ter mais um componente nessa história: as infecções por vírus. E um dos principais suspeitos é o Herpes simplex vírus tipo 1 (HSV-1) — sim, o mesmo responsável pelo herpes labial. O HSV-1 é um vírus que gosta do sistema nervoso (e a isso chamamos de neurotropismo). Depois da infecção inicial, ele fica latente nos gânglios sensoriais e pode reativar de tempos em tempos ao longo da vida. E é justamente aí que entra a possível ligação com o Alzheimer.

Vários estudos mostram que essas reativações ao longo dos anos podem afetar o cérebro. Em estudo com animais, ciclos repetidos de reativação do HSV-1 resultaram em processos muito parecidos com os observados na DA: maior produção e acúmulo de Aβ, aumento da fosforilação da proteína TAU e, claro, prejuízos cognitivos progressivos 2,3,4.

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Curcumina: da culinária para a regeneração pulpar

Por Michelle Tillmann Biz – Departamento de Ciências Morfológicas – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

A curcumina é o principal bioativo extraído da raiz da Curcuma longa, planta conhecida popularmente como cúrcuma ou açafrão-da-terra. Seu uso remonta a mais de dois mil anos na culinária asiática, especialmente na Índia, onde constitui ingrediente essencial do curry, conferindo sabor, aroma e coloração dourada aos alimentos. Além de seu papel gastronômico, a cúrcuma foi amplamente incorporada à medicina tradicional ayurvédica e à medicina chinesa, empregada no tratamento de distúrbios digestivos, inflamações e desordens hepáticas.

Figura 1 – Raízes de cúrcuma e o pó extraído da mesma

A partir da segunda metade do século XX, com o avanço da farmacologia e da biologia molecular, a curcumina passou a ser estudada sistematicamente, revelando propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes, antimicrobianas e antitumorais.

Nos últimos anos, a curcumina tem se destacado como um candidato terapêutico versátil, explorado em diferentes áreas médicas, incluindo oncologia, neurologia, doenças metabólicas e, mais recentemente, na odontologia regenerativa. É exatamente esta faceta na odontologia regenerativa que vamos explorar neste texto.

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O Retorno do Homem Dragão?

Por Paulo César Simões-Lopes – Departamento de Ecologia e Zoologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Num post anteriori, ainda em 2022, nos perguntávamos sobre nossa espécie irmã, aquela com quem compartilharíamos um ancestral comum. Tradicionalmente essa espécie era o emblemático homem de Neandertal, aquele de nariz largo, supercílios proeminentes e pernas arqueadas. Então apareceu o enigmático Homem Dragão, descoberto na China e baseado num crânio que permanecera escondido por 85 anos, o chamado também de homem de Harbinii. Os cientistas chineses o viram como uma nova espécie de hominídeo e lhe concederam o nome de Homo longi.  E assim terminamos aquele post de 2022: “…ainda estamos no Ato número 3 e a peça a se desenrolar no palco da ciência moderna. O que mais os cientistas nos dirão nos próximos anos? … Quando partiremos para o Ato número 4?”

Como diz um slogan da moda “tudo muda, nada muda”. Com quem nós, os sapiens, partilhamos o trono de nossa linhagem evolutiva? Quem é nossa espécie irmã? Aquela com a qual temos um ancestral em comum? Sim, essa pergunta continua incrivelmente atual.

Ato número 4 (continuando o teatro da evolução humana): novas descobertas de crânios humanos antigos na Ásia roubam a cena. Os neandertais eram um produto da Europa e isto parecia confortável numa visão tipicamente eurocêntrica, mas os novos candidatos a parentes diretos estão cada vez mais postados na Ásia. 

No post de 2022 nos perguntávamos se o “homem dragão” (Homo longi) seriam os próprios denisovanos (Homo daliensis) ou se ambas as espécies seriam apenas variações da mesma entidade? O estudo de Xijun N e colaboradoresiii aponta que sim. Embora sejam crânios isolados e raros, eles compartilham caracteres cranianos e dos dentes molares, o que os coloca num mesmo ramo. Sob essa perspectiva, o homem dragão emerge como nossa espécie irmã do momento, desbancando os neandertais (e a própria Europa) do palco da evolução hominídea. Isso tudo é desafiador e desgastante, porque mudar concepções arraigadas nunca é fácil.

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