As Marcas do Cancro (câncer) em formato “mind map”

Por Rita Zilhão – Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Portugal

Neste texto, não pretendo escrever sobre “Os cientistas descobriram que…”, isto é, algo específico, mas sim realçar a importância de se proporem estruturas conceptuais e didáticas, para condensar e “arrumar” assuntos complexos associados a uma ampla variedade de descobertas e dados, como é o caso dos intrincados fenótipos e genótipos dos diferentes tipos de cancro (câncer em português brasileiro).

Em 2000 Hanahan and Weinberg escreveram um artigo de revisão(1) onde propunham que um conjunto de capacidades funcionais teriam de ser adquiridas para que as células fizessem o seu caminho da normalidade para estados de desenvolvimento neoplásico e formação de tumores malignos. Esse conjunto de capacidades, a que chamaram Marcas do Cancro (“Hallmarks of Cancer”), partilhadas por todos os tipos de células cancerígenas ao nível do fenótipo celular, estabelece uma estrutura conceptual que racionaliza os complexos e diferentes tipos de tumores humanos, assim como as suas variantes. Inicialmente, começaram por ser seis marcas distintas(1) abaixo enunciadas de uma forma mais detalhada: 

1) Capacidade das células sustentarem uma sinalização entre si que conduz à sua proliferação; 2) Capacidade das células se evadirem a supressores de crescimento; 3) Resistência das células à morte celular; 4) Capacidade das células adquirirem uma imortalidade replicativa, isto é, poderem dividir-se muitas vezes mais do que uma célula normal do corpo; 5) Capacidade das células acederem aos vasos sanguíneos e desta forma disseminarem; 6) Ativação de mecanismos que conferem às células a capacidade de invasão de outros tecidos e formação de metástases.

Posteriormente, e na medida em que cada vez mais se reconhecia que os cancros humanos se desenvolviam em um processo multistep, em 2011 os mesmos autores acrescentaram mais duas marcas(2): 7) Capacidade das células reprogramarem o metabolismo celular adaptando-se à estrutura e condições do tumor; e 8) Capacidade das células evitarem a sua destruição esquivando-se do sistema imunitário.

Contudo, já nessa altura ficou patente que todas estas marcas, por si só, não conseguiam resolver as complexidades da patogénese do cancro, ou seja, não davam resposta acerca dos mecanismos moleculares e celulares subjacentes à aquisição dos fenótipos aberrantes observados na progressão maligna. Assim, adicionaram outro conceito à discussão: o de “características enabling“, isto é, características habilitantes ou promotoras, que fornecem as condições (leia-se mecanismos moleculares e celulares), para que as células cancerígenas e os tumores adotem os traços funcionais acima mencionados. São elas, a instabilidade do genoma e a inflamação do tumor.

Recentemente, e porque os conhecimentos dos mecanismos de cancro têm progredido, outras facetas da doença surgiram. Hanahan propõe e abre ao debate científico e à experimentação, mais quatro novas marcas e/ou características habilitantes que poderão vir a ser incorporadas como componentes fundamentais das marcas do cancro(3): 1) O desbloqueamento da plasticidade fenotípica; 2) A reprogramação epigenética que não tem como causa nem consequência a geração de mutações; 3) Os microbiomas polimórficos; 4) A senescência das células.

Não me passa despercebido que estas últimas marcas sejam bastante herméticas para leigos. Contudo este enquadramento era necessário despertar a vossa curiosidade e para nos próximos textos abordar de um modo mais acessível os avanços em cada uma destas últimas marcas habilitantes. Do mencionado anteriormente, retenham que o estabelecimento e a recente atualização deste mind map do cancro contribui para o seu entendimento biológico e, do ponto de vista prático, à esquematização das linhas de investigação a seguir, à racionalização de experiências científicas e ao desenvolvimento de novas terapias.

Glossário:

Fenótipo – Corresponde às características observáveis de um organismo ou célula como por exemplo a morfologia, as propriedades bioquímicas ou fisiológicas. O fenótipo resulta da expressão dos genes, da influência de fatores ambientais e da possível interação entre os dois.

Genótipo – Descreve o conjunto completo de genes de um organismo e que dá origem aos traços observáveis (fenótipo).

Para saber mais:

  1. The hallmarks of cancer.
  2. Hallmarks of cancer: the next generation
  3. Hallmarks of cancer: new dimensions.

Bloqueio do hormônio sexual FSH reduz o desenvolvimento do mal de Alzheimer em mulheres

Por Ricardo Castilho Garcez, Departamento de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC

Modificado a partir de Flores, et al., 2018

O mal de Alzheimer é uma doença bastante conhecida por causar perda de memória. Há um tempo pesquisadores têm observado que mulheres, após a menopausa, apresentam maior risco de desenvolver o mal de Alzheimer. A pergunta até então sem resposta era: qual a relação da menopausa com o mal de Alzheimer?

A menopausa é o período em que a mulher para de produzir óvulos e de menstruar. Isso tudo é causado por uma grande mudança na produção dos hormônios sexuais. Nesse período, a produção de hormônios como estrogênio e progesterona caem, já o hormônio folículo estimulante (FSH) e o hormônio luteinizante (LH) sobem. Esses dois hormônios, FSH e LH, são produzidos pela hipófise, uma glândula localizada na base do sistema nervoso central. Inicialmente, a redução nos níveis de estrogênio foi sugerida como uma possível causa do aumento de mulheres com mal de Alzheimer na menopausa, mas seu papel permanece controverso entre os pesquisadores. 

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Os cientistas precisam falar sobre sacerdócio

Por Paula Borges Monteiro – Grupo de Estudos em Tópicos de Física – IFSC

Science, capa do volume 375 de 04 março de 2022.

Você pode imaginar que este texto é sobre a missão exercida por religiosos ou um conteúdo abordando ciência e fé. Não! “Sacerdócio” é o termo utilizado em uma série de seis artigos da revista Science que falam sobre Físicos Negros. A seção especial ocupa a capa da edição de 4 de março de 2022.

Muitos assuntos explicados por Cientistas Descobriram Que… foram publicados nas revistas científicas mais conceituadas e influentes do mundo. Os cientistas submetem seus trabalhos que são analisados e revisados por outros pesquisadores e aceitos ou não para publicação. O aceite depende, além do mérito científico e da originalidade, das características da revista que, algumas vezes, além de importantes investigações científicas, focadas ou não em determinada área, publica notícias, oportunidades e implicações da ciência na política e na sociedade. É o caso da revista Science, uma das mais prestigiadas do mundo, publicada pela Associação Americana para o Avanço da Ciência.

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A produção de colesterol por tumores de mama como estratégia para a formação de metástases

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa, Portugal

Dados recentes da organização mundial da saúde indicam que em torno de 18 milhões de pessoas morrem no mundo anualmente em decorrência de doenças cardiovasculares (especialmente por ataque cardíaco e derrames). Apesar deste dado impressionante, este número era mais do que o dobro nos anos 1980. Além de reduções marcadas no consumo de cigarros e desenvolvimento de tratamentos anti tromboses, um fator marcante para esta queda vertiginosa foi o maior controle dos níveis de colesterol pelo uso amplo de drogas do tipo Estatinas.

Outra causa importante de mortes é o câncer, que causa em torno de 10 milhões de mortes por ano mundialmente. Um dos principais motivos para esta cifra, que continua com tendência de alta, decorre da falta de estratégias diagnósticas precoces que previnam o desenvolvimento de metástases tumorais. Apesar do aprimoramento de tratamentos antitumorais, especialmente por avanços em técnicas cirúrgicas e de drogas alvo-dirigidos, ainda há falta de estratégias eficazes para a prevenção e tratamento de metástases. 

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Conversas cruzadas entre células que coabitam tumores: educação celular ou má influência?

Por Rita Zilhão – Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Portugal

As células cancerígenas, conforme o tipo e acumulação de mutações, podem ser mais ou menos agressivas no sentido de serem mais ou menos invasivas e formarem metástases. Os tumores, por outro lado, além de células cancerígenas, contêm outros tipos de células, como por exemplo células de defesa imunitária e fibroblastos, entre outras. Os fibroblastos associados a tumores designam-se de CAFs (cancer-associated fibroblasts). Os CAFs, por sua vez, podem ser de vários subtipos e coexistir no mesmo tumor, tendo uma ação que promove ou limita a progressão da doença.

Os cientistas têm procurado perceber de que forma as diferentes células no nicho tumoral interagem e se os diferentes subtipos de cada uma se influenciam de forma a modular a invasão, formação de metástases e resistência à quimioterapia. Para tal, o grupo de Vennin et al. gerou dois tipos de ratinhos em que cada um era portador de um tipo diferente de mutação no gene p53 em células do pâncreas. Atenção que o gene p53 é um grande protetor do desenvolvimento tumoral, sendo conhecido como um gene supressor de tumores, na medida em que em condições normais tem uma ação anti-tumoral. Uma das mutações gerada em um dos ratinhos (vamos designá-la de mutação A) era responsável por gerar células tumorais com características mais agressivas e com maior capacidade de formar metástases do que a mutação no segundo ratinho (que designaremos de mutação B). Em seguida, isolaram-se de ambos os ratinhos células cancerígenas e CAFs obtendo-se assim quatro tipos celulares:

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Âmbar Gris, Almíscar, perfumes e outros mistérios…

Por Paulo César Simões-Lopes – Dpto de Ecologia e Zoologia – UFSC

Como sempre uma história puxa a outra e quando se vê há uma distância enorme entre a realidade e o imaginário popular. Recentemente, a notícia de um pescador na Indonésia que teria achado um bom naco de ambar gris (ou ambergris) causou uma verdadeira avalanche nas mídias sociais e na imprensa formal. Nessa notícia, se falava de um valor astronômico da substância na indústria de perfumes e assim por diante. E se dizia tratar-se de um “vômito de baleia”…

O âmbar gris não é um vômito e sim um produto do intestino dos cachalotes, uma das várias espécies de baleia. Pode ou não conter os restos de bicos das lulas gigantes e polvos de que eles se alimentam. Faz algum tempo, Cientistas Descobriram Que o âmbar gris só ocorre entre 1e 5% dos cachalotes! Ele é produzido pelo suco biliar que se encarrega de criar essa massa informe que acaba retida no intestino. Em boa parte, são álcoois terpenoides, ambreína (seu componente orgânico mais importante) e proporções significativas de esteroides fecais1. Assim, é improvável que a avalanche midiática de “vômitos” corresponda à realidade…, mas o que isso tem a ver com o almíscar? Ou com os perfumes?

Almíscar é uma palavra antiga. Diz-se que vem do sânscrito muská e que representaria o odor de secreções produzido com a finalidade de comunicação em vários mamíferos. Os cervos-almiscarados “pintam” o tronco das árvores com as secreções dessa glândula e com isso marcam sua passagem. Funcionaria, mais ou menos, como um perfil nas redes sociais. Os bois-almiscarados fazem o mesmo, assim como muitos outros mamíferos sociais.

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Cogumelos “mágicos” podem salvar vidas

Por Kelmer Martins da Cunha & Elisandro Ricardo Drechsler dos Santos,  Depto. BOT-CCB/UFSC

Fonte: link

Você leitor do CDQ já deve estar pensando: “já li esse título por aqui no CDQ, será?”. Sim, de forma muito similar, em um outro texto de 2017, falamos sobre como substâncias tóxicas de fungos venenosos poderiam ser úteis para transportar medicamentos no corpo humano e ajudar no combate a doenças, como o câncer. No texto de hoje, queremos compartilhar com vocês mais uma evidência científica do benefício dos fungos. Em um estudo recente, ficou comprovado o potencial que cogumelos “mágicos” têm para dar maior qualidade de vida às pessoas que sofrem com a depressão, inclusive salvando vidas.

A depressão é uma doença muito séria, por vezes negligenciada ou até mesmo não diagnosticada, mas que afeta a vida de milhões de pessoas diariamente. No mundo, são mais de 300 milhões de pessoas impactadas e, no Brasil, cerca de 16 milhões têm suas carreiras, interações sociais e a própria felicidade comprometidas pela doença. Existe uma relação clara entre depressão e alteração na estrutura cerebral, ou seja, pessoas com esta doença apresentam uma comunicação reduzida entre os neurônios, a chamada atrofia sináptica. Por ser uma doença com causas complexas, resultante da junção de fatores genéticos, ambientais e psicológicos, ainda não existe cura. Existem tratamentos que podem amenizar os efeitos da doença.

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