O Ministério da Saúde Adverte: O excesso de poder causa danos ao cérebro

Por Vitor Klein Professor do Depto de Governança Pública da UDESC

O ano é 2018; a TV dispara uma sequência nauseante de notícias. De um lado, em tom de ameaça, o líder norte-coreano faz um pronunciamento no qual enfatiza ter à sua mesa um botão nuclear; do outro lado, o presidente norte-americano replica, em sua conta do twitter, possuir um botão maior e mais poderoso. A sensação de que homens de poder podem nos lançar a um precipício, ao mesmo tempo em que permanecem alheios ao seu eleitorado e imunes aos conselhos de sua administração, é bastante perturbadora. O fenômeno Trump nos remete, no entanto, a uma intuição bastante antiga, a de que o poder tende a intoxicar e a corromper. Estudos recentes não só confirmam essa intuição, mas descrevem como o poder intoxica (Figura 1) e sugerem o que fazer para evitar que isso ocorra.

Figura 1

Dacher Keltner, professor de psicologia da Universidade de Berkeley, descobriu que pessoas sobre influência do poder agem, ao longo do tempo, como se tivessem sofrido uma lesão cerebral. Tais pessoas, destaca o pesquisador, tornam-se mais impulsivas, menos conscientes dos riscos e menos aptas a enxergar as coisas sob a perspectiva de outras pessoas. Keltner pesquisou uma série de contextos, como universidades, o senado americano, times de esporte e ambientes profissionais. Um dos seus experimentos consistia em trazer pessoas em grupos de três para um laboratório e atribuir-lhes uma tarefa ao mesmo tempo em que aleatoriamente definia um deles como líder. Depois de meia hora de experimento, um prato de cookies era dado a cada um dos participantes e, adicionalmente, um prato com uma porção extra era colocado em frente de todos. O experimento consistia em saber quem iria pegar a porção extra; e o resultado foi: quase sempre o líder pegava a porção extra. Essa e outras pesquisas conduzidas pelo pesquisador levaram-no a descrever o que chama de paradoxo do poder, ou seja, enquanto certos traços são fundamentais para se chegar a posições de poder (empatia, colaboração, abertura, justiça), esses traços começam a enfraquecer na medida em que as pessoas sentem-se numa posição privilegiada. Keltner e colegas não são os únicos a descreverem os efeitos do poder sobre as pessoas. (Figura 2, Thank you lord Jesus)

Figura 2

Adam Galinsky e colaboradores conduziram um experimento em que participantes eram solicitados a desenhar a letra E em sua própria testa para que outras pessoas pudessem ler, uma tarefa que requeria que os participantes se imaginassem do ponto de vista do observador externo. Para conduzir o experimento, os pesquisadores reforçaram em metade dos participantes (priming) sensações de muito poder e em outra metade recordações de momentos em que se sentiram com pouco poder. Os indivíduos influenciados pelas recordações de muito poder foram três vezes mais propensos a escrever a letra E de maneira auto-orientada, isto é, orientada a eles mesmos, do que aqueles marcados por experiências de baixo poder.

A tendência do poder em produzir um déficit de empatia torna-se ainda mais complicada ao se considerar que pessoas em posição de poder tendem a parar de imitar os outros, prática comum para que pessoas experimentem pontos de vista diferentes. Um pesquisa mostra, nesses casos, que mesmo os esforços conscientes para reverter a tendência do poder produzir déficits de empatia são inócuos. Observa-se, portanto, que o cérebro de pessoas em posições de poder descarta informações periféricas, o que é positivo, pois torna tais pessoas mais eficientes para lidar com o excesso de informações do dia-a-dia. No entanto, tal processo é problemático em situações que requerem habilidades sociais.

Reverter o déficit de empatia resultante da exposição prolongada ao poder parece difícil. Keltner, por exemplo, sugere àqueles ou àquelas em posição de poder que pratiquem a empatia, gratidão e generosidade, três aspectos importantes para o desenvolvimento de uma liderança benevolente. Versões mais detalhadas da dica popular “mantenham os pés no chão!”, tais sugestões deixam em intocado, contudo, o paradoxo explicado pelo próprio Keltner, de que o poder tende a nos tornar menos aptos a exercer a empatia. Até que ponto a prática artificial da empatia serve para remediar os efeitos negativos do poder ou simplesmente para autopreservação de seus detentores é uma questão a se pesquisar. O que esses estudos apontam é que o exercício de uma liderança socialmente responsável e engajada requer constante vigilância e autovigilância. Mais do que isso, talvez a intuição dos fundadores das democracias modernas ainda permaneça bastante atual: de que o exercício do poder requer, de tempos em tempos, renovação.

Para saber mais, acesse a página com os principais artigos do Dr. Keltner

E se conseguíssemos simular computacionalmente o funcionamento de uma célula?

Por Guilherme Razzera, Laboratório de Bioinformática Estrutural – UFSC

Imagem de um fofossistema na membrana do cloroplasto. Para visualizar os vídeos, clique aqui.

Há muitas maneiras de se estudar o funcionamento de um organismo ou de parte dele, e certamente a experimentação in vitro ou in vivo, com as coisas reais mesmo, foi a principal maneira que encontramos para construir o nosso conhecimento científico. A questão é: existem outras formas que vêm se difundindo nos últimos anos. Você já parou para pensar no quanto podemos simular as coisas atualmente? Estou falando de uma grande capacidade que temos de construir modelos, como os meteorológicos, por exemplo, que envolvem uma grande capacidade de cálculos e nos oferecem uma boa previsão em curto prazo. Tá bom, tem vezes que não dá pra confiar totalmente e deixar o guarda-chuvas em casa com segurança, mas usamos no nosso dia-a-dia, certo? Agora: e se conseguíssemos simular uma célula viva? Dizer quais são suas características, quais suas sequências de DNA, quais RNAs, quais proteínas, quais os tipos de membranas, qual pH, qual força iônica, entre outros parâmetros, além de simular o seu funcionamento e suas respostas. Será Continuar lendo

Imitando o nariz canino

Por Renata  Kaminski Dpto. de Química, UFS / Aracajú – SE

Todos sabem que os cachorros possuem um olfato extremamente sensível, esse sentido aguçado se deve ao alinhamento de milhões de minúsculos capilares (tubinhos) que cobrem uma grande área superficial, fazendo com que nossos melhores amigos sejam capazes de detectar odores em concentrações extremamente baixas.

A inspiração dos cientistas na estrutura do nariz dos cães para criação de sensores gasosos não é tão recente. No entanto, a grande dificuldade de fazer uma “boa imitação” é que o material seja de fácil obtenção em escala industrial e a síntese seja reprodutível, ou seja, que se obtenha sempre o mesmo material e com as mesmas Continuar lendo

Dor de dente: a teoria do “odontoblasto transdutor” ganha mais uma peça

Por Michelle Tillmann Biz – Dpto. de Ciências Morfológicas / UFSC

O dente é conhecido por ser um órgão formado por tecidos duros, sendo eles o esmalte, a dentina e o cemento (veja na Figura 1). Porém, em seu interior, protegido por esses tecidos duros, encontra-se um tecido mole, a polpa dentária. A polpa dentária é um tecido conjuntivo propriamente dito, como o que encontramos abaixo da nossa pele, sendo responsável pela nutrição celular, defesa e reparação, bem como a sensibilidade local. Sendo assim, a polpa dentária é onde encontramos a vitalidade de um dente. Um dente vital possui polpa dentária; um dente que não tem polpa (como os dentes que já tiveram tratamento de canal executado) são dentes desvitalizados. Dessa forma, a polpa dentária é o tecido responsável por toda a fisiologia do dente respondendo aos estímulos de dor, desencadeando a resposta inflamatória bem como a resposta de regeneração e reparação. Sem a polpa dentária, não temos mais esses estímulos. Continuar lendo

1, 2, 3, 4…Pra ficar maneiro evite muito álcool!

Por Natalli Granzotto1 e Geison Souza Izídio2

  1. Doutoranda em Farmacologia – UFSC;
  2. Coordena o Laboratório de Genética do Comportamento – UFSC

Imagem relacionada “Uísque ou água de coco pra mim tanto faz…” era parte de uma música bastante popular no Brasil, há alguns poucos anos. Se esses hits de sucesso impulsionam a realidade, ou se, na verdade, fazem sucesso porque retratam a realidade é uma pergunta interessante a se fazer. O fato é que, no Brasil, os drinks de vodca, ou whisky, com energético estão cada vez mais marcando presença nas comemorações de todas as faixas etárias, a partir da adolescência.

Um estudo, conduzido por pesquisadores da Unifesp (para ver, acessar aqui), mostrou que 76% dos indivíduos entrevistados (homens e mulheres com idade média de 24 ± 6 anos) declarou consumir a combinação de bebidas energéticas com álcool. Continuar lendo

A interface entre o corpo humano e bioeletrônica orgânica

Por Keli Fabiana Seidel – Grupo de pesquisa em Bio-Optoeletrônica Orgânica– UTFPR

Imagem representativa de dispositivo bioeletrônico para estimulação cerebral (Deep Brain Stimulation) em caso de doença mental – Imagem/fonte: leapsmag.com

A utilização de novas tecnologias capazes de auxiliar diagnósticos médicos, assim como tratamentos de doenças, tem se mostrado cada vez mais eficiente. Dentre tantos estudos, uma crescente área de pesquisa está relacionada à criação de dispositivos (optoeletrônicos orgânicos) capazes de serem implantados no corpo humano. Devido ao contato direto do dispositivo com células de nosso corpo, o maior desafio desses estudos está relacionado ao desenvolvimento de tecnologias de interface capazes de promover a integração de dispositivos com tecidos biológicos de forma não nociva.

A vantagem desse tipo de dispositivo implantado no corpo humano se dá pelo fato de que o Continuar lendo

Células-tronco podem servir como vacina contra o câncer

Por Marco Augusto Stimamiglio – Instituto Carlos Chagas – Fiocruz/PR

Baseando-se na reconhecida habilidade de proliferar rapidamente e gerar inúmeros clones de si mesmas, as células cancerosas têm sido comparadas às células-tronco pluripotentes. Essa e outras similaridades compartilhadas entre esses dois tipos celulares deram origem à atual hipótese das células-tronco tumorais, cuja proposta define que, dentre todas as células cancerosas, algumas atuem como células-tronco que se reproduzem e sustentam o câncer de forma semelhante às células-tronco que normalmente renovam e sustentam nossos órgãos e tecidos. Foi com essa ideia em mente que um grupo de cientistas de diferentes partes do mundo (Estados Unidos, Holanda, Alemanha e Coreia) ousou testar células-tronco pluripotentes induzidas (iPSCs; consulte nossos textos anteriores) como uma potencial vacina anticâncer. O artigo publicado em fevereiro de 2018, na renomada revista Cell Stem Cell, relata que injeções de iPSCs irradiadas protegem camundongos do desenvolvimento de câncer de mama, pulmão e pele, assim como previnem o reaparecimento de tumores removidos cirurgicamente. Continuar lendo