Aquecimento Global: Que mudanças ocorrerão com um aquecimento de apenas 1,5C?

Por Keli Fabiana Seidel – Grupo de pesquisa em Bio-Optoeletrônica Orgânica– UTFPR

Notícias vinculadas ao termo “aquecimento global” são muito frequentes em nosso cotidiano. Primeiramente, é bom esclarecer que o aquecimento global é um processo natural do globo terrestre, que passa (ao longo de milhares de anos) por ciclos de aquecimento e resfriamento da Terra. A questão preocupante, embutida por trás deste termo, é o aquecimento global “acelerado” devido à interferência antropogênica exagerada. E você, caro leitor, pode até querer dizer que a culpa não é apenas do homem, pois já viu reportagens dizendo que bovinos e suínos “produzem” muito mais gases que causam o efeito estufa do que os meios de transporte utilizados pela população. Mas neste momento ainda lembro-vos que a criação de gado e suínos em larga escala continua sendo “culpa” do homem.

A preocupação com mudanças climáticas causadas pela aceleração do aquecimento global tem sido muito estudada por pesquisadores. Mesmo para leigos nesse assunto, tais mudanças têm sido cada vez mais frequentemente sentidas de forma que a probabilidade de observar estes eventos raros já não é tão rara. Eventos como fortes tempestades, furacões de maior intensidade, ondas de calor e/ou frio mais longas e intensas, secas ou períodos de chuvas excessivas, etc, têm-se mostrado muito mais frequentes em várias regiões do globo terrestre.

Porém, para boa parte da população, atribuir todas essas mudanças climáticas a um aquecimento global médio menor do que 1oC não parece ser concebível. No cotidiano de cidadãos comuns, a diferença de 1oC acaba sendo dificilmente ou sutilmente percebida pela nossa pele e, portanto, parece ser uma mudança inofensível para o globo terrestre. Mas esse é um grande engano! Primeiro, deve-se esclarecer que este se trata de um valor médio. Portanto, nada impede que tenhamos invernos mais rigorosos em certas regiões e verões ainda mais rigorosos em outras, de modo que, na média, isso resulte em um aumento na temperatura média.

Atualmente, o acordo de Paris, assinado por várias nações, estabelece dois diferentes níveis a serem respeitados: (i) “um objetivo a longo prazo de manter o aumento da temperatura média global de 2°C aixo dos níveis pré-industriais”, ou seja, impondo este valor como limitante e; (ii) “tentar limitar o aumento para 1,5°C, uma vez que isso reduziria significativamente os impactos das mudanças climáticas”, ou seja, mostrando que se essa pequena diferença, abaixo do valor limitante, for uma nova meta, muitos benefícios podem ser atingidos. Trabalhos de pesquisa baseados nesses valores como, por exemplo, o descrito por C. F. Schleussner et al., (Earth System Dynamics Discussions – 2015) e/ou por S. E. Perkins-Kirkpatrick et al., (Scientific Reports – 2017) mostram previsões do impacto causado por essas mudanças climáticas a nível global e também suas consequências a nível regional, respectivamente.

Resultados mostram que “o aquecimento de 1,5ºC já coloca sob risco de degradação severa as células de recifes de corais”. Já “o aumento de temperatura média entre 1,5ºC e 2ºC marca a transição entre um limite superior da variabilidade natural atual e de um novo regime climático. Isso, provocaria mudanças na disponibilidade de água e osendimentos agrícolas locais ainda mais desiguais entre as regiões do mundo. Embora algumas regiões (de alta latitude) possam se beneficiar desse aquecimento, regiões tropicais, como a África Ocidental, o Sudeste Asiático, bem como a América Central e o norte da América do Sul, deverão enfrentar reduções locais da produção, particularmente para o trigo e o milho.” Quanto às análises regionais, previsões de um “aumento entre 4 a 34 dias com ondas de calor por estação são projetadas por cada oC de aquecimento global”. Alguns dos aumentos previstos são ainda “acima do valor limiar de aquecimento global para as regiões do Mediterrâneo e da Ásia Central”.

Outro trabalho publicado por Sean Vitousek et al. (2017), Scientific Reports mostra estudos sobre a “duplicação da frequência das inundações costeiras em décadas devido ao aumento do nível do mar”. Ele mostra que “as áreas que apresentam mais risco encontram-se nas baixas latitudes, onde a variação das marés é menor, o que significa que o aumento do nível do mar é proporcionalmente mais preocupante”. Um aumento do nível do mar entre 5 a 10 cm é previsto nesse estudo, o que provavelmente ocorrerá dentro de algumas décadas e, gera grande risco de produzir inundações em muitas das cidades costeiras. Isso, provavelmente resultará em um novo mapa das orlas de praias do Brasil e do mundo.

Por fim, acredito que cada cidadão deveria parar por alguns minutos e pensar qual é sua verdadeira preocupação com essas mudanças climáticas. Assim, ficaria mais fácil introduzirmos, no cotidiano, atitudes que possam contribuir com a diminuição do aquecimento global. Acredite, pequenas atitudes fazem a diferença! A lista de atitudes benéficas é grande e cabe somente a você adaptá-las ao seu dia-a-dia. Que tal começar levando uma sacola retornável ao mercado?

Fontes do texto:

Artigos:

À pesca de um tratamento personalizado do câncer

Por Rita Zilhão, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Portugal

Apesar dos avanços na terapia dirigida ao câncer, principalmente do progresso da imunoterapia (baseada na administração de anticorpos), a quimioterapia continua a ser uma das armas de ataque no combate ao câncer, sobretudo num cenário em que já se detectou o aparecimento de metástases. Os protocolos de administração dos diferentes quimioterápicos estabelecem-se e são aprovados de acordo com a sua, previamente demonstrada, eficácia e segurança em situações de câncer idênticas. Ou seja, baseiam-se numa estatística de diferentes respostas de diferentes indivíduos, e não na resposta individual de um determinado doente com um câncer específico. Devido a numerosos fatores, entre os quais a heterogeneidade de células dos tumores malignos e a própria evolução do processo tumoral, observa-se em alguns casos, o tratamento protocolar acaba por se revelar ineficaz, com a agravante de expor os doentes a uma toxicidade desnecessária que só os enfraquece. Por este motivo, desde há muito que se tem procurado progredir numa terapia personalizada.

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Bactérias podem degradar drogas antitumorais e contribuir para o crescimento de tumores

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Apesar do massivo investimento no desenvolvimento de novas drogas antitumorais, que atualmente envolve uma cifra de mais de 100 bilhões de dólares anuais (valor que deve aumentar em pelo menos 50% até o ano de 2020), casos de resistência a drogas antitumorais ainda representam um grande desafio no tratamento de pacientes oncológicos. De forma geral, entende-se que o desenvolvimento dessa resistência ocorre, por exemplo, pela seleção de populações de células tumorais desprovidas do alvo terapêutico dessas drogas durante o tratamento. Outro processo de resistência que vem sendo observado envolve o desenvolvimento de mecanismos, pelas células tumorais, que permitem a degradação e/ou eliminação dos medicamentos antitumorais, possibilitando que os tumores não apenas sobrevivam, mas que também Continuar lendo

O segredo numa gota de sangue…

Por Hélia Neves – Faculdade de Medicina de Lisboa – Portugal

Todos nos questionamos qual rumo da Medicina e como esta evoluirá para nos tornarmos indivíduos cada vez mais saudáveis. Uma coisa é certa, desejamos que a Medicina do futuro melhore a capacidade de detectar precocemente as doenças com métodos não-invasivos, e idealmente, que consiga até prevenir/evitar o seu aparecimento. Muitos avanços foram feitos nesse sentido e parece que vamos no bom caminho…

“Os cientistas descobriram que…” é possível detectar precocemente algumas formas de cancro (câncer) utilizando apenas uma gota de sangue… Em agosto deste ano (2017) uma equipe de Investigadores, liderados por V. Velculescu do “Johns Hopkins Kimmel Cancer Center”, publicou na revista Science Translational Medicine (Figura 1), uma nova técnica de análise ao sangue que permite a detecção precoce de algumas formas de cancro (colo-rectal, mama, pulmão e ovário). Continuar lendo

O tesouro escondido nos nossos dentes! 

Por Michelle Tillmann Biz – Dpto. de Ciências Morfológicas / UFSC

Sempre que entro em sala de aula para falar sobre o desenvolvimento dos dentes (processo conhecido por Odontogênese) meu coração pulsa. Sinto que cada dente que se forma, guarda em si um pequeno e precioso tesouro, como se fosse um cofre: a polpa dental! Deixe-me explicar melhor.

Lá no início do nosso desenvolvimento, bem no comecinho da gravidez, não somos já somos um ser completo e complexo em miniatura que vai aos poucos crescendo. De início, somos apenas um amontoado de células, e aos poucos cada célula vai definindo o seu destino, vai definindo qual tecido, órgão ou sistema irá formar. Dessa forma, no 21o dia de gestação, algumas células vão destinar-se a desenvolver o Sistema Nervoso. Para isso, formam duas estruturas chamadas de tubo neural e células da crista neural (CN). De Continuar lendo

Prêmio Nobel 2017: medicina, física e química

Cientistas descobriram que… preparou um texto especial para nossos leitores. Reunimos três pesquisadores das áreas de Biologia/Biomedicina, Física e Química para explicar as grandes descobertas que renderam os prêmios Nobel de Medicina, Física e Química de 2017. Aproveitem!

Prêmio Nobel Medicina / Fisiologia: controle do ritmos circadianos Continuar lendo

O exercício físico como um instrumento terapêutico na depressão

Por Guilherme Pasetto Fadanni1 e Geison Souza Izídio2

  1. Mestrando em Farmacologia – UFSC;
  2. Coordena o Laboratório de Genética do Comportamento – UFSC

Em tempos de vida agitada, sono escasso ou de baixa qualidade e estresses diários constantes, muito se fala sobre a prática de exercício físico como um meio de prevenir e/ou tratar a depressão humana. Mas quais seriam as bases científicas por detrás desses possíveis benefícios?

Pesquisadores do Laboratório de Mapeamento Cerebral e Integração Sensório-Motora do Instituto de Psiquiatria – UFRJ publicaram o artigo “O exercício físico no tratamento da Continuar lendo