Por Iara Zanella Guterres, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Farmácia da UFSC, orientada pela Profa. Dra. Izabella Thaís da Silva do Depto de Ciências Farmacêuticas/UFSC.
A Doença de Alzheimer (DA) é o tipo mais comum de demência em pessoas idosas. E, com o aumento da expectativa de vida, os casos têm crescido cada vez mais. Mas afinal, o que acontece no cérebro? Dois protagonistas desse processo são a proteína TAU e os peptídeos beta-amiloide (Aβ), que, quando se acumulam ou se modificam, podem prejudicar o funcionamento dos neurônios1.
Nos últimos anos, porém, surgiram evidências de que o Alzheimer pode ter mais um componente nessa história: as infecções por vírus. E um dos principais suspeitos é o Herpes simplex vírus tipo 1 (HSV-1) — sim, o mesmo responsável pelo herpes labial. O HSV-1 é um vírus que gosta do sistema nervoso (e a isso chamamos de neurotropismo). Depois da infecção inicial, ele fica latente nos gânglios sensoriais e pode reativar de tempos em tempos ao longo da vida. E é justamente aí que entra a possível ligação com o Alzheimer.
Vários estudos mostram que essas reativações ao longo dos anos podem afetar o cérebro. Em estudo com animais, ciclos repetidos de reativação do HSV-1 resultaram em processos muito parecidos com os observados na DA: maior produção e acúmulo de Aβ, aumento da fosforilação da proteína TAU e, claro, prejuízos cognitivos progressivos 2,3,4.
Uma revisão que uniu resultados de diversos estudos observou que o uso de antivirais está associado a uma redução dos riscos de demência5, apontando que os antivirais podem funcionar como bloqueadores da neurodegeneração. Desta forma, se não houver vírus ativo, não há “combustível” para a progressão da DA ligada à infecção viral.
Cientistas da Universidade de Washington nos EUA descobriram que medicamentos antivirais usados para tratamento de herpes podem reduzir o risco de desenvolver Alzheimer. O estudo avaliou mais de 340 mil pessoas, incluindo pacientes com diagnóstico de Alzheimer entre 2006 e 2021 (com idade acima de 50 anos) e um grupo controle6.
Os pesquisadores focaram então em um subconjunto de pessoas que tiveram um diagnóstico de HSV-1 antes do desfecho de DA, incluindo 2.330 pacientes com este histórico. Deste subconjunto, cerca de 40% utilizaram medicamentos anti-herpéticos e apresentaram menor probabilidade de desenvolver DA em comparação com aqueles que não usaram, revelando o possível efeito protetor dos antivirais.
Embora os resultados iniciais sejam promissores, ainda não há dados suficientes que justifiquem o uso de antivirais para tratamento da DA. Os estudos sugerem que eles podem retardar processos relacionados que contribuem com a doença, não impedindo que o risco exista, mas reduzindo significativamente a probabilidade de ser a causa. Entretanto, essa nova abordagem terapêutica, focando na interrupção de um agente infeccioso, se mostra cada vez mais possível.
Para saber mais:
4. Inflammatory and neurodegeneration markers during asymptomatic HSV-1 reactivation
5. Herpesviruses, antiviral treatment, and the risk of dementia – systematic review and meta-analysis.









