Eletrônica de papel

Por Keli F. Seidel – Universidade Tecnológica Federal do Paraná – UTFPR

Vivemos em uma era altamente tecnológica. Talvez você não faça ideia de quantos e quais componentes eletrônicos em escala micro e/ou nanoscópica existem dentro do seu computador, celular, televisor. Porém, é um fato que os avanços sob estes componentes trouxeram aos equipamentos eletrônicos que usamos em nosso cotidiano uma maior eficiência em: alta densidade de processamento de dados, menor tempo de processamento, maior resolução de imagens nas telas, etc. Entretanto, toda essa geração de tecnologia não é, necessariamente, só benéfica, uma vez que sua produção passa por processos geradores de poluição na natureza.

Pensando em uma frente de geração de dispositivos eletrônicos “eco-friendly” (amigos na natureza), também chamada de eletrônica “green” (verde), pesquisadores têm desenvolvido uma eletrônica baseada em papel. O papel utilizado pode ser aquele formado por fibras de celulose como numa folha de seu caderno, ou ainda, formado por algo mais tecnológico como a nanocelulose. Quando descartada, a (nano)celulose gera resíduos que não são tóxicos à natureza. Além desta vantagem, a celulose apresenta para a eletrônica o potencial de criar dispositivos eletrônicos muito baratos, junto ao fato de ter flexibilidade mecânica (se curvar) e biocompatibilidade, podendo ser aplicado em biossensores, por exemplo.

A pesquisadora portuguesa, Profa. Dra. Elvira Fortunato, é uma das pioneiras nesta área de investigação. Dentre seus desenvolvimentos, um é a construção bem-sucedida de um transistor, cujo dispositivo é composto por camadas de material com propriedades elétricas: isolantes, semicondutoras e condutoras. Neste trabalho, realizado ainda em 2008, o transistor foi construído baseado em diferentes técnicas de deposição de filmes finos numa folha de papel, similar a realização de uma fotocópia frente e verso, uma vez que de um lado da folha de papel foi depositado material condutor e noutro semicondutor [1]. Muitos estudos decorrentes deste trouxeram amplas possibilidades de aplicação de eletrônica de papel tais como: peles artificiais, biossensores, circuitos extensíveis ou ainda células fotovoltaícas [2]. Existem também os dispositivos eletrocrômicos, que são aqueles que mudam de cor dependendo da tensão elétrica aplicada como se fossem uma cortina elétrica que escurece ou muda de cor para diminuir a luminosidade dentro de ambientes. Este dispositivo também já foi desenvolvido baseado em eletrônica de papel, obtendo como resultado a mudança na sua coloração entre o amarelo, verde e azul [3]. Por ser baseado em eletrônica de papel, ele traz benefícios como flexibilidade de adaptação à forma/superfície da janela bem como ser composta por materiais baratos.

Outra aplicação baseada em eletrônica de papel, é o desenvolvimento de biossensores do tipo “point-of-care”. O que isso significa? Significa que este é um tipo de sensor que pode ser utilizado para fornecer o resultado do diagnóstico médico no próprio local e hora que o paciente fizer o teste. Em países subdesenvolvidos, onde há pouco acesso a laboratórios com diagnóstico médicos, é de extrema importância a população ter acesso a sensores do tipo “point-of-care” com baixos custos. Um exemplo, já comercializado atualmente, é o sensor de glicose no qual as pessoas precisam provocar pequenos furos na pele para coleta de sangue, a partir da qual é feita a detecção. O monitoramento da glicose no sangue foi estabelecido como uma ferramenta valiosa no controle do diabetes. Recentemente, pesquisadores desenvolveram um protótipo de biossensor baseado em nanocelulose, onde é possível fazer a detecção de glicose a partir de amostras de urina, evitando o desconforto das picadas [4]. Além disso, ao descartar o biossensor, parte dele gera pouco lixo tóxico ao ambiente, devido à sua composição baseada em celulose junto ao material biológico (urina), que não necessita de descarte rigoroso.

Apesar do número muito grande de pesquisas já realizadas e artigos publicados, os dispositivos propostos até o presente momento são apenas protótipos. Por outro lado, esta área de pesquisa tem também grande número de geração de patentes, inclusive com parcerias com importantes empresas. Para aqueles que achavam que não usariam mais papel no seu cotidiano, dispensando livros impressos, agendas e cadernos com muitas folhas por um aparelho de celular ou tablet, prepare-se: o papel pode voltar de forma muito mais tecnológica até você, em breve!

Para saber mais acesse os artigos abaixo:

1- High-Performance Flexible Hybrid Field-Effect Transistors Based on Cellulose Fiber Paper.

2- Current State of Applications of Nanocellulose in Flexible Energy and Electronic Devices.

3- All-Solid-State Electrochromic Device Based on Nanocellulose/PANI/PEDOT Ternary Hybrid System for High Optical Contrast and Excellent Cycling Stability.

4- Nanocellulose- based biosensor for colorimetric detection of glucose.

Embriões humanos já podem ser cultivados por mais de 14 dias!

Por Ricardo Castilho Garcez

Os pesquisadores agora têm permissão para cultivar embriões humanos no laboratório, por mais de 14 dias. Mas o que isso significa? Teremos humanos cultivados em laboratórios? 

Em maio de 2021, a Sociedade Internacional para Pesquisa em Células-Tronco (ISSCR), publicou novas regras que permitem o cultivo de embriões humanos para pesquisa, por mais de 14 dias. Até então, o 14º dia de desenvolvimento embrionário humano era o limite máximo que um pesquisador poderia cultivar um embrião. É importante lembrar que essa regra criava um limite máximo para o cultivo de embriões humanos, mas cada país tem autonomia para decidir por limites menores, ou até mesmo proibir. 

Mas, na prática, o que isso significa? Como seria um embrião de 14 dias ou mais? E, principalmente, por que fazer isso?

A regra antiga limitava o cultivo de embriões humanos por no máximo 14 dias, pois é nessa idade que a gastrulação inicia. É nesse momento que começa a ser definido onde será o lado direito e esquerdo, a cabeça, o ânus etc. Ou seja, o que os cientistas estavam autorizados a ver eram apenas os estágios do desenvolvimento antes da gastrulação. (Fig 1). 

Figura 1: Embrião humano de 12 e 14 dias. Weatherbee et al., 2021
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Afinal, temos evidências para o uso da hidroxicloroquina na COVID-19?

Por Daniel Fernandes, Departamento de Farmacologia UFSC

Provavelmente você já se questionou sobre a eficácia da hidroxicloroquina (HCQ) no tratamento do novo coronavírus (SARS-CoV-2), causador da COVID-19. Talvez até conheça alguém que afirme ter sido curado pela HCQ! Afinal, desde o início da pandemia o uso deste medicamento na COVID-19 tem sido foco de debates calorosos no Brasil e no mundo.

Mas passado algum tempo, o que a ciência nos mostrou?

Em um dos melhores estudos clínicos publicados até o momento, os cientistas demonstraram uma completa falta de eficácia da HCQ para o tratamento da COVID-19. Este estudo, realizado pelo National Heart Lung and Blood Institute PETAL Clinical Trials Network, avaliou pacientes hospitalizados com um quadro clínico variando entre severo e moderado. Os autores escolheram aleatoriamente (processo chamado de randomização) 479 pacientes para receber HCQ (242 pacientes) ou placebo (grupo controle que recebe comprimido que não contém HCQ, 237 pacientes). Os pacientes receberam o tratamento por um período de 5 dias e tiveram a condição clínica avaliada por 14 dias. O estudo demonstrou que não houve diferença entre os dois grupos durante o período de análise. Além disso, a taxa de mortalidade que foi monitorada por um período de 28 dias foi de 10,4% para o grupo que recebeu HCQ e 10,6% para o grupo placebo1.

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O impacto emocional do COVID-19

Por Filipe Modolo – Dpto. de Patologia, UFSC

Por acaso você tem se sentido angustiado ultimamente? Quando você pensa sobre como serão os seus próximos dias, você fica ansioso? Você tem dificuldade para dormir? Quando dorme, não descansa? Passou a sentir medo de coisas que até pouco tempo não te preocupavam? Saiba que você não está sozinho….

Cientistas descobriram que… a pandemia do COVID-19 tem causado um grande impacto psicossocial devido à chamada “coronofobia”, um medo generalizado da COVID-191. Um grupo de pesquisadores das áreas de psiquiatria, neuromedicina e cardiologia da Índia e dos Estados Unidos pesquisou publicações científicas que associavam COVID-19 com saúde mental e descobriu que a associação do medo da doença (coronofobia) com o isolamento imposto pela quarentena obrigatória produziu crises de pânico, ansiedade, comportamentos obsessivos, acumulação de bens materiais sem utilidade específica para doença (como não se lembrar da falta de papel higiênico no início da pandemia?!), paranoia, depressão e estresse pós-traumático. Tudo isso foi mais intenso nas famílias que precisaram ser separadas pela doença… Segundo os cientistas, esses problemas psicossociais podem causar maiores prejuízos (emocionais, sociais, econômicos e etc.) a longo prazo do que a COVID-19 propriamente dita!

Mas, quais seriam os motivos para tudo isso? Diversos fatores podem ser os principais causadores dos problemas emocionais, com destaque para Continuar lendo

Os produtos naturais no tratamento de doenças

Por Izabella Thaís da Silva – Dpto. de Farmácia, UFSC 

Você sabia que a maioria dos medicamentos que você toma hoje para tratar muitas doenças foi obtida a partir de produtos naturais?

Há milhares de anos o homem vem utilizando os recursos da natureza no tratamento de diversas patologias. Há registros sobre a utilização de plantas, oriundos da Mesopotâmia e datados de 2600 a.C., relatando o uso, por exemplo, de Glycyrrhiza glabra Torr. (alcaçuz) e Papaver somniferum L. (papoula). Desde então, os produtos naturais têm sido a maior fonte de inspiração devido à sua vasta capacidade de sintetizar compostos extremamente complexos, muitas vezes impossível de se reproduzir em laboratório pelos melhores cientistas. Da morfina, isolada dos frutos imaturos da papoula, ao antibiótico penicilina, produzido por um fungo, passando pelo antitumoral Taxol, extraído das cascas de um pinheiro americano, estima-se que 80% dos fármacos em uso são produtos naturais ou foram inspirados pela natureza. Aqui neste link você encontra um importante trabalho de dois pesquisadores do National Institutes of Health (NIH) dos EUA que mostra a origem de 1881 fármacos aprovados entre o período de 01/01/1981 até 30/09/2019. Segundo eles, apenas 25% apresentam origem Continuar lendo

A nova geração de exames de sangue: a resposta para encontrar as primeiras células tumorais?

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Adaptado de Lui et al., 2020. Annals of Oncology

Em seu livro “The first cell” ou em tradução livre “A primeira célula”, ainda não publicado em português, a médica oncologista Azra Raza expõe de maneira clara o que para ela tem sido, há décadas, a maior limitação dos fundos de financiamento de pesquisa, passando pelos projetos de pesquisa básica e aplicada e chegando aos ensaios clínicos de novos medicamentos antitumorais: o foco na investigação e tratamento de doenças tumorais em fases avançadas. Esta observação é baseada não apenas na opinião pessoal da Dra. Azra, mas em dados sólidos que mostram que uma vez em fases tardias, ou seja, com presença de metástases em gânglios linfáticos e em órgãos distantes, os tumores são, de maneira geral, intratáveis e letais. Visto isso, ela propõe que, se de fato quisermos erradicar mortes por doenças tumorais, devemos aprender não sobre as células que adoecerão os pacientes tumorais até as suas mortes, mas sobre como identificar o aparecimento das primeiras células tumorais. Uma vez que tivermos tecnologias para isso, possivelmente seremos capazes de identificar tumores em suas fases iniciais e de agir na remoção segura e definitiva destas células de forma a garantir a cura de pacientes oncológicos. Continuar lendo

A influência das redes sociais em nossa alimentação

Por Filipe Modolo – Dpto. de Patologia, UFSC

Todos nós conhecemos a importância da internet em nossas vidas, nos mais diversos temas, inclusive na saúde, como pudemos ler no texto “Dr. YouTubeTM, a evolução do Dr. GoogleTM”, publicado em dezembro de 2019. Dentre as utilidades mais populares presentes na internet estão as redes sociais, ferramentas que permitem interação entre as pessoas, mesmo quando distantes. Como a internet é um “território livre”, ou seja, um local onde pouco ou nenhum controle é exercido, o fluxo de informações é extremamente volumoso e heterogêneo. Isso pode ter diversos efeitos sobre o bem-estar físico e mental dos usuários, principalmente neste momento da pandemia do COVID-19. Diversos bons exemplos são encontrados nas redes sociais, como as comunidades de alimentação saudável, que recentemente ganharam muita popularidade. No geral, esse movimento de filosofia da alimentação saudável tem sido positivo, com os usuários se esforçando para comer mais frutas e vegetais e menos alimentos processados. Continuar lendo