A Guerra dos Sexos. Sobre Luta e Apaziguamento

Por Paulo César Simões-Lopes – Departamento de Ecologia e Zoologia – UFSC

Uma pergunta recorrente é a de “por que somos como somos?” Por que genocídios, fomes planejadas, dominação, assassinatos e também pacificações, resoluções de conflitos e assim por diante? Um dos caminhos para entender isso é perguntar para nossa espécie irmã e ponderar sobre o que possuímos em comum ou não. Mas aí temos um problema de partida: todos os nossos parentes estão mortos ou, dizendo de uma forma mais branda, nossas espécies irmãs estão extintas faz tempo (neandertais, denisovianos ou quaisquer outras). Quem sobrou foi nosso distante primo chimpanzé, Pan troglodytes, com o qual compartilhamos quase todos os genes. 

O eminente primatólogo Franz de Waal trouxe então alguma luz em seu excelente livro “Our inner primate” (traduzido para o português como Eu primata). Justo aí, ele nos lembrou que existem duas espécies de chimpanzés, sendo a outra o chimpanzé pigmeu ou bonobo, Pan paniscus. Como as duas são espécies irmãs, em pé de igualdade, devemos procurar em ambas os traços misteriosos que compõem a nossa natureza. É o que compartilhamos com elas que importa, isto é, aquilo que estava no ancestral remoto dos chimpanzés e humanos lá pelos sete milhões de anos. 

De Waal simplificou as coisas para nós mostrando como herdamos os genes briguentos do chimpanzé comum e os genes apaziguadores dos bonobos, já que esses últimos fazem todo o possível para as coisas não pegarem fogo de vez. Mais do que isso: fazem sexo para relaxar as tensões sociais e evitar confrontos. Enfim, nosso lado belicoso e aquele apaziguador (e de luxúria) teriam origens bem marcadas e, logicamente, nos teriam sido legados por aquele ancestral antigo. Mas o bacana da ciência é que alguém, em algum lugar, não se conformará com ideias definitivas. Irá continuar procurando uma dada agulha num palheiro até encontrar.

Continuar lendo

O “Homem do Gelo” e seus fungos: viajantes do tempo que contam histórias do passado

Por Elisandro Ricardo Drechsler-Santos – departamento de Botânica UFSC; Mateus Guterres Mendonça – graduando em Jornalismo pela UFSC

Imagine a cena: alpinistas encontram um corpo congelado a mais de 3.000 metros de altitude nos Alpes, entre a Itália e a Áustria, em 1991. Esse homenzinho, com pouco mais de 1 metro e meio de altura — mas com mais de 5 mil anos — foi apelidado de Ötzi, o Homem do Gelo. Desde sua descoberta, ele vem sendo estudado como uma verdadeira cápsula do tempo, oferecendo pistas sobre a dieta, as doenças e os costumes de nossos ancestrais.

Figura 1 – Momento da descoberta do Homem do Gelo. Fonte: Divulgação.

E os fungos? O que têm a ver com essa história?

Vamos começar a responder pelo que já era conhecido. Ötzi carregava consigo alguns fungos de forma intencional, pois eram úteis para sua sobrevivência. Entre os itens encontrados em sua bolsinha pessoal, estavam duas espécies de orelha-de-pau: Fomes fomentarius e Fomitopsis betulina. Acredita-se que Fomes fomentarius era usado para iniciar fogo, já que possui propriedades inflamáveis. Já Fomitopsis betulina provavelmente era utilizado por suas propriedades medicinais, conhecidas desde aquela época — como no combate a vermes e outros microrganismos indesejáveis. Como dito, isso não é nenhuma novidade atual, pois já era algo cogitado e bastante discutido já na descoberta de Ötzi. 

Continuar lendo

Timo, o guardião do nosso organismo: que segredos guarda sobre a sua criação…

Por Hélia Neves – Faculdade de Medicina de Lisboa – Portugal 

Obs:  Este texto foi redigido em português de Portugal, com o vocabulário e as normas ortográficas do país.

Figura 1. Localização do timo em humano adulto. Fonte: Inserm

O timo é um órgão que desempenha um papel essencial de defesa do nosso organismo, protegendo-o contra microorganismos e garantindo a tolerância aos próprios tecidos do corpo. Nos mamíferos, aves e peixes ósseos, os primórdios do timo originam-se da terceira e/ou quarta bolsas faríngicas durante o desenvolvimento embrionário. Em tubarões, os primórdios do órgão localizam-se entre a segunda e a sexta bolsas faríngicas, enquanto em anfíbios encontram-se na segunda bolsa, e em répteis nas segunda e terceira bolsas faríngicas.

Para explorar esta variação entre espécies, investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL) / Gulbenkian Institute for Molecular Medicine (GIMM), desenvolveram um modelo in vitro quimérico de codorniz e galinha. “Nesses ensaios, as bolsas faríngicas isoladas de embriões de codorniz desenvolveram-se em contacto com tecidos específicos dos arcos faríngicos de embriões de galinha”, explicou Isabel Alcobia, primeira coautora do estudo. 

Continuar lendo

As melhores descobertas científicas publicadas em 2024 no CDQ

As melhores descobertas científicas publicadas em 2024 no CDQ

Links das publicações:

Um novo monstro no pedaço?

Por Paulo César Simões-Lopes – Departamento de Ecologia e Zoologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Somos fascinados por pesos e tamanhos. Quem é o maior ou o menor ou o que vive mais ou mais venenoso ou a mordida mais forte?… Saber sobre esses detalhes nos dá uma falsa sensação de conhecimento ou intelectualidade. Podemos jogar isso sobre os outros e parecer melhores. É um ato simplório, mas também corriqueiro.

Faz tempo que sabemos de que as baleias-azuis são os maiores vertebrados do planeta, e mais, sabemos que o prêmio máximo coube a uma fêmea. Era uma baleia de 160 toneladas, muito acima do que os guias de identificação preconizam1.

Depois vieram as descobertas do que se chamou de Supersaurus, uma versão amplificada dos pescoçudos Apatosauros e Diplodocus reinantes no Jurassic Park2. Eles de fato eram maiores que as baleias azuis, mas pelo menos três vezes2-3 mais leves e assim ficou difícil de lhes dar o prêmio máximo.

Então, este ano veio uma nova bomba. Os Cientistas Descobriram Que, debaixo das rochas andinas do Peru, existiam achados espetaculares. Ossos fósseis de uma criatura muito pesada jaziam ali. Os primeiros cálculos estavam baseados em algumas vértebras torácicas e suas costelas associadas. Essa primeira estimativa extrapolou os valores conhecidos até então e propôs que o monstro tinha 340 toneladas. O monstro era uma nova baleia fóssil e ganhou o nome de Perucetus colossos, nada mais justo para valores colossais, que alcançariam o peso de DUAS baleias azuis recordistas. 

Continuar lendo

Bactérias ancestrais vítimas de um vírus moderno?

Bactérias ancestrais vítimas de um vírus moderno?

Por Giordano W. Calloni – Departamento de Biologia Celular – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Os leitores fiéis do CDQ e já familiarizados com meus textos, devem ter percebido uma certa obsessão de minha parte por uma organela onipresente em nossas células: a mitocôndria. Ver também texto de 2016.

Mitocôndria

Para que os leitores possam acompanhar o presente texto, irei relembrar rapidamente a Teoria Endossimbiótica. Essa teoria afirma que as mitocôndrias atuais se originaram a partir de bactérias ancestrais. O mecanismo exato pelo qual isso ocorreu ainda é fonte de muitas hipóteses e pesquisas, mas estima-se que ocorreu entre 1,6 e 1,8 bilhão de anos atrás. Uma dessas hipóteses propõe que as bactérias foram fagocitadas (ou seja, ingeridas) por outras células maiores. De alguma forma, essas bactérias escaparam de ser digeridas por essa célula ancestral e permaneceram em seu interior. Assim, se estabeleceu uma simbiose entre os dois seres, ou seja, a bactéria passou a fornecer energia para a célula que lhe hospedou, e em troca ganhou proteção e nutrientes da mesma. Milhares de anos de evolução transformaram essa bactéria nas atuais mitocôndrias, que são as grandes usinas de energia das células eucariontes, sob a forma de ATP. Vale mencionar que esta teoria também explicaria a origem dos cloroplastos de plantas e algumas algas.

A ideia de que algumas organelas em eucariotos evoluíram a partir de bactérias endossimbióticas remonta ao início do século XX. Em 1905, Konstantin Mereschkowsky sugeriu que os cloroplastos derivaram de “algas verde-azuladas” (hoje sabemos que são na verdade cianobactérias). Em 1927, Wallin propôs que as mitocôndrias derivaram de bactérias roxas (alfaproteobactérias). Entretanto, esta hipótese que parecia originada de um livro de ficção científica, permaneceu extremamente controversa, por razões óbvias: parecia ser louca demais para ser verdade! E o principal: faltavam evidências para poder comprová-la. 

Continuar lendo

Eletrônica comestível

Por Keli F. Seidel – UTFPR

Que tal incluir à sua dieta saudável um pouco mais de vegetais, alimentos integrais, frutas e “dispositivos eletrônicos doces”? Muita calma nesta hora, pois esta pode não ser a recomendação de um(a) nutricionista, mas talvez a recomendação médica para auxiliar num diagnóstico ou tratamento médico. 

Dispositivos que englobam a área de eletrônica comestível são aqueles que podem ser ingeridos e metabolizados dentro do nosso corpo sem causar danos devido à não toxicidade dos materiais que os compõem. Mas talvez você questione sobre qual seria a necessidade de comer um dispositivo eletrônico? 

Continuar lendo