Quando a magia vira ciência: cogumelos e o mistério da longevidade

Por Diego Viana Costa & Elisandro Ricardo Drechsler dos Santos – Departamento de Botânica – UFSC

Você, leitor do CDQ, já deve estar pensando: “de novo esses cogumelos salvando vidas?”. Pois é, eles estão de volta e com uma nova façanha!  Lá em 2017, falamos AQUI sobre como compostos de fungos venenosos poderiam ajudar no transporte de medicamentos e até no combate ao câncer (Link). Depois, em 2022, contamos que os famosos “cogumelos mágicos” mostraram potencial para tratar a depressão, ajudando pessoas a recuperarem a qualidade de vida (Link). Agora, um novo estudo publicado em 2025 revela que essas criaturas misteriosas podem ter um poder ainda mais surpreendente: retardar o envelhecimento celular com o potencial de aumentar a sobrevida em modelos animais!

A pesquisa, publicada em julho de 2025, investigou o efeito da psilocina, o metabólito ativo da psilocibina, composto produzido por cogumelos principalmente dos gêneros Psilocybe, Panaeolus e Conocybe, em células cultivadas em laboratório (in vitro) e em camundongos idosos (in vivo). 

No organismo, a psilocibina é rapidamente convertida em psilocina, que é a substância que realmente atua nas células. Assim, o objetivo deles era descobrir se a psilocina poderia influenciar o envelhecimento das células e o tempo de vida dos animais.

Nos experimentos in vitro, pesquisadores cultivaram células fibroblásticas, que são células responsáveis pelo colágeno, elastina e ácido hialurônico, ou seja, que mantêm a pele firme, elástica e saudável. O cultivo aconteceu por várias semanas e aquelas tratadas com psilocina demonstraram demorar mais para entrar em senescência, ou seja, permaneceram “ativas e jovens” por mais tempo. Em números e em condições controladas de laboratório, o tratamento aumentou em até 57% a longevidade celular, além de reduzir o acúmulo de danos no DNA e o estresse oxidativo, fatores diretamente ligados ao envelhecimento.

Gráfico 1. Aumento da longevidade celular (Imagem retirada de Kato, Kosuke et al., 2025).

Mas o mais impressionante veio dos testes em camundongos idosos. Os animais receberam doses controladas de psilocibina e foram acompanhados ao longo de várias semanas. Os resultados mostraram melhoras significativas na sobrevivência e no estado geral dos animais, com menor desgaste celular e melhor funcionamento dos tecidos.

Em termos simples: os camundongos tratados envelheceram mais devagar e viveram mais do que os que não receberam o composto. Incrível, não acham?

Figura 2 a) Esquema experimental mostrando o número de aplicações de psilocibina nas doses baixa (5 mg/kg) e alta (15 mg/kg) administradas entre 19 e 29 meses de idade dos camundongos; b) Curvas de sobrevivência comparando camundongos tratados com psilocibina e o grupo controle (vehicle), indicando maior longevidade no grupo tratado; c) Comparação visual do estado físico dos camundongos ao longo do envelhecimento, ilustrando menor desgaste corporal nos animais que receberam psilocibina (Imagens retiradas de Kato, Kosuke et al., 2025).

Essas descobertas reforçam a ideia de que a psilocibina é muito mais do que efeitos psicodélicos. Os pesquisadores acreditam que o composto ativa mecanismos de defesa celular, ajudando as células a combater o estresse e a se reparar melhor, o que pode explicar o aumento da longevidade

É claro que, apesar dos resultados empolgantes, os cientistas fazem questão de ressaltar que ainda é cedo para falar em aplicação direta em humanos. Mais estudos são necessários para entender os mecanismos envolvidos e garantir segurança e eficácia. Vale lembrar que os efeitos observados estão relacionados ao uso de compostos purificados, em doses controladas, e não ao consumo direto de cogumelos.

Mas o fato é que os fungos continuam a surpreender. De “venenosos” a “mágicos”, agora também podem ser vistos como aliados da longevidade. Quem diria que os cogumelos esconderiam segredos tão poderosos?  

No fim das contas, talvez o verdadeiro “passe de mágica” não esteja nas alucinações, e sim na capacidade dos fungos de inspirar a ciência a descobrir novas formas de viver mais e melhor.

Para saber mais: 

Kato, Kosuke, et al. “Psilocybin Treatment Extends Cellular Lifespan and Improves Survival of Aged Mice”. Npj Aging, v. 11, n. 1, julho de 2025, p. 55. DOI.org (Crossref)

Cogumelos venenosos podem salvar vidas

Cogumelos “mágicos” podem salvar vidas

Cientistas Descobriram Que… Fungos “reconhecem” espaços e rotas estratégicas

Por: Rodrigo Fernando de Almeida Caselgrandi, graduando em Ciências Biológicas e Dr. Elisandro Ricardo Drechsler-Santos – Departamento de Botânica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
drechslersantos@yahoo.com.br

Você já assistiu ao filme Avatar? Neste e em outros filmes de ficção científica, florestas inteiras são retratadas como organismos inteligentes, conectados por uma rede (Figura 1), muitas vezes subterrânea e invisível. Parece pura imaginação, mas a realidade não está tão distante assim. Sob nossos pés, fungos constroem verdadeiras teias vivas (veja mais AQUI), redes que lembram cabos de internet natural, capazes de ligar diferentes pontos da floresta.

Figura 1. Rede de micélio conectando fungos em um ecossistema bioluminescente, inspirada nas redes miceliais apresentadas no filme Avatar. Foto gerada no Gemini-pro.

Se isso ainda soa exagerado, pense em algo mais próximo: aplicativos como o Google Maps, que sugerem rotas mais rápidas e menos trabalhosas. Agora imagine um organismo sem cérebro, sem olhos e sem nervos, mas que consegue otimizar caminhos de maneira tão eficiente quanto um desses algoritmos.

E, para aproximar ainda mais, pense nas suas próprias decisões. Quantas vezes você escolhe algo quase de forma automática, como ir por um caminho conhecido, seguir um hábito, e isso acontece de forma meio que automática, sem refletir demais, mas ainda assim de modo funcional? A natureza também faz isso. E não são apenas animais ou plantas: fungos também parecem tomar decisões.

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O “Homem do Gelo” e seus fungos: viajantes do tempo que contam histórias do passado

Por Elisandro Ricardo Drechsler-Santos – departamento de Botânica UFSC; Mateus Guterres Mendonça – graduando em Jornalismo pela UFSC

Imagine a cena: alpinistas encontram um corpo congelado a mais de 3.000 metros de altitude nos Alpes, entre a Itália e a Áustria, em 1991. Esse homenzinho, com pouco mais de 1 metro e meio de altura — mas com mais de 5 mil anos — foi apelidado de Ötzi, o Homem do Gelo. Desde sua descoberta, ele vem sendo estudado como uma verdadeira cápsula do tempo, oferecendo pistas sobre a dieta, as doenças e os costumes de nossos ancestrais.

Figura 1 – Momento da descoberta do Homem do Gelo. Fonte: Divulgação.

E os fungos? O que têm a ver com essa história?

Vamos começar a responder pelo que já era conhecido. Ötzi carregava consigo alguns fungos de forma intencional, pois eram úteis para sua sobrevivência. Entre os itens encontrados em sua bolsinha pessoal, estavam duas espécies de orelha-de-pau: Fomes fomentarius e Fomitopsis betulina. Acredita-se que Fomes fomentarius era usado para iniciar fogo, já que possui propriedades inflamáveis. Já Fomitopsis betulina provavelmente era utilizado por suas propriedades medicinais, conhecidas desde aquela época — como no combate a vermes e outros microrganismos indesejáveis. Como dito, isso não é nenhuma novidade atual, pois já era algo cogitado e bastante discutido já na descoberta de Ötzi. 

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Cordyceps no controle: quando a natureza se torna aliada 

Cordyceps no controle: quando a natureza se torna aliada 

Por Camila Santos-Souza e Ricardo Garcez – Departamento de Biologia Celular, Embriologia e Genética – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) 

Imagine um organismo tão surpreendente que é capaz de infectar e assumir o controle de outro ser vivo, o transformando em um verdadeiro “zumbi”. Parece ficção, mas isso realmente acontece na natureza! Foi essa característica assustadora e fascinante de alguns fungos que inspirou o universo do jogo The Last of Us, onde uma mutação de um fungo Cordyceps desencadeia um apocalipse. A propósito, este mesmo tipo de fungo já foi encontrado aqui no Brasil, por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina – Veja AQUI o post.

Cordyceps é na verdade um gênero com mais de 260 espécies de fungos, das quais a maioria é capaz de infectar insetos (somente insetos, fique tranquilo). O mecanismo de infecção foi representado de forma interessante em The Last of Us, mas na vida real, uma espécie deste famoso gênero, o Cordyceps militaris, é estudada não por causar pandemias, mas por seus potenciais benefícios à saúde. O C. militaris é um fungo encontrado no hemisfério norte, e é utilizado há milênios na medicina tradicional chinesa. Seus compostos bioativos, amplamente estudados pela ciência moderna, demonstram efeitos farmacológicos significativos — incluindo ação antioxidante, modulação do sistema imunológico e mecanismos antitumorais¹,².

Figura 1 – A: Estalador do jogo The last of Us. O corpo de frutificação do fungo se projeta da cabeça do infectado. Fonte: Divulgação / Sony. B: Inseto infectado por um fungo Cordyceps, com vários corpos de frutificação pelo corpo. Fonte: Alex Hyde / Nature Picture Library.
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Cogumelos “mágicos” podem salvar vidas

Por Kelmer Martins da Cunha & Elisandro Ricardo Drechsler dos Santos,  Depto. BOT-CCB/UFSC

Fonte: link

Você leitor do CDQ já deve estar pensando: “já li esse título por aqui no CDQ, será?”. Sim, de forma muito similar, em um outro texto de 2017, falamos sobre como substâncias tóxicas de fungos venenosos poderiam ser úteis para transportar medicamentos no corpo humano e ajudar no combate a doenças, como o câncer. No texto de hoje, queremos compartilhar com vocês mais uma evidência científica do benefício dos fungos. Em um estudo recente, ficou comprovado o potencial que cogumelos “mágicos” têm para dar maior qualidade de vida às pessoas que sofrem com a depressão, inclusive salvando vidas.

A depressão é uma doença muito séria, por vezes negligenciada ou até mesmo não diagnosticada, mas que afeta a vida de milhões de pessoas diariamente. No mundo, são mais de 300 milhões de pessoas impactadas e, no Brasil, cerca de 16 milhões têm suas carreiras, interações sociais e a própria felicidade comprometidas pela doença. Existe uma relação clara entre depressão e alteração na estrutura cerebral, ou seja, pessoas com esta doença apresentam uma comunicação reduzida entre os neurônios, a chamada atrofia sináptica. Por ser uma doença com causas complexas, resultante da junção de fatores genéticos, ambientais e psicológicos, ainda não existe cura. Existem tratamentos que podem amenizar os efeitos da doença.

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“Fauna e Flora”, mas e os fungos?

Por Elisandro Ricardo Drechsler-Santos, Depto. BOT-CCB, PPGFAP, MICOLAB – UFSC

Todo mundo já leu ou ouviu os termos “Fauna e Flora” em jornais, noticiários, documentários ou até mesmo na legislação, certo? Ok mas, e os fungos?

Figura 1: A deusa dos fungos, “Diana Funga”. Reprodução do artista brasileiro Claudio Toscan Jr. da obra original de Schaeffer (1774)

Todos sabemos o que significa “Fauna e Flora”. Quando falamos que a fauna é exuberante em uma determinada região, queremos salientar que os animais daquele lugar chamam muita atenção, como é o caso da Amazônia. Quando falamos que a flora de determinado lugar é muito diversificada, queremos dizer que existem muitas espécies de plantas que ocorrem lá, como é o caso da Mata Atlântica. E os fungos? Qual termo poderíamos utilizar para a diversidade de fungos de um ecossistema ou região que seja equivalente e ao mesmo tempo distinto de “Fauna e Flora”? A resposta é que não há um termo universal, que seja utilizado em diferentes línguas, em diferentes países, e que ao mesmo tempo seja entendido por todos. Pior, muitas vezes os fungos são tratados como Flora ou no genérico grupo dos microorganismos. Continuar lendo

Árvores atraem biodiversidade e protegem espécies raras e ameaçadas de extinção

Por Elisandro Ricardo Drechsler-Santos                                                                               Depto. de Botânica e PPGFAP – UFSC

Fonte da imagem: Coletivo Gaia Brasília 2014.

Fonte da imagem: Coletivo Gaia Brasília 2014.

Qual o segredo das árvores? Elas são nucleadoras, no sentido em que naturalmente cada árvore forma associações diretas ou indiretas com centenas, talvez até milhares de espécies em florestas preservadas ou degradadas. Em setembro de 2016 foi publicado, na prestigiada revista da Academia Americana de Ciências – PNAS, um estudo de avaliação da biodiversidade na Costa Rica, Continuar lendo