Medicamento usado para reduzir o colesterol pode melhorar a microbiota intestinal

Por Daniel Fernandes, Departamento de Farmacologia UFSC

Sinvastatina, rosuvastatina e atorvastatina são exemplos de fármacos que pertencem a uma classe de medicamentos chamada de estatinas. As estatinas são medicamentos utilizados para redução do colesterol com o uso consagrado devido ao perfil favorável de eficácia e segurança. Esta classe de medicamentos é tão amplamente utilizada que estes nomes já são bastante familiares para boa parte da população. Para termos uma ideia, cerca de 25% da população mundial com mais de 65 anos toma uma estatina.

Entretanto, logo se percebeu que os benefícios proporcionados pelo uso das estatinas eram maiores do que inicialmente esperado, e que não poderiam ser totalmente explicados apenas pela redução dos níveis de colesterol. Por exemplo, vários estudos têm documentado que as estatinas apresentam efeito anti-inflamatório.  Mas além de reduzir o colesterol, o que as estatinas estariam fazendo? Como elas exercem este efeito anti-inflamatório?  Esta é uma pergunta que tem intrigado os cientistas ao redor do mundo. No entanto, uma pista importante para ajudar resolver esse mistério veio de um local que poucos imaginaram, do intestino, mais precisamente das bactérias do intestino! Recentemente, cientistas descobriram que as estatinas podem aumentar a quantidade de bactérias benéficas no nosso intestino.

O estudo foi realizado por pesquisadores do MetaCardis Investigators, um projeto de pesquisa financiado pela União Europeia e que investiga o papel da microbiota intestinal (população de microorganismos que habitam o intestino) em doenças cardiometabólicas como a obesidade, o diabetes e a hipertensão. O grupo avaliou o perfil de microrganismos intestinais em 888 indivíduos da Dinamarca, França e Alemanha. Ao explorar alterações da microbiota intestinal associada à obesidade, eles identificaram que a terapia com estatinas estava alterando a composição das bactérias intestinais.

Talvez agora o leitor esteja se perguntando, “mas por que os microrganismos presentes no meu intestino seriam importantes?” Aqui cabe chamar a atenção que o nosso sistema digestivo abriga mais células bacterianas do que o total de células humanas em nosso corpo inteiro. Este é um tema fascinante que já foi discutido aqui no blog (para mais detalhes ver: Antibióticos, antigos aliados agora inimigos?). Resumindo, estes microrganismos têm um papel fundamental na nossa saúde, e assim, desequilíbrios na microbiota intestinal, causado por exemplo pelo uso indevido de antibióticos, têm sido associados com o desenvolvimento de várias doenças. Neste sentido, o mesmo grupo que fez esta pesquisa já tinha mostrado que a presença de um determinado padrão de espécies de bactérias intestinais, que foi denominada de Bacteroides2 (Bact2 – ver Figura 2), está associada com a presença de um processo inflamatório generalizado no nosso organismo e o desenvolvimento de doenças, como por exemplo doença inflamatória intestinal e esclerose múltipla. O perfil de bactérias classificado como Bact2 é caracterizado pela presença de bactérias produtoras de substâncias inflamatórias e a ausência de bactérias que produzem moléculas anti-inflamatórias (sim, as bactérias presentes no nosso intestino produzem substâncias que podem influenciar na nossa saúde!).

Figura 2: Classificação de microrganismos intestinais, segundo perfil inflamatório

Agora os pesquisadores observaram que a prevalência de pacientes classificados como Bact2 é 4,5 vezes maior em indivíduos obesos do que em indivíduos magros ou com leve sobrepeso. Os pesquisadores observaram ainda que em participantes obesos e que tomavam estatinas a prevalência de indivíduos classificados como Bact2 foi 3 vezes menor, sendo quase comparável aos não obesos.  Esta alteração no perfil de bactérias presentes no intestino causado pelo uso de estatinas entre os obesos pode contribuir para a redução de doenças inflamatórias, bem como ajudar a explicar os efeitos anti-inflamatórios das estatinas.

Embora promissores, os resultados são baseados em análises observacionais. Este tipo de estudo pode sofrer a influência de diversos fatores que não foram previstos inicialmente pelos pesquisadores e que confundem a análise dos dados e as conclusões. Por exemplo, os participantes do estudo que tomaram estatina podem ter adotado um estilo de vida e uma alimentação mais saudável depois de serem diagnosticados com um risco aumentado de desenvolver doença cardiometabólica, e isto poderia ter um impacto profundo na microbiota intestinal. Os próprios autores enfatizam que para confirmar estes achados são necessários estudos clínicos onde o pesquisador faz a intervenção administrando estatina para um grupo controlado de indivíduos.

De qualquer forma, esses achados levantam a possibilidade intrigante de que a terapia com estatina pode ter um efeito modulador benéfico na microbiota intestinal. Além disso, ajuda a esclarecer muitos dos benefícios que têm sido observados com o uso de estatinas e que não são explicados apenas pela redução do colesterol.

Para saber mais acesse o artigo original abaixo:

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