Tumores hibernam para sobreviver à quimioterapia

Apesar de termos à disposição uma razoável gama de drogas com efeito antitumoral, de maneira geral, um determinado tumor será sensível apenas a uma fração destas drogas. Além disso, mesmo quando um tumor é sensível a uma droga específica, comumente observa-se o desenvolvimento de resistência a curto ou médio prazo. Uma das explicações mais aceitas para este processo é a de que, mesmo quando a maioria das células em uma massa tumoral é sensível à uma determinada droga, comumente existirão populações de células tumorais resistentes à uma terapia em questão. Assim, ao final do tratamento com uma determinada droga, haveria espaço para uma população inicialmente minoritária se expandir e formar novas massas tumorais. Levando em conta esta teoria, em casos de retorno da massa tumoral, a estratégia mais adotada é a de buscar uma droga alternativa que possa ser eficiente contra estas células tumorais emergentes. Entretanto, não raramente, há casos aonde não é possível obter resposta antitumoral com drogas alternativas, seja por falta de efeito da droga e/ou por excessiva toxicidade da terapia em questão. Infelizmente, estes casos costumam resultar em baixa sobrevida dos pacientes.

Com isso em mente, de forma a melhorar a resposta e a sobrevida de pacientes oncológicos, fica clara a importância de buscarmos compreender com mais detalhes como tumores tornam-se resistentes às drogas. Outra questão crucial, sem uma resposta no campo da oncologia, é sobre como células cancerígenas se mantém inativas (ou dormentes) durante anos após um primeiro tratamento, voltando a formar lesões tumorais as vezes décadas depois do primeiro diagnóstico. 

Com estas questões em mente Cientistas Descobriram Que há um novo mecanismo pelo qual células cancerígenas podem adquirir resistência a terapias antitumorais. Em um trabalho, liderado pela Dra. Catherine O’Brien (University Health Network – Toronto – Canada), publicado na revista americana Cell, foi observado que determinadas terapias antitumorais são capazes de induzir um estado de hibernação em células tumorais. Células que entram neste estado de suspensão, chamadas pelos autores deste trabalho de “Persistentes tolerante a drogas”, ou DTP, conseguem preservar energia ao desacelerarem significativamente seu ritmo de proliferação celular e assim se protegerem da ação de drogas antitumorais (especialmente daquelas que atuam no bloqueio da proliferação celular). O mais interessante é que este estado de hibernação de tumores se assemelha em muito com um processo observado no desenvolvimento embrionário de mais de uma centena de mamíferos, chamado de “Diapausa”. Neste estado de latência, embriões conseguem pausar o seu desenvolvimento quando condições ambientais adversas estão presentes, retomando o seu desenvolvimento quando estas condições se tornam mais favorável. Os cientistas do grupo da Dra. O’Brien observaram que, quando tratados com quimioterapias, tumores humanos conseguem entrar em um estado similar à diapausa. Sabendo que a autofagia (do grego “comer a si mesmo”), um processo que permite que células consumam as suas estruturas celulares em condições adversas, é um componente chave da diapausa, cientistas viram que ao inibirem a autofagia em células tumorais conseguiram também diminuir a hibernação destas células, diminuir a presença de células não responsivas às terapias e melhorar a eliminação de tumores. Outro ponto relevante diz respeito à ideia mais aceita para a origem de resistência a terapias: a de que subpopulações de células tumorais, diferentes geneticamente das populações responsivas ao tratamento, são selecionadas durante quimioterapias. Interessantemente, neste trabalho os autores viram ainda que células tumorais, mesmo geneticamente idênticas a células sensíveis a um agente quimioterápico especifico, podem adquirir resistência transitória às drogas por meio do processo que se assemelha à diapausa.

Esta descoberta abre possibilidades animadoras para aumentarmos a eficiência de quimioterapias existentes, diminuindo a necessidade de múltiplos ciclos de tratamento com drogas frequentemente tóxicas e a chance de reaparecimento da doença tumoral depois de anos do primeiro tratamento antitumoral. Entretanto, como em outros trabalhos desenvolvidos apenas em células de camundongos, haverá ainda a necessidade de validar estes achados em pacientes oncológicos humanos.

Acesse o artigo original no link abaixo:

Penas Vermelhas, Tráfico de Fauna e Prestígio: uma história dos tempos antigos… 

Por Paulo César Simões-Lopes – Dpto de Ecologia e Zoologia – UFSC

Fonte: Artes Visuais: 1995 | Fabio Colombini.

Como já disse anteriormente, somos bons nisso… Somos eficientes. Nossa fama não é a de um “exterminador do futuro”, …somos exterminadores do presente, mas desde quando? 

Há um deserto muito seco, talvez o mais seco do mundo e também muito salgado. Chama-se Atacama, no Chile, e é um lugar absurdamente lindo. Quando passei por lá, não sabia que outros mistérios ele guardava, mas agora sei. Sua secura e seu sal o tornaram um testemunho e um repositório de nossa passagem desastrosa pelo mundo. 

Penas vermelhas, amarelas, azuis e verdes, e também ossos, tendões, músculos e pele, permitiram que novas informações emergissem das areias finas e das rochas e do sal. Tudo perfeitamente preservado na forma de múmias animais. 

A ciência vem dando passos largos ultimamente. Vem se valendo de métodos como o dos isótopos estáveis de carbono e nitrogênio, do rádio carbono, da espectrometria de massa (AMS), da morfologia comparada e da arqueogenômica que, em outras palavras, é o estudo do DNA antigo. Pois bem, os Cientistas Descobriram Que1 …lindas araras e papagaios amazônicos eram traficados pelos povos atacamenhos antigos pré-colombianos e depois pelos incas, aproveitando as caravanas de lhamas, nosso camelídeo domesticado. Era uma epopeia e tanto cruzar os passos altíssimos da cordilheira andina, transportando uma carga viva em direção a um destino improvável. As aves eram capturadas nas selvas do Peru, Bolívia e Brasil e traficadas para o norte do Chile. Os traficantes tinham de alimentar essa carga viva e improvisar novos alimentos não naturais para espécimes cativos.

E quem pagava por isso? Ora, os ricos e abonados senhores e senhoras dessas paragens… Os mesmos que hoje se refestelam com cintos de couro de crocodilo e casacos de pele de foca ou arminhos. Penas coloridas eram como os nossos “diamantes de sangue” do renomado filme de Hollywood. Elas eram sinal inequívoco de prestígio e liderança, riqueza e status espiritual [1] e eram traficadas das florestas tropicais amazônicas e levadas ao altiplano e ao deserto seco do outro lado, onde as penas eram usadas como ornamentos, chapéus, vestuário, toucados e guias para flechas. Mais importante ainda, viravam mascotes nos enterros rituais, o chamado prestígio depois da morte.

E foi porque o deserto era seco e salgado que as penas, ossos, tendões e peles de aves se preservaram em cerca de 269 tumbas arqueológicas de cinco diferentes localidades no deserto. E os métodos científicos de que falamos acima permitiram saber que eram pelo menos sete espécies de araras e papagaios, dentre elas a arara-vermelha (Ara macao), arara-canindé (Ara ararauna), papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva), papagaio-moleiro (A. farinosa), papagaio-campeiro (A. ochrocephala), loro-verde (A. mercenarius), aratinga (Psittacara mitratus). Esses achados também permitiram saber que os animais eram mantidos num cativeiro torturante como “fábricas de penas” para seus senhores humanos e, para tanto, tinham as asas quebradas, as pernas amarradas e as garras e bicos cortados. Permitiram também saber que essas caravanas datam de pouco antes do descobrimento das Américas (1100 a 1450 CE) * e que viajaram mais de 500 km por diferentes rotas comerciais (as vezes até 900km!).

Enfim, …sim nós somos exterminadores do presente e do passado. Naquele tempo, assim como hoje, penas vermelhas, riqueza e tráfico de fauna se misturam. E sabemos tudo isso, por que os cientistas são curiosos compulsivos e inovadores e porque o deserto era para lá de seco.

* CE (Common Era ou Current Era) é uma alternativa para DC (Depois de Cristo) ou AD (Anno Domini, ano do senhor).

Acesse o artigo original no link abaixo:

1- Pre-Columbian transregional captive rearing of Amazonian parrots in the Atacama Desert.

Mas e a ivermectina?

Por Daniel Fernandes, Departamento de Farmacologia UFSC

Recentemente, escrevi aqui um texto comentando estudos que mostram a ineficácia da hidroxicloroquina no tratamento do novo coronavírus (SARS-CoV-2), causador da COVID-19 (Afinal, temos evidências para o uso da hidroxicloroquina na COVID-19?). Curiosamente, a pergunta que mais ouvi dos leitores foi sobre a ivermectina. “Mas e a ivermectina? Funciona para COVID-19?”. De fato, esta é uma pergunta muito relevante e que merece ser abordada!

A ivermectina é um fármaco indicado para o tratamento de doenças parasitárias, desenvolvido há mais de 50 anos. Devido a importância da ivermectina no combate de doenças parasitárias, a descoberta do medicamento rendeu o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 2015 aos pioneiros dos estudos, o irlandês William Campbell e o japonês Satoshi Omura (Prêmio Nobel 2015: medicina, física e química).

Mas a discussão atual sobre a ivermectina começou após a publicação de um estudo que mostrou que o fármaco é capaz de reduzir a replicação do vírus SARS-CoV-2 in vitro1 (células cultivadas em laboratório). Desde então, alguns estudos observacionais têm sugerido uma potencial eficácia da ivermectina contra COVID-19. Junto com isso surgiram muitas notícias e promessas de que a ivermectina teria atividade imunológica e antiviral. 

Mas afinal o que sabemos até o momento?

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O que os estudos de biodiversidade têm a ver com o combate à COVID-19?

Por Kelmer Martins da Cunha & Elisandro Ricardo Drechsler dos Santos,  Depto. BOT-CCB/UFSC

Você não acha que muito do que os cientistas produzem parece inútil? Pois é, a grande maioria dos estudos científicos não necessariamente oferece novidades, inovações e aplicações imediatas para a sociedade. No entanto, o acúmulo de conhecimento e o domínio de novas técnicas e tecnologias irão resultar, a médio ou longo prazo, em benefícios e qualidade de vida para as pessoas.

Veja o exemplo da PCR (do inglês Polymerase Chain Reaction). Quem antes da COVID-19 conhecia a PCR? 

Em tempos de pandemia, qualquer pessoa que ouve ou lê “PCR” já associa com o teste mais preciso para detecção da COVID-19. A PCR é uma técnica da biologia molecular que amplifica o DNA ou RNA, ou seja, aumenta a quantidade de material genético de uma forma que possa ser detectado. Antes estava “presa” em laboratórios ou no uso de investigações científicas, mas hoje está “na boca de todo mundo”, mais precisamente nos testes para identificação da doença. Nesse caso, a PCR amplifica o RNA do vírus de uma amostra laboratorial, ajudando a reconhecer se uma pessoa está infectada ou não.

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Evolução das bactérias “à la carte” quando expostas ao tratamento com antibióticos

Por Rita Zilhão – Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Portugal

Figura 1: Estrutura geral dos integrons. IntT– gene que codifica a integrasse. GC – diferentes cassetes de resistência a antibióticos (adaptado de Stalder T. et al. (2012).

A resistência aos antibióticos continua a ser um problema em saúde pública devido à notável destreza de resposta das bactérias a alterações ambientais, tais como a presença de antibióticos.

Mas de onde vem esta flexibilidade das bactérias? Ora, uma das estratégias que as bactérias desenvolveram foram os chamados elementos genéticos móveis, isto é, segmentos de DNA que se podem mover não só dentro do próprio genoma de uma bactéria como ser transferidos para uma bactéria diferente. Através destes elementos as bactérias podem adquirir novos genes que, inclusivamente, já podem ter sobrevivido ao desafio da seleção natural em outras espécies bacterianas. Globalmente, a diversidade genética bacteriana aumenta e confere-lhes uma faceta de sobrevivência que, representando em si uma vantagem para as mesmas, pode ser um problema para o homem como o que se observa na propagação global da resistência aos antibióticos cujos genes de resistência fazem frequentemente parte destes elementos.

Mas vejam o seguinte: na ausência de antibióticos não tem então muito sentido a bactéria adquirir genes de resistência, que não lhe são necessários, assim como produzir proteínas de resistência (caso já contenha os genes de resistência). Ambos os mecanismos são dispendiosos e podem reduzir a viabilidade da bactéria sendo mais um prejuízo que uma vantagem. Contudo, se surge um antibiótico seria muito vantajoso que a célula já estivesse preparada para lhe resistir, certo?

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Os ensinamentos da pandemia

Por Filipe Modolo – Dpto. de Patologia, UFSC

Fonte: pxhere

Não é novidade para ninguém que estamos vivendo um momento trágico na história da humanidade, talvez um dos momentos mais difíceis da Idade Contemporânea. Não há dúvidas de que a pandemia do COVID-19 trouxe muitos prejuízos, como a perda da vida das pessoas amadas, diversas sequelas naqueles que se recuperaram, saturação dos sistemas de saúde público e privado, retração econômica com aumento no desemprego entre outros problemas muito sérios. Diversos textos desse blog científico já trataram dessas repercussões negativas da pandemia, com destaque para “O impacto da COVID-19 na saúde bucal eO impacto emocional do COVID-19.

No entanto, de acordo com a “metáfora do copo meio cheio, meio vazio” ou a “filosofia de buscar o lado bom das coisas ruins” todas as situações, por pior que pareçam, podem ter um lado bom – muitos chamariam isso de comportamento Poliana (menina que sempre procurava extrair algo de bom em todas as situações, mesmo as mais desagradáveis, personagem do livro clássico “Pollyana”, escrito em 1913 por Eleanor H. Porter). A pandemia do COVID-19, por incrível que pareça, também gerou repercussões positivas…

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A possibilidade de transfusão de sangue a partir de células criadas em laboratório

Por Marco Augusto Stimamiglio – Instituto Carlos Chagas – Fiocruz/PR

Há vários anos os cientistas têm se preocupado com possíveis interrupções no suprimento de sangue para transplante. Estas interrupções poderiam ser decorrentes do envelhecimento rápido da população ou devido ao surgimento de novas doenças que seriam transmitidas através do sangue (como poderia ser o caso do vírus SARS-CoV-2, causador da atual pandemia de COVID-19), o que reduziria drasticamente o número de doadores no futuro.  Por este motivo, os cientistas têm trabalhado no desenvolvimento de alternativas para produzir sangue em larga escala nos laboratórios e nas fábricas, permitindo assim seu fornecimento ilimitado.

A produção de glóbulos vermelhos (hemácias ou eritrócitos) em laboratório de pesquisa já é uma realidade há anos. A primeira demonstração de que é possível usar estas células em transfusões de sangue data de 2011 (ensaio clínico publicado na revista Blood por M.C. Guiarratana e colaboradores). No entanto, apesar dessa conquista, a expansão em larga escala de glóbulos vermelhos para fins de transfusão sanguínea segue sendo um obstáculo, pois, para alcançar as quantidades de glóbulos vermelhos necessárias nas transfusões, os cientistas precisam atingir densidades equivalentes a 1,5 bilhão de células no volume de uma colher de sopa cheia (uma bolsa de sangue contém 2×1012 glóbulos vermelhos, ou seja, dois trilhões de células).

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