Cientistas descobriram que… obesidade não é mais só um número na balança


Por Dra. Alessandra Melo Aguiar – Instituto Carlos Chagas – Fiocruz Paraná

Entra ano, sai ano; começam as festas em dezembro, as confraternizações, as ceias de Natal e Ano Novo e, em janeiro, começam as férias e mais exageros na alimentação e é comum o ganho de peso, que se perpetua ao longo dos anos. Aí a pessoa se dá conta de que mais um ano começou, mais quilos ganhou e é o momento de correr atrás do prejuízo e cumprir as promessas de ano novo: “agora vai… esse ano vou emagrecer e começar a dieta”, “segunda-feira começo a academia” … Contudo, a questão principal pode estar além do “como emagrecer”, mas sim no que realmente significa ter obesidade.

A obesidade, caracterizada pelo excesso de peso, medida de forma simples pelo Índice de Massa Corporal, o conhecido IMC acima de 30 kg/m², é tão alarmante e vem crescendo ao longo do tempo que no Brasil a taxa de adultos obesos aumentou no período entre 2006 e 2023, variando de 11,8%, em 2006, a 24,3% em 2023 (Ministério da Saúde).  Com tanta gente lutando contra a balança — inclusive nas resoluções de ano novo — é natural imaginar que entendemos bem o que é obesidade.

Mas os cientistas descobriram que… talvez não entendamos tão bem assim. Em janeiro de 2025, uma comissão internacional de 58 especialistas na área propôs novos critérios para diagnosticar obesidade, por meio de uma publicação no periódico internacional “The Lancet Diabetes & Endocrinology”. A mudança é profunda e pode revolucionar consultas, políticas públicas e, inclusive, a forma como enxergamos nosso próprio corpo. 

Figura 2 – Chris Bumstead (CBum), hexacampeão no Mr. Olympia Classic Physique, maior premiação mundial de fisiculturismo. Seu IMC na sua última temporada de competição (2024) chegou a 30,4 kg/m².

Uma das principais mudanças de paradigma é uma crítica ao uso indiscriminado do IMC. Esse parâmetro é calculado levando-se em consideração o peso e a altura. O IMC não mede a gordura corporal e não separa músculo de gordura, por isso que um atleta musculoso e com baixa gordura corporal pode ser considerado obeso por ter um IMC elevado, e o que pode ser mais crítico, classificar como IMC normal e saudável uma pessoa com gordura visceral elevada e esse índice não indica se a pessoa está doente.

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A fórmula mágica para emagrecer… será verdade?

Por Hélia Neves – Faculdade de Medicina de Lisboa – Portugal

A prevalência da obesidade tem aumentado no Brasil e em Portugal, refletindo uma tendência global. Segundo a Organização Mundial da Saúde, desde os anos 90, a prevalência de obesidade duplicou em adultos e quadruplicou em crianças e adolescentes1. Em 2022, cerca de 16% dos adultos e 8% das crianças e adolescentes no mundo eram obesos, elevando o risco de doenças como diabetes tipo 2, problemas cardiovasculares e certos tipos de cancro (câncer em português brasileiro).

Dada a preocupação crescente com a obesidade e as doenças metabólicas, muitos investigadores têm intensificado esforços para encontrar tratamentos eficazes para estes problemas. E os cientistas descobriram que… existe uma hormona (hormônio em português brasileiro), o péptido (peptídeo em português brasileiro) semelhante a glucagon 1, GLP-1 (Glucagon-like Peptide-1), importante na regulação do metabolismo dos açúcares e na modulação da saciedade, influenciando diretamente o controlo (controle em português brasileiro) do peso corporal. Embora o GLP-1 tenha sido identificado em 1983, a sua utilização foi limitada por se tratar de um péptido rapidamente degradado no organismo. Só recentemente os investigadores conseguiram desenvolver um análogo sintético do GLP-1, a semaglutida (cohecido com o nome comercial Ozempic), uma molécula peptídica modificada para aumentar a sua estabilidade e prolongar a sua atividade no corpo. Por ser um agonista do recetor de GLP-1, a semaglutida liga-se ao recetor do GLP-1, ativando-o e imitando a ação natural do GLP-1 (revisto em 2).

Com esta descoberta, a semaglutida começou a ser usada em ensaios clínicos para tratar diabetes tipo 2, demonstrando resultados promissores3. Os ensaios revelaram melhorias significativas no controle glicémico (glicêmico em português brasileiro) e um aumento na sensação de saciedade, contribuindo para a prevenção de picos de glicose pós-refeição. Além disso, o uso deste fármaco ajudou à regulação do apetite reduzindo a ingestão alimentar, o que levou à perda de peso em alguns participantes. Mais recentemente, outros ensaios clínicos mostraram benefícios para indivíduos com obesidade e pré-diabetes, com uma redução notável no peso e melhorias na normoglicemia4

O que faz então este agonista de GLP-1R, a semaglutida, no nosso organismo? 

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Jejum intermitente: vale a pena ou não?

Por Rita Zilhão – Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa

Com o desenvolvimento econômico, a disseminação das dietas e os modernos estilos de vida ocidentais, a obesidade duplicou entre 1980 e 2015 e tornou-se um problema. Cerca de 60% das mortes globais anuais estão relacionadas com a obesidade na medida em que esta, enquanto distúrbio metabólico crônico, contribui para doenças como as cardiovasculares ateroscleróticas, diabetes tipo 2 e diferentes tipos de cancro (câncer em português brasileiro).

As estratégias de tratamento da obesidade passam pela cirurgia, medicação, exercício físico, dietas variadas e também o jejum. Nesta última categoria, entra o jejum intermitente (IF – intermittent fasting) que se tem revelado eficiente na sua relação com a perda de peso, e em alguns casos até descrito como mais eficaz do que programas de treino físico.

Por outro lado, a remodelação da microbiota intestinal também tem sido uma estratégia para a prevenção da obesidade na medida em que impede ou promove a absorção de nutrientes regulando o metabolismo do hospedeiro. Também se sabe que nos programas de dieta o tipo e o tempo em que se consomem os alimentos modificam o ritmo da microbiota intestinal.

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Ciência da vida da gente: como cientistas descobriram que exercícios físicos combatem a obesidade

Por Alessandra Melo de Aguiar – Instituto Carlos Chagas, Fiocruz.

Caros leitores, é com alegria que eu escrevo o meu primeiro texto para o Cientistas descobriram que… No artigo de hoje, vou falar de uma descoberta que pode trazer explicações científicas para o uso da atividade física no combate à obesidade. Cientistas descobriram que os exercícios físicos estimulam a produção de uma substância que reduz o apetite e a obesidade. A pesquisa de Veronica L. Li e colaboradores (2023) foi publicada online no dia 15/06/22 na conceituada revista Nature e, até a presente data, já teve cerca de 69 citações em revistas científicas, o que indica que o artigo serviu de base para novas pesquisas e novos achados científicos!

A prática de exercícios físicos regulares é tão importante para a saúde que a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda pelo menos 150 a 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada a vigorosa para os adultos (OPAS, 2020). 

A OMS também indica que a prática de atividade física regular é de extrema importância para prevenir e controlar várias doenças, como doenças cardíacas, diabetes tipo 2 e câncer, além de reduzir os sintomas de depressão e ansiedade, reduzir o declínio cognitivo, melhorar a memória e exercitar a saúde do cérebro (OPAS, 2020). Contudo, as substâncias produzidas no organismo e seus mecanismos de ação, responsáveis por mediar os benefícios da atividade física, não são totalmente conhecidos. 

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Consumo de gordura, bactérias intestinais e saúde, qual é a relação

Por Daniel Fernandes, Depto. de Farmacologia UFSC

Embora a gordura seja essencial para o funcionamento do nosso organismo, hoje sabemos que o seu consumo excessivo favorece o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. 

Mas como exatamente isto acontece?

Uma série de estudos científicos tem mostrado que as bactérias presentes no intestino, e que compõem a nossa microbiota, são capazes de converter uma substância chamada colina, presente na nossa dieta (abundante em ovos, por exemplo), em uma outra substância chamada trimetilamina (TMA). A TMA é absorvida no próprio intestino e chega até o fígado onde é metabolizada formando um composto de nome um pouco mais complexo, o N-óxido de trimetilamina (TMAO). O TMAO é uma substância tóxica e que favorece o surgimento de doenças do coração. 

Mas afinal o que isso tem a ver com a pergunta inicial sobre a relação entre uma dieta rica em gordura, microbiota e doenças cardiovasculares?

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Será que estamos tratando o sintoma, mas não a causa do diabetes tipo 2?

Por Alex Rafacho, Dpto de Fisiologia – UFSC

(versão estendida em vídeo, clique aqui)

”No tempo de Copérnico e Galileu, a ciência virou o mundo de cabeça para baixo. A Terra não estava mais no centro do universo, enquanto novas descobertas de anatomia, fisiologia, química e física lembravam as pessoas de que, no final das contas, os antigos não sabiam tudo. Ainda havia muita coisa a ser descoberta”.1 Como dizia um dos grandes filósofos da ciência, o inglês Francis Bacon (1561-1626), um dos precursores do método científico, ‘conhecimento é poder’. A ciência, por meio do método científico, nos permite compreender os fenômenos da natureza e, com isso, melhorar nosso conforto, nossa saúde e até nossa felicidade. A ciência deve ser praticada sem o viés de quem a realiza, deve ser imparcial e estruturada num formato que possa ser confrontada e até mesmo colocada em xeque-mate, ou seja, que as conclusões refutadas deixem de ter seu significado, como reforçava o grande filósofo da ciência Karl Popper (1902-1994).2 Contudo, nem Continuar lendo