Consumo de gordura, bactérias intestinais e saúde, qual é a relação

Por Daniel Fernandes, Depto. de Farmacologia UFSC

Embora a gordura seja essencial para o funcionamento do nosso organismo, hoje sabemos que o seu consumo excessivo favorece o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. 

Mas como exatamente isto acontece?

Uma série de estudos científicos tem mostrado que as bactérias presentes no intestino, e que compõem a nossa microbiota, são capazes de converter uma substância chamada colina, presente na nossa dieta (abundante em ovos, por exemplo), em uma outra substância chamada trimetilamina (TMA). A TMA é absorvida no próprio intestino e chega até o fígado onde é metabolizada formando um composto de nome um pouco mais complexo, o N-óxido de trimetilamina (TMAO). O TMAO é uma substância tóxica e que favorece o surgimento de doenças do coração. 

Mas afinal o que isso tem a ver com a pergunta inicial sobre a relação entre uma dieta rica em gordura, microbiota e doenças cardiovasculares?

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Inflamação intestinal altera paladar e provoca mudanças no padrão de comportamento alimentar

Por Michelle Tillmann Biz – Dpto. de Ciências Morfológicas / UFSC

A preferência por determinados alimentos tem papel determinante na dieta, não só a escolha, mas também o quanto é ingerido. E este comportamento alimentar está ligado diretamente ao paladar.

É no dorso da língua (a porção voltada para cima) que se encontram os botões gustativos, os responsáveis pela detecção do gosto dos alimentos. Estes botões estão localizados estrategicamente por todo o dorso da língua. As células gustativas presentes nos botões, uma vez acionadas por determinada substância presente na dieta, ativam as terminações nervosas livres a elas conectadas e estas levam a informação ao cérebro (principalmente via nervo corda do tímpano).

Os botões gustativos respondem aos diversos tipos de sabores de acordo com a sua localização na língua: doce na ponta da língua; salgado na ponta e, principalmente, nas laterais; ácido nas laterais; amargo na região posterior da língua; e o quinto sabor descrito, o “umami” (palavra deriva do japonês e que significa “sabor delicioso”) em todo o dorso da língua. Continuar lendo

Mais uma esperteza das bactérias: contra tudo e contra todos

Por Rita Zilhão, Faculdade de Ciências de Lisboa, Portugal

Em 2015, escrevi para este blogue um texto que se intitulava “Mais uma lição das bactérias: dão de comer a quem tem fome”. Nesse texto eu falei da formação de nanotubos (apêndices membranares) entre bactérias que permitiam a transferência dirigida de elementos do citoplasma específicos com uma função nutricional. Os nanotubos ajudariam desta forma a distribuir as funções metabólicas dentro das comunidades microbianas, ampliando significativamente o seu repertório bioquímico e possibilitavam às bactérias enfrentar ou contrariar uma situação de stress nutricional.

Ora, já há muito se sabe, que bactérias patogénicas (patogênica, em português do Brasil) como as enteropatogénicas de Escherichia coli (EPEC), colonizam o intestino e utilizam um sistema de secreção conhecido como “injectossoma” – sendo essa justamente uma das características que as torna patogénicas – por transferirem para as células epiteliais (enterócitos), que forram o interior (lúmen) do intestino, diversas proteínas efectoras existentes no citoplasma da bactéria. Continuar lendo