Cogumelos venenosos podem salvar vidas

Por Elisandro Ricardo Drechsler-Santos & Cauê Oliveira
Depto. de Botânica e PPGFAP – UFSC

Figura 1: Amanita phalloides (Vaill. ex Fr.) Link, um dos cogumelos mais mortais do planeta, mas que produz moléculas que podem salvar vidas (fonte: https://goo.gl/images/r8kp8K).

As pessoas são micofóbicas? De modo geral os brasileiros são! O “medo” de fungos, ou micofobia (do latim, mico = fungo; do grego, fobia = medo), é um medo irracional de origem cultural. Observem: quando as pessoas ouvem a palavra “fungo” reagem fazendo cara feia de desaprovação ou de desconfiança, não é verdade? Bem, acredita-se que o “medo” ocorra em culturas que se preocupam principalmente com o aspecto perigoso dos fungos, principalmente em relação àqueles cogumelos que têm o potencial de matar.

Realmente existem muitas espécies (macro e microfungos) que são responsáveis por doenças (ex.: micoses) ou envenenamentos. Há os tóxicos, que provocam alucinações, que são tratados como drogas, sendo às vezes responsáveis por acidentes que podem levar à morte, principalmente quando confundidos com outras espécies comestíveis. Muitos outros fungos são pragas, pois atacam plantações ou apodrecem a madeira das casas, o que causa uma considerável perda de valores comerciais para a sociedade. Também existem os mofos e bolores que estragam nossos alimentos, livros, roupas etc.

No entanto, não podemos esquecer que existem inúmeras espécies e utilizações desses fungos no nosso dia a dia que são extremamente importantes para o nosso bem-estar. Por exemplo, o pãozinho do nosso café da manhã teve um fungo envolvido em pelo menos uma das etapas de sua fabricação. O mesmo acontece com os vinhos, cervejas, queijos, entre outros produtos das indústrias alimentícias, que adoramos consumir, e os de função cosmética e medicinal (ex. penicilina), alguns inclusive que dependemos para continuarmos vivos. Ainda, como recicladores naturais (ver CDQ “Fungo da Amazônia se “alimenta” de plástico”) ou fornecendo outros serviços ecossistêmicos (ver CDQ “Árvores atraem biodiversidade e protegem espécies raras e ameaçadas de extinção”) os fungos são essenciais para a manutenção dos recursos e equilíbrio natural dos ecossistemas no meio ambiente. Talvez os fungos sejam mais benéficos do que propriamente maléficos.

O fato é que quanto mais os fungos são estudados e conhecidos, maior é o reconhecimento do potencial de aplicabilidade deles nas resoluções dos problemas do nosso cotidiano, mesmo que este seja extremamente tóxico, capaz de matar um ser humano adulto. Esse parece ser o caso revelado por um estudo publicado recentemente (clique aqui para acessar artigo original), que utilizou apenas duas espécies de fungos venenosos do gênero Amanita. A equipe de cientistas da Michigan State University encontrou nas sequências de DNA de Amanita phalloides (Figura 1) e Amanita bisporigera (Figura 2) a informação genética essencial para a produção das moléculas que conferem toxicidade a esses cogumelos, mas que também poderiam salvar vidas.

Figura 2: Amanita bisporigera G.F. Atk., outra espécie também mortal que pode ajudar farmacêuticos a “desenhar” melhores medicamentos (fonte: https://goo.gl/images/RIr4D8).

As intoxicações com cogumelos Amanita são causadas por moléculas peptídicas bem pequenas e específicas, as amanitinas, que fazem parte do grupo de moléculas denominadas pelos bioquímicos de peptídeos cíclicos. Essas moléculas apresentam características particulares. São resistentes ao ácido produzido no sistema digestório e não detectadas pelo sistema imunológico. Assim, devido à natureza química, elas acabam chegando intocadas à corrente sanguínea e viajam pelo corpo sem serem combatidas pelo sistema de defesa, podendo ter efeitos específicos, inclusive em nível celular. Por isso são tão eficazes na toxicidade.

Agora, e se ao invés de toxinas, os fungos levassem a “cura” para determinados problemas de saúde? A utilização de outros peptídeos cíclicos de origem não fúngica já existe e é eficiente para o tratamento de diversas doenças, por exemplo, de alguns tipos de câncer. Aproveitando essa efetividade e resistência, os farmacêuticos são capazes de modelar novas moléculas a partir do conhecimento de peptídeos cíclicos de diversos grupos de seres vivos, inclusive dos cogumelos tóxicos do estudo, e sintetizar medicamentos específicos para o tratamento de pacientes.

A descoberta do grupo de cientistas, que até então buscava as causas dos envenenamentos de pessoas por esses cogumelos, acabou revelando que no DNA das espécies estudadas existe uma fórmula para a produção de milhares de peptídios cíclicos, com real e potencial aplicação na medicina. Os resultados foram divulgados com a esperança de que os cogumelos pudessem ser capazes não só de intoxicar pessoas, mas também de resolver diversos problemas na produção de medicamentos para salvar vidas.

Artigo origina pode ser acessado clicando aqui.

Para saber mais clique aqui.

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