Fungo da Amazônia se “alimenta” de plástico

“Por Elisandro Ricardo Drechsler-Santos                                                                                                      Depto. de Botânica e PPGFAP – UFSC

O plástico é um dos principais poluentes no nosso planeta. Embora haja muitos programas para conscientização do uso e da sua reutilização, a produção de diferentes tipos plásticos (polietilenos e poliuretanos) para atender o consumo da população mundial tem aumentando muito na última década (aproximadamente 300 milhões de toneladas desde 2006) e possivelmente continue aumentando nas próximas. O resultado de produzir algo tão difícil de ser reciclado é a grande quantidade que vem sendo depositada não só nos lixões ou aterros sanitários, mas nos rios, lagos, mares e florestas. Esses depósitos de plástico impactam negativamente o meio ambiente, contribuindo para a redução acelerada da biodiversidade mundial. Uma saída para este tipo de poluição é a biorremediação, processo tecnológico que utiliza organismos vivos para remover ou reduzir resíduos poluentes/tóxicos no ambiente.

Os fungos, juntamente com bactérias e outros microorganismos, são ótimos modelos para estudos sobre biorremediação, pois produzem um grande número de enzimas capazes de decompor quase tudo ao seu redor. Apenas uma pequena parte daquilo que foi decomposto é absorvida pelos fungos para sua nutrição e o restante fica disponível no solo. Esse tipo de alimentação, por absorção, é uma característica particular dos fungos, já que de modo geral os animais ingerem o alimento para digeri-lo internamente e as plantas obtém energia por meio da fotossíntese. Por isso que, ao longo do tempo, podemos acompanhar um tronco de uma árvore se transformar em liteira (camada que cobre o solo das florestas). Assim, os fungos da madeira são responsáveis pela reciclagem natural de compostos orgânicos, ou seja, devolvem o carbono para ser reutilizado por outros organismos. Alguns desses fungos da madeira vivem de modo “adormecido” por um tempo dentro das árvores vivas, são os endófitos (endo: dentro + phyto: planta) que em algum momento “despertam” e passam a decompor a planta doente ou já morta. Esses fungos vivem dentro do substrato com a capacidade de degradação tanto na presença (aeróbicos), quanto na ausência (anaeróbicos) do oxigênio. Somente no caso específico dos macrofungos, é que podemos vê-los, quando produzem as “orelhas de pau” ou cogumelos nos troncos, galhos ou folhas em decomposição.

Diante deste conhecimento, a equipe de alunos/pesquisadores do Prof. Scott A. Strobel, da Universidade de Yale dos EUA, vem testando diferentes espécies de fungos e bactérias com potencial de decomposição de diferentes tipos de plástico. Dentre as espécies testadas, Pestalotiopsis microspora (Speg.) Bat. & Peres sobreviveu se alimentando exclusivamente do plástico em condições anaeróbicas e aeróbicas. Esses resultados foram apresentados no artigo científico (Biodegradation of Polyester Polyurethane by Endophytic Fungi) publicado na conceituada revista Applied and Environmental Microbiology, em 2011. Essa espécie de fungo, que ocorre como endofítica em árvores da Amazônia Equatoriana, produz uma enzima, chamada serine hydrolase, capaz de degradar o poliuretano, tipo de plástico até então considerado não biodegradável. Essa foi a única espécie testada nos experimentos que de fato conseguiu sobreviver se alimentado do poliuretano. O mais interessante é que o fungo consegue fazer isso também em condições anaeróbicas, o que lhe confere potencial uso na aceleração da degradação dos resíduos poluentes, principalmente de aterros, onde pode haver dezenas de metros de materiais plásticos acumulados.

O resultado é incrível, na medida em que nos dá esperanças reais de biorremediação desse tipo de poluição. Além dessa, pode haver muitas outras espécies de microoganismos capazes de nos ajudar com outras tarefas tão difíceis quanto a da decomposição do plástico. Conhecer a diversidade e usá-la com o propósito de atenuar os efeitos negativos causados no meio ambiente, advindos dos nossos excessos, também é nossa obrigação, já que prevenir os impactos parece não ser uma característica da espécie humana.

Para ler o artigo original, clique aqui.

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