Sucos naturais: não tão inofensivos quanto parecem

Por: Giordano W. Calloni                                                                                                                    Dpto. de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC

À direita o criador e editor do Blog, prof. Ricardo Garcez, brindando a saúde com este que vos escreve. Foto: André de Avila Ramos.

À direita o criador e editor do Blog, Ricardo Garcez, brindando a saúde com este que vos escreve. Foto: André de Avila Ramos.

Caro leitor, caso você esteja lendo estas linhas posso respirar aliviado. Isso quer dizer que meu editor não censurou o que vou lhes contar. Na verdade, trata-se de uma intimidade dele (e minha). Pois bem, já há alguns anos eu e o editor deste Blog temos um ritual: frequentamos um dos restaurantes no entorno da Universidade e pedimos um generoso copo de suco de laranja. Vocês poderão dizer: poxa, só isto? Bem, vocês não estão entendendo, realmente trata-se de um ritual. Os garçons não nos pedem mais o que vamos beber; ao sentarmos à mesa, o copo com o líquido amarelado nos é imediatamente apresentado. Ao escolher um suco, ao invés de um refrigerante, o que sempre busquei na verdade foi uma dose diária de saúde. Provavelmente, meu editor e muitos dos leitores pensam da mesma maneira.

Pois bem, meus caros leitores e meu querido editor, será que teremos que repensar nossos hábitos com o que vou lhes contar? Os cientistas descobriram que um componente que pode ser maléfico à nossa saúde, um açúcar chamado frutose, encontra-se praticamente nas mesmas concentrações tanto em sucos de fruta quanto nos refrigerantes. Um estudo publicado em 2014, na revista científica Nutrition, mostrou que, em média, a frutose está presente na concentração de 45,5 gramas por litro (g/L) em sucos, apenas um pouco abaixo dos 50 g/L de frutose presente nos refrigerantes de maneira geral. Mas atenção, estamos falando de médias, pois um litro de Coca Cola apresenta até 62,5 g/L de frutose, enquanto um Seven-Up possui 45,8 g/L desse açúcar. Entretanto, sucos de maçã, por exemplo, podem conter mais frutose que a própria Coca-Cola, com 65,8 g/L.

Agora o leitor pode estar se perguntando, ok, mas afinal qual o problema com essa tal de frutose? Os cientistas descobriram que uma série de doenças, tais como diabetes, doenças cardiovasculares, alterações do sistema nervoso (desde Alzheimer até déficit de atenção), está diretamente ou indiretamente ligada à alteração da expressão de certos genes no nosso cérebro. Um estudo de abril de 2016, realizado por pesquisadores da UCLA (University of Califórnia, Los Angeles, EUA) mostrou que a frutose é capaz de alterar a função de centenas de genes associados aos diversos males supracitados. O grupo de cientistas envolvidos na pesquisa analisou mais de 20.000 genes no cérebro de ratos. Desses, observou-se que a frutose alterou mais de 700 genes no hipotálamo (uma região do cérebro dos animais envolvida com o controle metabólico do organismo) e mais de 200 genes em células no hipocampo (outra região cerebral envolvida com a memória). Os genes alterados encontrados nos cérebros dos ratos eram, em sua grande maioria, correlatos aos mesmos genes presentes nos cérebros humanos e mostraram estar relacionados à regulação metabólica, a comunicação entre células e a inflamação. Entre as moléstias que poderiam estar associadas à alteração desses genes encontramos a doença de Parkinson, a depressão e a desordem bipolar. Dois desses 900 genes alterados, chamados de Bgn e Fmod, são os primeiros de uma série de genes a terem as suas expressões alteradas pela frutose e são responsáveis por regular inúmeros outros genes, em um típico efeito de cascata.

Os cientistas ainda descobriram o mecanismo pelo qual a frutose altera esses genes. A frutose remove ou adiciona um agrupamento químico em uma das bases nitrogenadas do nosso DNA, a citosina (nosso DNA é composto por quatro dessas bases e alguns leitores já podem estar familiarizados com elas, pois muitas representações da dupla hélice do DNA são representações destas quatro letras; a saber A-adenina, T-timina, C-citosina e G-guanina). Essa modificação química na citosina é chamada de modificação epigenética e tem a capacidade de dizer para um determinado gene se ele deve ser ligado ou desligado, quer dizer se ele deve ser ativado ou desativado. Portanto, a frutose tem o poder de ligar ou desligar um gene, ou seja, ela é capaz de estimular ou inibir a produção de uma determinada proteína. Agora, imaginem que essa proteína possa ser um neurotransmissor envolvido na comunicação entre os neurônios. A ausência ou a presença inadequada dessa proteína pode ser fatal ao funcionamento do organismo como um todo (um bom exemplo da importância da epigenética em nossa vida, foi publicado no CDQ ano passado).

Finalmente, surge então a grande questão: trata-se do fim do meu “saudável” suco de laranja? Para aqueles que, como eu e meu editor, são viciados em um bom suco de frutas não se desesperem, há duas boas notícias: a primeira é que os cientistas descobriram que o chamado ômega-3 (também conhecido como ácido decosahexaenoico ou DHA), obtido em grandes quantidades, por exemplo, nas nozes, na linhaça e em peixes como nos salmões (mas atenção grandes quantidades são encontradas apenas nos salmões selvagens e não nos provenientes de criadouros), podem reverter essas alterações provocadas pela frutose. O DHA mostrou fortificar as sinapses formadas pelos neurônios e melhorar o aprendizado e a memória de camundongos que foram submetidos à ingesta de frutose. A segunda boa notícia é que os sucos continuam sendo mais saudáveis que os refrigerantes, pois, além das vitaminas, possuem muitas fibras e estas fibras, a princípio, retardam e diminuem a concentração de frutose absorvida por nossas células. Os sucos das frutas ainda podem conter grandes quantidades de antioxidantes e flavonoides, que são benéficos para o nosso organismo. Ou seja, uma dieta saudável ainda é a melhor receita. Portanto, meu querido editor, amanhã encontro marcado no nosso restaurante favorito que o garçom amigo nos aguarda com nosso suco preferido agora acompanhado de um bom filé de salmão.

Par saber mais:

4 comentários sobre “Sucos naturais: não tão inofensivos quanto parecem

  1. Excelente texto. Como são da UFSC, aconselho a procurar o Prof Alex Rafacho, do LIDoC, Departamento de Ciências Fisiológicas, que trabalha com frutose e metabolismo. 😉

  2. Pingback: Cientistas descobriram que…

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