O tesouro escondido nos nossos dentes! 

Por Michelle Tillmann Biz – Dpto. de Ciências Morfológicas / UFSC

Sempre que entro em sala de aula para falar sobre o desenvolvimento dos dentes (processo conhecido por Odontogênese) meu coração pulsa. Sinto que cada dente que se forma, guarda em si um pequeno e precioso tesouro, como se fosse um cofre: a polpa dental! Deixe-me explicar melhor.

Lá no início do nosso desenvolvimento, bem no comecinho da gravidez, já somos um ser completo e complexo em miniatura que vai aos poucos crescendo. De início, somos apenas um amontoado de células, e aos poucos cada célula vai definindo o seu destino, vai definindo qual tecido, órgão ou sistema irá formar. Dessa forma, no 21o dia de gestação, algumas células vão destinar-se a desenvolver o Sistema Nervoso. Para isso, formam duas estruturas chamadas de tubo neural e células da crista neural (CN). De maneira geral, o tubo neural irá formar o nosso sistema nervoso central (SNC – cérebro e medula espinal), enquanto que as células da CN irão formar os nervos periféricos que comunicam os tecidos e órgãos ao SNC. Mas nem todas as células da CN irão formar os nervos periféricos. Muitas irão migrar para a região da face em formação e vão simplesmente permanecer ali como células não diferenciadas (como células-tronco). Exatamente nesse momento, inicia o desenvolvimento dos dentes, e à medida que os tecidos duros (dentina e esmalte) vão sendo formados, várias destas células da CN vão ficar presas dentro do dente, na polpa dental, como um tesouro bem guardado (as células-tronco da polpa dentária – as DPSC, do inglês “Dental Pulp Stem Cells”).

Pois, bem. E porque considero um tesouro?

Cada célula carrega a memória de sua “vida pregressa”, mas nem todas conseguem acessar essa memória. Com as células da CN que se encontram na polpa a história é diferente, elas carregam o potencial de diferenciarem em células do sistema nervoso.

Mas ali na polpa, onde estão guardadas, comportam-se apenas como células indiferenciadas, sem diferenciar-se em neurônios por não haver necessidade. Mas, e se forem extraídas e levadas a um local onde a necessidade de diferenciação de um neurônio fosse urgente, como em uma lesão de medula espinhal ou de córtex cerebral?

Isso mesmo!!! Cientistas Descobriram Que… ao transplantarem estas células-tronco da polpa de dentes (DPSC) para locais de lesão nervosa elas são capazes de colaborar com o processo de recuperação.

Embora células-tronco neurais tenham sido identificadas no cérebro de crianças e adultos, seu papel no reparo do SNC parece limitado e o isolamento e a amplificação dessas células enfrentam vários obstáculos técnicos e preocupações éticas. No entanto, o uso de células-tronco mesenquimais pós-natais ou adultas (como as DPSC) ganharam atenção demonstrando potencial promissor para o reparo e regeneração do tecido neural.

Uma possibilidade de aplicação para as DPSC seria nas lesões cerebrais, como lesão cerebral traumática (LCT) e acidente vascular encefálico (AVE), lesões essas que causam a falta de oxigenação (isquemia) cerebral e, consequentemente, o dano do tecido. Os estudos em animais buscam avaliar esta aplicação terapêutica causando uma isquemia cerebral e realizando o transplante destas células para o local da lesão. Em um estudo observou-se uma melhora na função sensório motora do antebraço. Em outro, as DPSC transplantadas para animais com dano cerebral hipóxico-isquêmico promoveu a sobrevivência e a formação de células neuronais e gliais (de sustentação) ao mesmo tempo em que melhorou o desempenho funcional. Já as células-tronco de dentes decíduos (de leite), em um modelo de lesão hipóxico-isquêmica do cérebro em camundongos, melhorou a função neurológica, evitou a atrofia tecidual e a redução do número de células em curso de morte (apoptose). E outro estudo, usando DPSC pré-diferenciadas em células semelhantes a neurônios, relatou que, após o transplante para o líquido cefalorraquidiano de ratos com um LCT, as células migraram para várias regiões cerebrais incluindo o local da lesão e adotaram um fenótipo neuronal funcional. Embora os resultados desses estudos sejam ainda limitados em sua totalidade, as DPSC possuem um grande potencial no tratamento de condições neurológicas traumáticas, sendo o seu mecanismo de ação primordial a ação parácrina (quando repercute em células vizinhas) pela secreção de fatores neurotróficos que coordenam a sobrevivência neuronal, regeneração axônal e restauração e preservação funcional. Já a diferenciação das DPSC em neurônios funcionais ainda é controversa, pois as células neuronais transplantadas in vivo ainda não foram definitivamente mostradas como substituindo neurônios perdidos ou restaurando circuitos neuronais danificados. A possibilidade de uso terapêutico dessas DPSC em lesão neuronal é recente, carecendo ainda de muitos estudos, principalmente de ensaios clínicos funcionais. No entanto, considerando o potencial substancial dessas células, é de se esperar um rápido aumento da pesquisa científica nessa área.

Há que chegar o dia em que cada ser humano possa carregar dentro de si a chave para todo o mal que lhe acomete. Para isso trabalham incansavelmente os Cientistas…

E para os que esperam, resta a fé nela (a Ciência) e Nele (o Criador).

Para mais informações sobre uso das DPSC em lesão neuronal, acesse artigo de revisão clicando aqui

Prêmio Nobel 2017: medicina, física e química

Cientistas descobriram que… preparou um texto especial para nossos leitores. Reunimos três pesquisadores das áreas de Biologia/Biomedicina, Física e Química para explicar as grandes descobertas que renderam os prêmios Nobel de Medicina, Física e Química de 2017. Aproveitem!

 

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O exercício físico como um instrumento terapêutico na depressão

Por Guilherme Pasetto Fadanni1 e Geison Souza Izídio2

  1. Mestrando em Farmacologia – UFSC;
  2. Coordena o Laboratório de Genética do Comportamento – UFSC

Em tempos de vida agitada, sono escasso ou de baixa qualidade e estresses diários constantes, muito se fala sobre a prática de exercício físico como um meio de prevenir e/ou tratar a depressão humana. Mas quais seriam as bases científicas por detrás desses possíveis benefícios?

Pesquisadores do Laboratório de Mapeamento Cerebral e Integração Sensório-Motora do Instituto de Psiquiatria – UFRJ publicaram o artigo “O exercício físico no tratamento da Continuar lendo