Bactérias podem degradar drogas antitumorais e contribuir para o crescimento de tumores

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Apesar do massivo investimento no desenvolvimento de novas drogas antitumorais, que atualmente envolve uma cifra de mais de 100 bilhões de dólares anuais (valor que deve aumentar em pelo menos 50% até o ano de 2020), casos de resistência a drogas antitumorais ainda representam um grande desafio no tratamento de pacientes oncológicos. De forma geral, entende-se que o desenvolvimento dessa resistência ocorre, por exemplo, pela seleção de populações de células tumorais desprovidas do alvo terapêutico dessas drogas durante o tratamento. Outro processo de resistência que vem sendo observado envolve o desenvolvimento de mecanismos, pelas células tumorais, que permitem a degradação e/ou eliminação dos medicamentos antitumorais, possibilitando que os tumores não apenas sobrevivam, mas que também continuem com o seu processo de crescimento e espalhamento no corpo do paciente. Além de mecanismos de seleção e/ou adaptação das células tumorais frente a esses tratamentos, é sabido que células não tumorais comumente envolvidas com a defesa e reparação de tecidos lesionados, tais como leucócitos e fibroblastos, também podem modificar a disponibilidade e a ação dessas drogas, permitindo a progressão de doenças tumorais. Outro exemplo diz respeito a mecanismos frequentemente envolvidos com a metabolização de drogas em nosso organismo, onde o fígado desempenha um papel importante ao controlar os níveis de drogas antitumorais.

Um grupo de células que também tem sido relacionado com a incidência e/ou progressão de casos tumorais diz respeito às células bacterianas comumente presentes no nosso corpo, também conhecidas como microbioma. De fato, tem sido observado que determinados perfis de composição das bactérias presentes no nosso corpo são associados com maior ou menor estimulação de células do sistema imune. Tendo em mente que células do sistema imune desempenham papel importante, tanto na contenção, quanto na promoção de doenças oncológicas, não é surpresa observar que diferenças na composição bacteriana em nosso corpo podem estar associadas com o aparecimento e a progressão de cânceres.

Além do papel importante desempenhado na interface tumor-hospedeiro, bactérias são frequentemente vistas por cientistas como grandes dores de cabeça em sua rotina diária de cultivar e expandir células tumorais em placas de cultura. Isso porque, não raramente, o mesmo meio de cultura celular (aquele líquido laranja-avermelhado que o pessoal da televisão adora mostrar os cientistas passando de uma garrafa para uma placa cultura em suas filmagens de laboratórios de pesquisa), que fornece nutrientes abundantes para as células tumorais, também é visto como um prato cheio por bactérias que povoam o nosso ambiente, incluindo os cientistas propriamente ditos. Com isso, não raramente experimentos têm que ser interrompidos ou mesmo reiniciados por causa da invasão indesejada de bactérias em culturas de células tumorais. Dentre essas bactérias, as do gênero Mycoplasma são um dos piores tipos, não apenas por comumente contaminarem culturas de células, mas também por poderem passar despercebidas por meses de trabalho devido ao seu diminuto tamanho, o que dificulta a sua detecção na rotina de trabalho.

Nesse contexto, Cientistas Descobriram Que a coexistência de micoplasmas e células tumorais pode ser não apenas uma dor de cabeça para os cientistas, que tentam eliminar essas bactérias de seus cultivos de células tumorais no laboratório, mas também para pacientes oncológicos devido à capacidade dessas bactérias de capturar e degradar drogas antitumorais. No trabalho publicado na revista Science, em setembro de 2017, pelo grupo do Dr. Ravid Straussman do Instituto Weizmann em Israel, foi observado que bactérias com composição similar às tais micoplasmas, contendo uma enzima bacteriana chamada de citidina deaminase (ou CDDL para os íntimos), são capazes de “desativar” a droga quimioterápica Gencitabina, frequentemente utilizada em pacientes com tumores de pâncreas, pulmão, mama e bexiga. Com isso a bactéria contribui para a resistência dos tumores a esse tratamento. Buscando ir mais a fundo, no mesmo trabalho, os cientistas analisaram tecidos tumorais coletados de 113 pacientes com câncer de pâncreas e observaram que em 76% desses casos havia a presença de bactérias potencialmente capazes de degradar a droga antitumoral Gencitabina. Isso pode indicar que, pelo menos em parte desses casos, as bactérias podem ter contribuído para o desenvolvimento de resistência ao tratamento antitumoral e levado alguns pacientes a óbito.

Com essa ideia em mente, apesar da longa caminhada entre a verificação da validade em humanos dos resultados obtidos em modelos experimentais pré-clínicos, como os utilizados nesse trabalho, é possível se especular algumas possíveis mudanças na forma de tratar pacientes oncológicos. Por exemplo, é possível que futuramente a simples adição de um antibiótico, capaz de eliminar as bactérias que degradam drogas antitumorais no protocolo de tratamento de pacientes oncológicos, seja capaz de contornar casos de não resposta a tratamentos antitumorais, aumentando a sobrevida dos pacientes e em alguns casos até o índice de cura de pacientes com tumores. De fato, o mesmo trabalho publicado pelo grupo israelense demonstra que, pelo menos em roedores, isto já é uma realidade. De qualquer forma, esse estudo representa uma rara oportunidade de, ao utilizar novas combinações de drogas já disponíveis no mercado há algum tempo, oferecer tratamentos mais eficazes e financeiramente mais acessíveis a pacientes com tumores resistentes a terapias antitumorais convencionais.

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