Acharam mesmo a cura para o câncer?

Por Dr. Bruno Costa da Silva do Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa, Portugal

Nas primeiras semanas de junho de 2022, uma notícia sobre uma suposta “cura definitiva para o câncer” despertou entusiasmados debates tanto do público leigo quanto de especialistas na área de oncologia/oncobiologia. Resumidamente, em um artigo publicado em junho de 2022 na renomada revista médica New England Journal of Medicine e liderado pelo médico Luis Diaz Jr., do centro de pesquisa e tratamento ao câncer Memorial Sloan Kettering Cancer Center (Nova Iorque – EUA) cientistas descobriram que uma droga pode, em princípio, erradicar completamente tumores em 100% dos pacientes tratados. De fato, nunca se tinha ouvido tal notícia em toda a história da medicina. Seria esta droga uma nova penicilina que revolucionou o tratamento de doenças infecciosas, ou de uma nova estatina que revolucionou a prevenção contra doenças vasculares? Seríamos nós, os felizardos de estarmos vivos na época em que a medicina erradicou “o câncer”? Seria este que vos escreve o mais novo cientista desempregado? Certamente, uma descoberta dessa envergadura justificaria uma leitura mais atenta além das manchetes dos jornalões e portais de notícias online.

Pacientes com câncer retal avançado no local, são geralmente tratados com quimioterapia neoadjuvante e radiação.

Em uma primeira leitura do artigo original, já é possível perceber que o alvo terapêutico (a molécula do nosso corpo ou do tumor à qual o tratamento antitumoral é dirigido) é uma badalada, porém conhecida molécula chamada de PD-1. Como já explicado em outros textos neste blog, o PD-1 age como um freio para as células do nosso sistema imune não atacarem células tumorais. A droga utilizada (dostarlimab) pertence a uma categoria de drogas que atuam destravando a frenagem de PD-1, permitindo que as células do sistema imune matem as células tumorais. Outra observação interessante foi que o estudo em questão testou esta droga apenas em pacientes com tumores de reto, o que já não nos garante que a mesma estratégia será uma “bala de prata” universal para eliminar outros tumores. Outro dado importante diz respeito ao número de pacientes tratados, que neste caso foram apenas 12 pacientes. Esta informação além de reduzir um pouco mais a pirotecnia das manchetes originais leva a outro questionamento: por que apenas 12 pacientes foram tratados? Seria o grande trunfo do trabalho não necessariamente achar uma droga revolucionária, mas sim identificar um grupo de pacientes que respondam bem a esse tratamento? De fato, o artigo deixa claro que apenas um pequeno grupo de pacientes com tumores de reto (com um tipo de instabilidade genética responsável pela ocorrência exacerbada de mutações gênicas) foi escolhido para o estudo.

Uma breve visita aos trabalhos anteriores do grupo do Dr. Diaz nos leva a outro artigo publicado na mesma revista em 2015, que demonstra que a droga dostarlimab foi efetiva apenas em pacientes com tumores com a tal instabilidade genética. O que é interessante nesse artigo de 2015 é que, diferentemente dos 100% de resposta ao tratamento observado no trabalho de 2022, o grupo observou uma resposta de apenas 40% nos pacientes tratados. Uma leitura mais atenta mostra que uma diferença importante entre os dois estudos foi a fase da doença em que os pacientes foram tratados. Enquanto em 2015 tratou-se apenas pacientes com doença já avançada, em 2022 o tratamento foi dado a pacientes sem manifestação de metástases distantes. Além do tratamento ter sido iniciado antes do potencial espalhamento do tumor ter oficialmente iniciado, utilizou-se o inibidor de PD-1 (dostarlimab) como o único tratamento fornecido aos pacientes, o que é algo ainda pouco estudado na literatura médica. Outra potencial vantagem foi que os pacientes nunca sofreram os insultos provenientes da remoção cirúrgica do(s) tumor(es) e/ou da administração sistêmica de quimioterapias, o que pode, por si só, ter contribuído para a melhor saúde dos pacientes e evitado a seleção de células tumorais mais agressivas por conta da quimioterapia.

Apesar do “banho de água fria” no entusiasmo inicial das notícias e da garantia de que o que vos escreve manterá (pelo menos por agora) o seu emprego como pesquisador de oncobiologia, cabe ressaltar que a tal instabilidade genética também é presente em alguns tipos de tumores de pâncreas, estômago e próstata, tornando pelo menos parte dos pacientes com estes tumores potenciais beneficiários do tratamento com dostarlimab ou outras drogas da mesma categoria. Outro avanço demonstrado neste trabalho é a viabilidade de se encontrar características específicas de tumores que identifiquem pacientes que possam tirar mais proveito de tratamentos antitumorais específicos. Vale deixar claro que, como drogas antitumorais costumam ter efeitos colaterais importantes, a identificação de pacientes não respondedores pode não apenas poupar nos custos elevados com estes tratamentos, mas também poupar os pacientes de efeitos colaterais muitas vezes nocivos e que podem contribuir ainda mais para a deterioração da saúde dos pacientes oncológicos.

Para saber mais:

  1. PD-1 Blockade in Mismatch Repair–Deficient, Locally Advanced Rectal Cancer
  2. PD-1 Blockade in Tumors with Mismatch-Repair Deficiency

Italianas que escaparam do Holocausto, fatores de crescimento, Brasil e um prêmio Nobel. Como tudo isso se entrelaça?

Por Giordano W. Calloni, Dpto de Biologia Celular, Embriologia e Genética da UFSC 

Em meu último post para esse blog, em 30 de novembro de 2021 (clique aqui para acessar), apresentei um pouco para vocês de um dos estudos de nosso colega Bruno Costa da Silva. Em resumo, Bruno mostrou que tumores primários do pâncreas são capazes de preparar o fígado para metástasesE fazem isso através de exossomos. Relembrando: exossomos são diminutas esferas de lipídeos e proteínas que carregam em seu interior desde proteínas até pedacinhos de DNA e RNA, por exemplo.

Hoje falarei de um outro trabalho, publicado em 2021 na revista Science, que vai na mesma linha do que foi demonstrado por Bruno em 2015. Cientistas descobriram que um fator de crescimento (produzido por vasos sanguíneos) estimula a metástase de células tumorais.

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O câncer de boca e a COVID-19

Por Filipe Modolo – Dpto. de Patologia, UFSC

Adaptado de fonte

Felizmente a ciência tem sido incansável na busca da redução dos efeitos da pandemia da COVID-19. Alguns dos muitos estudos científicos que trataram de aspectos relacionados à pandemia da COVID-19 foram analisados por mim nesse blog científico: “O impacto da COVID-19 na saúde bucal,O impacto emocional da COVID-19, “Os ensinamentos da pandemia” e Glândulas salivares são alvos para o coronavírus”. No entanto, quanto mais a ciência se aprofunda no estudo dessa doença, mais complicada se mostra a rede de conexões biológicas existente na interação entre o coronavírus (SARS-CoV-2) e o seu hospedeiro humano. 

Cientistas descobriram que pode haver uma relação muito íntima entre a COVID-19 e o câncer de boca. Já foi massivamente divulgado que a boca é uma porta de entrada importante para a infecção pelo SARS-CoV-2 e que a perda do paladar (chamada tecnicamente de disgeusia) é um dos primeiros sintomas da COVID-19. A disgeusia, quando reconhecida, pode ser o primeiro passo no processo de diagnóstico precoce dessa grave doença. Ambos os eventos (a infecção e a perda do paladar) são atribuídos, principalmente, à ligação entre o SARS-CoV-2 e o receptor ACE2 presente nas células epiteliais da boca, principalmente, na superfície da língua.

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Da tragédia à oportunidade: a nova geração de vacinas antitumorais

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

No começo de 2020, tivemos o início da trágica pandemia global do COVID-19, que mesmo quase dois anos depois ainda assombra as nossas vidas. Por se tratar de uma doença nova, contra a qual ninguém possuía imunidade pré-existente, tornou-se urgente o desenvolvimento de vacinas que prevenissem casos graves e se possível a propagação da infecção pelo novo coronavírus. Felizmente, apesar de estarmos ainda longe de obtermos altos índices de vacinação globais (especialmente nos países subdesenvolvidos), o que se viu foram múltiplas parcerias científicas-biotecnológicas que desenvolveram múltiplas vacinas através de diferentes estratégias. Neste cenário catastrófico, a gigante farmacêutica Pfizer, em parceria com a startup alemã BioNTech e sob a liderança da cientista Kathrin Jansen, viu o COVID-19 como uma oportunidade perfeita para testar uma tecnologia vacinal revolucionária. Ao invés de induzir imunidade a partir da injeção de partículas virais inativadas, a estratégia da Pfizer-BioNTech envolveu o uso de pequenas bolhas de gordura (chamadas de lipossomas) contendo fragmentos de material genético (RNA mensageiro – mRNA) do novo coronavírus. A ideia é que, uma vez injetadas, esses lipossomas carregam o material genético viral para células do indivíduo vacinado, sendo convertidos em proteínas virais. Essas proteínas virais, então, desencadeiam a montagem de uma resposta imunológica contra o vírus, tornando os vacinados imunes à infecção. O sucesso dessa nova estratégia tem levado cientistas a questionar se essa tecnologia pode ser útil no tratamento de outras doenças, incluindo outros vírus e até mesmo o câncer.

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Tumores hibernam para sobreviver à quimioterapia

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Apesar de termos à disposição uma razoável gama de drogas com efeito antitumoral, de maneira geral, um determinado tumor será sensível apenas a uma fração destas drogas. Além disso, mesmo quando um tumor é sensível a uma droga específica, comumente observa-se o desenvolvimento de resistência a curto ou médio prazo. Uma das explicações mais aceitas para este processo é a de que, mesmo quando a maioria das células em uma massa tumoral é sensível à uma determinada droga, comumente existirão populações de células tumorais resistentes à uma terapia em questão. Assim, ao final do tratamento com uma determinada droga, haveria espaço para uma população inicialmente minoritária se expandir e formar novas massas tumorais. Levando em conta esta teoria, em casos de retorno da massa tumoral, a estratégia mais adotada é a de buscar uma droga alternativa que possa ser eficiente contra estas células tumorais emergentes. Entretanto, não raramente, há casos aonde não é possível obter resposta antitumoral com drogas alternativas, seja por falta de efeito da droga e/ou por excessiva toxicidade da terapia em questão. Infelizmente, estes casos costumam resultar em baixa sobrevida dos pacientes.

Com isso em mente, de forma a melhorar a resposta e a sobrevida de pacientes oncológicos, fica clara a importância de buscarmos compreender com mais detalhes como tumores tornam-se resistentes às drogas. Outra questão crucial, sem uma resposta no campo da oncologia, é sobre como células cancerígenas se mantém inativas (ou dormentes) durante anos após um primeiro tratamento, voltando a formar lesões tumorais as vezes décadas depois do primeiro diagnóstico. 

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Uma doce batalha: como o consumo de açúcares define a resposta de tumores a imunoterapias

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Como fruto dos trabalhos de James Allison e Tasuku Honjo, premiados com o prêmio Nobel de Medicina em 2018, um número crescente de pacientes com câncer tem tido acesso a uma nova modalidade de tratamento antitumoral, chamada de imunoterapia. O princípio destas terapias é bloquear o que inibiria a ação antitumoral do sistema imunológico. Apesar de produzir resultados bombásticos em muitos doentes, estas terapias são ineficazes para um número considerável de doentes. Por este motivo, um dos tópicos mais investigados na área de imuno-oncologia é a base biológica para o funcionamento ou não de imunoterapias. A ideia é compreender porque alguns pacientes não respondem a imunoterapias para então ter a oportunidade de desenvolver estratégias para contornar esta resistência.

Fonte: BioRender.com

            Em um trabalho publicado na revista britânica Nature em 15 de fevereiro de 2021, liderado pelos Doutores Taha Merghoub, Jedd Wolchok e Roberta Zappasodi (todos do instituto estado-unidense Memorial Sloan Kettering), investigou-se como o açúcar, um recurso disputado tanto por tumores quanto por células do sistema imunológico, pode desempenhar um papel na resposta a imunoterapias. Os Cientistas descobriram que quanto maior o consumo de açúcar por células tumorais menor é a eficácia de imunoterapias. Como evidência disso, o trabalho descreve que o bloqueio do consumo de açúcar por células tumorais aumenta a quantidade de açúcar à disposição de células imunes e, consequentemente, também aumenta a resposta a imunoterapias. Em experimentos feitos com tumores de mama em camundongos, observou-se que o bloqueio do consumo de açúcar por tumores aumentou o efeito de imunoterapias, diminuiu a quantidade de metástases e, consequentemente, aumentou a sobrevida dos animais. Os investigadores estudaram ainda a captura de açúcar em pacientes oncológicos. Neste estudo, observou-se que quanto maior o consumo de açúcar por células tumorais, menor a quantidade de células imunes presentes nos tumores.

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Fechando a ferida que nunca cura: O papel de Myc na formação de tumores

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Fonte: BioRender

Avanços obtidos nas últimas décadas na compreensão sobre como tumores crescem e causam doenças já apresentam resultados visíveis no desenvolvimento de tratamentos novos e mais eficientes para pacientes com câncer. Apesar disso, o nosso conhecimento sobre como tumores surgem ainda é insuficiente, o que nos impede não apenas de prevenir, mas também de reverter em muitos casos a formação de cânceres malignos. Uma noção que permeia o pensamento de muitos oncologistas e oncobiologistas é a de que tumores se formam em decorrência de uma “irritação crônica”. O primeiro a propor esta hipótese foi o patologista alemão Rudolf Virchow (também conhecido como o pai da patologia celular) no ano de 1858, ao dizer que a formação de tumores se daria a partir de lesões térmicas, químicas e/ou mecânicas crônicas. Só depois de 128 anos, com base nesta primeira observação, é que o patologista americano Harold Dvorak propôs a ideia de que tumores são como feridas que nunca curam. Mais especificamente, diversos eventos que observamos na resolução de uma ferida, como o aumento de fluxo sanguíneo e de infiltração de células do sistema imune (que costuma resultar na vermelhidão que vemos em feridas recentes) estão também presentes em lesões tumorais. Enquanto em uma cicatrização estas mudanças desaparecem, em tumores estes processos persistem por anos e desempenham um papel essencial na biologia destas células malignas.

Um dos exemplos mais marcados do envolvimento de células não tumorais em cânceres é o de tumores de pâncreas, onde até 90% das células presentes em uma massa tumoral são não cancerígenas, incluindo vasos sanguíneos e células do sistema imune. Tendo em vista as diversas semelhanças entre tecidos lesionados em recuperação e massas tumorais, surge a pergunta, tida por alguns como o santo graal da oncobiologia: Por que e como tumores e lesões teciduais são tão parecidas? Tomando como base estudos iniciados por outros grupos na primeira metade da década de 80, em um trabalho liderado pelo Continuar lendo