De uma bactéria do solo à esperança contra o câncer de pâncreas: a história do daraxonrasibe

Por Izabella Thaís da Silva – Departamento de Ciências Farmacêuticas – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Você sabia que a maior parte dos medicamentos aprovados para uso clínico é obtida a partir de produtos naturais ou de compostos isolados da natureza? A penicilina veio de um fungo, a aspirina foi obtida da casca do salgueiro, a artemisinina (um importante antimalárico que ganhou um Prêmio Nobel) foi isolada de uma planta de origem asiática (a Artemisia annua L.), usada na medicina tradicional chinesa; o Taxol foi extraído das cascas de um pinheiro americano e é amplamente empregado para o tratamento do câncer. E hoje vamos falar sobre o daraxonrasibe (RMC-6236), cuja história começou com uma molécula produzida por uma bactéria do solo. 

No fim dos anos 1990, pesquisadores de uma indústria farmacêutica isolaram, de uma bactéria do gênero Streptomyces, uma molécula bastante complexa: a sanglifehrina A, com alta afinidade por uma proteína humana chamada ciclofilina A (CypA). Na época, a sanglifehrina A foi estudada por seu potencial imunossupressor. O que ninguém esperava era que aquela alta afinidade pela ciclofilina A seria, anos mais tarde, o mecanismo de ação para inibir um importante alvo do câncer: a proteína RAS. Esta proteína está presente em cerca de 30% de todos os cânceres humanos e em mais de 90% dos casos de adenocarcinoma ductal pancreático. Para entender a sua importância, é preciso conhecer melhor a proteína RAS. Pense nela como um “botão” que liga e desliga a divisão celular. Quando uma mutação mantém esse botão na posição “ativado”, a célula passa a se dividir indefinidamente, levando ao aparecimento de diversos tipos de câncer. E, durante muitos anos, a proteína RAS foi considerada um “alvo inacessível” (em inglês, undruggable), pois a sua superfície é muito lisa, ou seja, com poucos sítios adequados para a ligação de fármacos.

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Fusobacterium nucleatum: Uma Bactéria da Boca Pode Estar Impulsionando o Câncer de Mama

Por Ricardo Mazzon – Departamento de Microbiologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) 

O corpo humano é colonizado em muitas partes por bactérias, fungos, vírus e protozoários que, quando suas populações são mantidas em número controlado e restritas aos locais que normalmente habitam, contribuem positivamente para o funcionamento do organismo na medida que protegem tais tecidos contra infecções de microrganismos exógenos, contribuem para a ciclagem de nutrientes nestes nichos além de produzir vitaminas e degradar toxinas. Ao conjunto destes microrganismos que habitam um determinado sítio anatômico do corpo humano é dado o nome de Microbiota residente (e.g. microbiota residente da pele, microbiota residente da boca, microbiota residente do trato gastrointestinal e etc). Já é bem estabelecido na literatura científica que, esses microrganismos residentes em determinada região do nosso corpo, quando transportados para regiões nas quais eles não são habitantes usuais, podem se tornar agentes de infecção evento frequentemente referido como uma infecção endógena.

Muitos estudos feitos com as microbiotas do corpo humano apontam potencial interferência destes microrganismos ou repercussão sobre eles em manifestações como obesidade, autismo, diabetes, adicção por drogas, dermatites, doenças intestinais, doenças hepáticas, doenças cardiovasculares, ansiedade, depressão, câncer etc. 

Embora um grande estudo de coorte prospectivo realizado por Jia e colaboradores (2020) não tenha identificado associação clara entre a doença periodontal e o risco geral de câncer de mama, este estudo mostrou um risco aumentado sugestivo de câncer de mama invasivo e risco reduzido de carcinoma ductal in situ independentemente na mesma população.

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Testes genéticos podem levar à indicação de cirurgias mamárias desnecessárias

Por Bruno Costa Silva – Champalimaud Centre for the Unknown – Lisboa, Portugal 

A identificação de modificações genéticas associadas a cânceres tem, há mais de 100 anos, despertado esperança na possibilidade de identificar pacientes mais suscetíveis a desenvolver esta doença e tratá-los antes da progressão maligna dos tumores.  Essa história iniciou com as ideias do citologista Theodor Boveri, que previu a relação entre a instabilidade da composição do DNA de células com o aparecimento de tumores em 1911. Esse conceito foi confirmado nos anos 1960 pelos cientistas Peter Nowell e David Hungerford que associaram a anomalia genética, conhecida como “cromossomo Filadélfia”, com o desenvolvimento de leucemias e, posteriormente, aprofundado por Robert Weinberg, Michael Bishop e seus colegas nos anos 1970, que descobriram as primeiras mutações genéticas (conhecidas como oncogenes) ligadas à ocorrência de tumores.

Em meados dos anos 90, em um trabalho liderado pela cientista Mary-Claire King, envolvendo 329 participantes, descobriu-se modificações nos genes BRCA1 e BRCA2, associadas ao maior risco (~13% em mulheres sem a mutação vs. ~45-80% naquelas com a mutação) de desenvolvimento hereditário de tumores de mama.

Apesar da maioria dos casos de tumores de mama não possuir associação com mutações hereditárias, tem sido cada vez mais comum a tomada de decisões por procedimentos radicais, como a remoção profilática das mamas, em casos onde modificações em BRCA1 ou BRCA2 são identificadas.

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A saga dos cientistas que copiam a natureza: imitar para entender! Inclusive o câncer…

Por Dr. Marco Augusto Stimamiglio do Instituto Carlos Chagas – Fiocruz

Caros leitores, este é mais um texto da saga dos cientistas que copiam a natureza. Trata-se de uma série que vem descrevendo estratégias para recriar situações e condições naturais das células e tecidos dentro de um laboratório de pesquisa. Nesta ocasião, porém, trataremos de uma estratégia de imitação multifatorial que permitirá entender mais profundamente o comportamento celular para descobrir melhores formas de tratar um tipo de câncer extremamente agressivo, os glioblastomas.

Os glioblastomas já foram tema de texto recente deste blog, trata-se da forma mais comum e maligna de câncer cerebral. Os tratamentos atualmente existentes são variados, mas a sobrevida média dos pacientes é de apenas 15 meses.

As dificuldades estão sobretudo baseadas nos mecanismos de resistência que os glioblastomas adquirem ao longo do tratamento terapêutico, resistência esta mediada por fatores presentes no microambiente tumoral. O rastreio para descoberta de novas drogas contra os glioblastomas depende do cultivo das células tumorais em laboratório, modelo que reduz a complexidade existente nos tecidos humanos e carece da miríade de fatores microambientais aos quais estão submetidos os glioblastomas.

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Uma nova abordagem ao tratamento de tumores cerebrais elimina temporariamente a barreira hematoencefálica, um caminho promissor!

por Hélia Neves, Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa

Os glioblastomas são os tumores mais comuns e agressivos que se originam no cérebro. O seu tratamento geralmente envolve cirurgia para a remoção da massa tumoral, seguida de radioterapia e quimioterapia. No entanto, quase todos estes tumores reincidem após tratamento… apresentando um mau prognóstico de sobrevivência.

Uma das importantes limitações do tratamento de tumores cerebrais é o difícil acesso dos fármacos ao tumor por via sistémica (através da circulação sanguínea). Isto acontece porque existe uma barreira natural protetora, a barreira hematoencefálica (BHE), que é altamente seletiva à passagem de substâncias do interior dos vasos para o sistema nervoso central.

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Um novo tratamento contra tumores pediátricos mostra resultados promissores

Por Bruno Costa Silva Champalimaud Centre for the Unknown Lisboa – Portugal

Em um trabalho liderado pelo cientista italiano Dr. Franco Locatelli demonstrou-se o potencial uso de uma nova modalidade de terapia antitumoral para o tratamento de cânceres pediátricos. Fonte da imagem: Briorender.

Tumores pediátricos representam apenas 1% da totalidade dos casos de câncer. Dentre estes, a maioria se refere a leucemias, linfomas e tumores cerebrais. Graças a avanços recentes no desenvolvimento de terapias mais eficientes, 80% das crianças acometidas por esses tumores se mantém vivas passados 5 anos do diagnóstico. Isso inclui tumores pediátricos menos frequentes como neuroblastomas, que correspondem a aproximadamente 7% dos tumores pediátricos, e que apresentam uma sobrevida de 75% num período de 5 anos. Entretanto, vale ressaltar que apesar deste percentual de sobrevida chegar a 95% em casos menos agressivos, este número cai para menos de 50% quando tumores mais agressivos estão presentes.

Além de serem mais capazes de se espalhar para outros órgãos na forma de metástases, tumores mais agressivos também costumam apresentar menor resposta a tratamentos existentes (ex. quimioterapias e radioterapias).

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Descoberta uma nova estratégia utilizada por tumores para escapar do ataque do sistema imune

Por Dr. Bruno Costa da Silva do Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa,

Neste texto descrevemos um recém descoberto mecanismo pelo qual células tumorais conseguem se proteger do ataque de células imunes.

Dentre outros fatores, o envelhecimento da população tem levado o câncer a ser uma das principais causas de morte atuais. A modernização de métodos diagnósticos e cirúrgicos, juntamente com o desenvolvimento de novas drogas e protocolos terapêuticos, têm tido um importante impacto no aumento da sobrevida de pacientes oncológicos. Entre as novas armas para o tratamento de pacientes com câncer estão drogas que têm como efeito desejado a reativação da resposta do sistema imune contra células tumorais. Apesar de apresentarem resultados encorajadores, no máximo 20-30% dos pacientes oncológicos podem se beneficiar destes novos tratamentos, também conhecidos como imunoterapias. Em termos gerais, a resistência de tumores a imunoterapias envolve a remodelação insuficiente do sistema imunológico ou mesmo o impedimento de modificações celulares e moleculares que resultariam na eliminação de células tumorais.

Buscando entender quais estratégias biológicas os tumores utilizam para se proteger da ação de imunoterapias, em um estudo liderado pelo Dr. Yaron Carmi da Universidade de Tel Aviv em Israel, publicado na revista eLife em setembro de 2022, cientistas descobriram que células tumorais podem sobreviver a ataques de células imunes ao se esconderem dentro de outras células tumorais.

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