As Marcas do Cancro (câncer) em formato “mind map”

Por Rita Zilhão – Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Portugal

Neste texto, não pretendo escrever sobre “Os cientistas descobriram que…”, isto é, algo específico, mas sim realçar a importância de se proporem estruturas conceptuais e didáticas, para condensar e “arrumar” assuntos complexos associados a uma ampla variedade de descobertas e dados, como é o caso dos intrincados fenótipos e genótipos dos diferentes tipos de cancro (câncer em português brasileiro).

Em 2000 Hanahan and Weinberg escreveram um artigo de revisão(1) onde propunham que um conjunto de capacidades funcionais teriam de ser adquiridas para que as células fizessem o seu caminho da normalidade para estados de desenvolvimento neoplásico e formação de tumores malignos. Esse conjunto de capacidades, a que chamaram Marcas do Cancro (“Hallmarks of Cancer”), partilhadas por todos os tipos de células cancerígenas ao nível do fenótipo celular, estabelece uma estrutura conceptual que racionaliza os complexos e diferentes tipos de tumores humanos, assim como as suas variantes. Inicialmente, começaram por ser seis marcas distintas(1) abaixo enunciadas de uma forma mais detalhada: 

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A produção de colesterol por tumores de mama como estratégia para a formação de metástases

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa, Portugal

Dados recentes da organização mundial da saúde indicam que em torno de 18 milhões de pessoas morrem no mundo anualmente em decorrência de doenças cardiovasculares (especialmente por ataque cardíaco e derrames). Apesar deste dado impressionante, este número era mais do que o dobro nos anos 1980. Além de reduções marcadas no consumo de cigarros e desenvolvimento de tratamentos anti tromboses, um fator marcante para esta queda vertiginosa foi o maior controle dos níveis de colesterol pelo uso amplo de drogas do tipo Estatinas.

Outra causa importante de mortes é o câncer, que causa em torno de 10 milhões de mortes por ano mundialmente. Um dos principais motivos para esta cifra, que continua com tendência de alta, decorre da falta de estratégias diagnósticas precoces que previnam o desenvolvimento de metástases tumorais. Apesar do aprimoramento de tratamentos antitumorais, especialmente por avanços em técnicas cirúrgicas e de drogas alvo-dirigidos, ainda há falta de estratégias eficazes para a prevenção e tratamento de metástases. 

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Conversas cruzadas entre células que coabitam tumores: educação celular ou má influência?

Por Rita Zilhão – Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Portugal

As células cancerígenas, conforme o tipo e acumulação de mutações, podem ser mais ou menos agressivas no sentido de serem mais ou menos invasivas e formarem metástases. Os tumores, por outro lado, além de células cancerígenas, contêm outros tipos de células, como por exemplo células de defesa imunitária e fibroblastos, entre outras. Os fibroblastos associados a tumores designam-se de CAFs (cancer-associated fibroblasts). Os CAFs, por sua vez, podem ser de vários subtipos e coexistir no mesmo tumor, tendo uma ação que promove ou limita a progressão da doença.

Os cientistas têm procurado perceber de que forma as diferentes células no nicho tumoral interagem e se os diferentes subtipos de cada uma se influenciam de forma a modular a invasão, formação de metástases e resistência à quimioterapia. Para tal, o grupo de Vennin et al. gerou dois tipos de ratinhos em que cada um era portador de um tipo diferente de mutação no gene p53 em células do pâncreas. Atenção que o gene p53 é um grande protetor do desenvolvimento tumoral, sendo conhecido como um gene supressor de tumores, na medida em que em condições normais tem uma ação anti-tumoral. Uma das mutações gerada em um dos ratinhos (vamos designá-la de mutação A) era responsável por gerar células tumorais com características mais agressivas e com maior capacidade de formar metástases do que a mutação no segundo ratinho (que designaremos de mutação B). Em seguida, isolaram-se de ambos os ratinhos células cancerígenas e CAFs obtendo-se assim quatro tipos celulares:

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Tumores hibernam para sobreviver à quimioterapia

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Apesar de termos à disposição uma razoável gama de drogas com efeito antitumoral, de maneira geral, um determinado tumor será sensível apenas a uma fração destas drogas. Além disso, mesmo quando um tumor é sensível a uma droga específica, comumente observa-se o desenvolvimento de resistência a curto ou médio prazo. Uma das explicações mais aceitas para este processo é a de que, mesmo quando a maioria das células em uma massa tumoral é sensível à uma determinada droga, comumente existirão populações de células tumorais resistentes à uma terapia em questão. Assim, ao final do tratamento com uma determinada droga, haveria espaço para uma população inicialmente minoritária se expandir e formar novas massas tumorais. Levando em conta esta teoria, em casos de retorno da massa tumoral, a estratégia mais adotada é a de buscar uma droga alternativa que possa ser eficiente contra estas células tumorais emergentes. Entretanto, não raramente, há casos aonde não é possível obter resposta antitumoral com drogas alternativas, seja por falta de efeito da droga e/ou por excessiva toxicidade da terapia em questão. Infelizmente, estes casos costumam resultar em baixa sobrevida dos pacientes.

Com isso em mente, de forma a melhorar a resposta e a sobrevida de pacientes oncológicos, fica clara a importância de buscarmos compreender com mais detalhes como tumores tornam-se resistentes às drogas. Outra questão crucial, sem uma resposta no campo da oncologia, é sobre como células cancerígenas se mantém inativas (ou dormentes) durante anos após um primeiro tratamento, voltando a formar lesões tumorais as vezes décadas depois do primeiro diagnóstico. 

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Estresse e corticoides podem piorar a saúde de pacientes com câncer de mama

Por Ricardo C. Garcez, Dpto. de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC 

Um paciente recebe a notícia que está com câncer! Dentre as reações mais comuns estão o desespero, a insegurança, a sensação de morte eminente, a preocupação com parentes e amigos próximos, entre outras. Todas essas sensações desencadeiam respostas de estresse intenso em nosso organismo. Cientistas descobriram que os hormônios liberados em uma situação de estresse aumentam a progressão e a formação de metástases no câncer de mama Continuar lendo

Sobre a velhice e os tumores

Por Bruno Costa da Silva                                                                                                  Pesquisador do Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Dados da Organização das Nações Unidas estimam que a população mundial de pessoas com mais de 60 anos seja superior a 2 bilhões de indivíduos até o ano de 2050. Isso significa que, além de um sistema previdenciário robusto, precisaremos de uma atenção ainda maior aos futuros casos de câncer. Já é sabido que os cânceres são, de maneira geral, doenças de envelhecimento, sendo que quanto mais idosos ficamos maior é o tempo para acumularmos mutações associadas a eles. Continuar lendo

Uma vacina para todos os tumores curar?

Por Bruno Costa da Silva                                                                                                  Pesquisador do Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

James Gillray. "A Pústula Bovina ou Os Maravilhosos Efeitos da Nova Inoculação!". 1802.

James Gillray. “A Pústula Bovina ou Os Maravilhosos Efeitos da Nova Inoculação!”. 1802.

Há mais de 200 anos, o naturalista e médico inglês Edward Jenner apresentou a descoberta revolucionária de que a pré-exposição de seres humanos à um vírus (ou a partes desse vírus) pode torná-los mais resistentes a esse mesmo vírus. Desta descoberta, nascem as vacinas. Apesar dessa estratégia ainda não funcionar contra todos os Continuar lendo