Estresse e corticoides podem piorar a saúde de pacientes com câncer de mama

Por Ricardo C. Garcez, Dpto. de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC 

Um paciente recebe a notícia que está com câncer! Dentre as reações mais comuns estão o desespero, a insegurança, a sensação de morte eminente, a preocupação com parentes e amigos próximos, entre outras. Todas essas sensações desencadeiam respostas de estresse intenso em nosso organismo. Cientistas descobriram que os hormônios liberados em uma situação de estresse aumentam a progressão e a formação de metástases no câncer de mama

Os tumores tidos como os mais agressivos são aqueles capazes de colonizar várias regiões do nosso corpo, formando o que chamamos de metástases (para saber mais sobre metástases, clique aqui e acesse os textos publicados no CDQ sobre esse tema). Esses tumores, normalmente, apresentam uma grande diversidade de tipos celulares, o que dificulta muito o seu tratamento, pois a maioria dos quimioterápicos é capaz de eliminar apenas alguns tipos de células tumorais específicas. Ou seja, quanto mais diversificadas forem as células que formam um tumor, mais difícil será seu tratamento

Em março de 2019, um grupo de cientistas, liderados pelo Dr. Mohamed Bentires-Alj da Universidade da Basileia na Suíça, realizou uma série de experimentos com tumores de mama humanos implantados em camundongos (modelo de xenoenxerto, para saber mais clique aqui). Essa estratégia permitiu que os cientistas monitorassem especificamente a população de células do tumor, uma vez que é possível distinguir entre células e proteínas humanas e murinas.  Então, as proteínas que essas células estavam produzindo foram analisadas (análises de proteômica – para saber mais clique aqui) para entender o efeito dos hormônios do estresse sobre a progressão desses tumores. Entre os vários mecanismos envolvidos na resposta ao estresse, a liberação, pela glândula adrenal (também chamada de suprarrenal), dos hormônios cortisol e corticosterona são os mais característicos. Esses pesquisadores observaram que os hormônios relacionados ao estresse aumentam a diversidade de células nos tumores de mama, principalmente nas metástases desse tipo de câncer. Ao contrário do que imaginamos, os tumores são formados por um população heterogênea de células, já que em um tumor existem células que proliferam muito, que proliferam pouco, células-tronco tumorais, entre outras. Quanto mais heterogênea for essa população de células, mais difícil é o tratamento de um tumor.

Os hormônios do estresse, acima citados, são muito semelhantes aos anti-inflamatórios esteroidais, amplamente utilizados na clínica, como cortisona, dexametasona, acetonida de triancinolona. Devido a essas semelhanças, esses pesquisadores resolveram testar o efeito desses anti-inflamatórios sobre a progressão de tumores de mama. Eles observaram que os anti-inflamatórios esteroidais também eram capazes de estimular o aumento na diversidade de tipos celulares e na progressão de tumores de mama em modelos de xenoenxertos.

Essas descobertas são extremamente importantes para o futuro dos tratamentos de câncer de mama. Sendo o estresse um acelerador da progressão tumoral, as propostas terapêuticas devem iniciar antes da comunicação ao paciente do diagnóstico positivo para câncer. Estratégias para minimizar o estresse devem ser elaboradas e seguidas durante todo o tratamento. Além disso, o uso de anti-inflamatórios esteroidais é muito comum em pacientes com câncer. A partir desses dados esses protocolos devem ser repensados. 

Essa pesquisa foi realizada com tumores de mama, apesar da diversidade que existe entre os vários tipos de cânceres, fica a questão: outros tumores poderiam também ser estimulados pelos hormônios do estresse e anti-inflamatórios esteroidais? 

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