Estresse Laboral e Morte Precoce. Os Baleeiros do século XVII.

Por Paulo César Simões-Lopes – Departamento de Ecologia e Zoologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Hoje, falamos em escala 6 x 1 e na jornada de trabalho que destrói o cidadão comum. Em muitos aspectos, isso beira a escravidão e desmerece a humanidade.

Vamos agora a um exemplo oriundo dos tempos pré-revolução industrial, mas já com um viés do “capitalismo selvagem” (tipo: o trabalhador que arque com as consequências). Trata-se dos caçadores de baleia de Svalbard, um arquipélago perdido entre a Noruega e o Polo Norte. O aquecimento global acabou por expor um “documento secreto” com provas contundentes das condições de saúde desses trabalhadores. Detalhe: o tal documento secreto, em verdade, era composto por esqueletos humanos desses trabalhadores, caixões e restos de roupas. Mas o que eles revelaram? Inúmeros traumas, degenerações articulares, ósseas e musculares e até doenças metabólicas.

Eis o que a ciência trouxe à tona devido ao derretimento do permafrost, a camada de solo congelado das grandes latitudes. As arqueólogas Lise Loktu e Elin T. Brødholt1, dedicadas à saúde ocupacional e filiadas ao Instituto Norueguês de Pesquisa em Patrimônio Cultural (NIKU), revelaram o quanto o trabalho extrativista pode destruir corpos e metabolismos. Trata-se de estudos “tafonômicos”2, isto é, dos fenômenos naturais que afetam os restos de um organismo após a morte.

Essas Cientistas Descobriram Que a mortalidade durante as campanhas de caça de baleias era, significativamente, alta e que essas tripulações eram social e geograficamente diversas, o que elimina qualquer viés étnico nos resultados (além disso, análises de DNA antigo não revelaram evidências de parentesco próximo entre eles).

Dezenove sepultamentos foram avaliados. A idade da morte e as patologias foram estimadas pela morfologia do quadril (sínfise púbica), fechamento das suturas cranianas, extremidades das costelas, desgastes dentários, doenças articulares, traumas, marcadores de estresse musculoesquelético, doenças metabólicas e estresse nutricional, ufa…

Bem, a maioria era jovem adulta (68%, de 20 a 34 anos) e adulta de meia-idade (32%, 35–49 anos). Havia maior desgaste nos dentes da frente devido ao uso, como o de segurar cordames ou mastigar couro para manufaturas diversas. Indicadores de escorbuto (por deficiência prolongada de vitamina C) foram observados em 95% dos indivíduos, e todas as alterações foram compatíveis com hemorragias e edemas crônicos. Em casos mais graves, verificou-se a osteopenia3 resultante do estresse metabólico prolongado ou associada à desnutrição de longa duração e até mesmo casos de raquitismo refletindo deficiência de vitamina D.

Um elevado número de doenças articulares degenerativas por estresse musculoesquelético afetava quase todos os indivíduos (95%), principalmente na parte superior do corpo (ombro, clavícula, esterno e cotovelos), além da coluna vertebral, com claras evidências de hérnias de disco. Só as alterações na coluna vertebral representavam quase 70% das doenças degenerativas. Isto é particularmente chamativo, já que não se tratava de pessoas idosas; ou seja, foram alterações claramente laborais.

Vejam os osteófitos (bicos de papagaio) decorrentes da degeneração dos discos intervertebrais e até pontes ósseas completas nas vértebras da coluna vertebral dos baleeiros.

Os marcadores de osteoartrite degenerativa indicam uma carga mecânica generalizada e brutal, afetando o esqueleto como um todo. Lesões em tendões e ligamentos afetavam articulações da coluna vertebral, cintura escapular, quadris e pés.

E agora, o mais surpreendente: uma proporção substancial faleceu entre 20 e 25 anos de idade. O escorbuto foi uma das principais causas de morte entre os baleeiros europeus, que dependiam de conservas como carne salgada, biscoitos e peixe seco, além de manteiga, queijo e grãos. Alimentos antiescorbúticos eram limitados e socialmente reservados para oficiais (ora, ora, mais um elemento do capitalismo embrionário da época).

A mortalidade dessas pessoas estava mais intimamente ligada ao estresse fisiológico cumulativo do que aos eventos traumáticos isolados, em outras palavras, o estresse precoce, a deficiência nutricional e o trabalho físico contínuo se acumulavam ao longo da vida, escancarando seus custos para a saúde dos caçadores de baleias do Ártico no início da era moderna.

Justo agora, que estamos ultrapassando o primeiro quarto do século XXI, cabe a pergunta: Continuaremos com a mesma mentalidade de um regime de trabalho autodestrutivo? O que a Ciência traz à tona é o que aconteceu há cerca de 300 anos, antes da eletricidade, antes dos sindicatos e muito antes da informação estar disponível a quase todos em tempo real… mas e agora? O que nos cabe fazer ou permitir? Seguiremos como se nada estivesse acontecendo?

Para saber mais:

1 Loktu L, Brødholt ET (2026) Skeletons in the permafrost: Exploring climate-driven heritage loss and occupational health at the early modern whaling burial site of Likneset, Svalbard. PLoS One 21(5): e0347033. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0347033

2 do grego taphos (sepultamento) e nomos (leis).

3 osteopenia: perda de massa óssea e uma condição inicial para a osteoporose avançada.

Pode haver relação entre o estresse social e o envelhecimento do nosso sistema imune? 

Por Dr. Marco Augusto Stimamiglio do Instituto Carlos Chagas – Fiocruz

À medida que a população mundial de idosos aumenta, compreender as disparidades na saúde relacionadas à idade se torna uma tarefa essencial. O envelhecimento do nosso sistema imunológico tem papel crítico na manifestação de doenças e no declínio das condições de saúde relacionadas à idade, como a menor eficiência na recuperação de infecções e no combate a patógenos oportunistas. Mas será que pode haver alguma associação entre o envelhecimento do nosso sistema imune e o estresse social (como discriminação, trauma, estresse crônico) que somos submetidos ao longo de nossas vidas? 

É evidente que cada indivíduo tem uma taxa de envelhecimento do seu sistema imune e que fatores como o tabagismo podem acelerar esta taxa, enquanto a prática regular de exercícios físicos pode retardá-la. Em um estudo publicado em junho de 2022 na prestigiada revista PNAS, foram utilizados dados de saúde de mais de 5 mil adultos norte-americanos acima dos 50 anos de idade para revelar a associação entre fatores socioeconômicos ou de estilo de vida e o envelhecimento imunológico acelerado.

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O efeito paralisante do estresse sobre as células de defesa

Por Marco Augusto Stimamiglio – Instituto Carlos Chagas – Fiocruz/PR

É provável que você já tenha ouvido falar, ou mesmo tenha lido em algum texto, que o estresse nos torna fracos e débeis para combater as doenças. Talvez você tenha até percebido que, após uma situação de grande estresse, sentiu seu corpo debilitado e teve um resfriado ou apareceram aquelas pequenas erupções de pele. Esta relação entre estresse e saúde é bastante conhecida e estudada na área médica. Muitos trabalhos científicos apontam uma relação causa-consequência que vincula o estresse (psicológico ou físico) à redução da imunidade. Entretanto, os mecanismos fisiológicos pelos quais esta relação acontece são pouco conhecidos.

Em um estudo conduzido nas universidades australianas de Melbourne e Monash, cientistas descobriram que, em condições de estresse, o neurotransmissor noradrenalina – que desempenha um papel fundamental na resposta ao estresse agudo ou reação de ‘luta ou fuga’ – prejudica as respostas imunológicas ao inibir os movimentos de várias células de defesa (os glóbulos brancos) em diferentes tecidos. Para fazer esta descoberta, os cientistas usaram técnicas avançadas de microscopia que permitem visualizar os tecidos vivos para examinar como as células de defesa de camundongos respondem à noradrenalina. Os cientistas então perceberam que, minutos após a injeção deste neurotransmissor, as células de defesa dos animais pararam de se mover. Por outro lado, a injeção de outros neurotransmissores, como a dopamina, não teve o mesmo efeito.

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Estresse e corticoides podem piorar a saúde de pacientes com câncer de mama

Por Ricardo C. Garcez, Dpto. de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC 

Um paciente recebe a notícia que está com câncer! Dentre as reações mais comuns estão o desespero, a insegurança, a sensação de morte eminente, a preocupação com parentes e amigos próximos, entre outras. Todas essas sensações desencadeiam respostas de estresse intenso em nosso organismo. Cientistas descobriram que os hormônios liberados em uma situação de estresse aumentam a progressão e a formação de metástases no câncer de mama.  Continuar lendo →

Os efeitos do estresse podem ser transmitidos de pai para filho através do esperma

Por Marco Augusto Stimamiglio
Instituto Carlos Chagas – Fiocruz/PR

Marco - FiguraNos últimos anos, tem se tornado claro que as experiências de vida dos pais podem influenciar a saúde e o comportamento de seus filhos. Este fenômeno não diz respeito às heranças genéticas (relacionadas com a sequência do DNA de um organismo) transmitidas entre as gerações, mas sim a modificações epigenéticas. Esta herança epigenética Continuar lendo →

A Depressão: uma banda de rock’n roll com genes não compreendidos

Por Geison Souza Izídio                                                                                                                  Dpto. de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC

Geison - FiguraSetembro é um mês importante para os fãs de uma das maiores bandas de rock da história. O Nirvana foi uma banda norte-americana, criada em 1987, que vendeu mais de 50 milhões de discos. Neste mês, comemoram-se os aniversários de lançamento de dois dos três álbuns de estúdio que a banda produziu. São eles o Nevermind Continuar lendo →