Os efeitos do estresse podem ser transmitidos de pai para filho através do esperma

Por Marco Augusto Stimamiglio
Instituto Carlos Chagas – Fiocruz/PR

Marco - FiguraNos últimos anos, tem se tornado claro que as experiências de vida dos pais podem influenciar a saúde e o comportamento de seus filhos. Este fenômeno não diz respeito às heranças genéticas (relacionadas com a sequência do DNA de um organismo) transmitidas entre as gerações, mas sim a modificações epigenéticas. Esta herança epigenética é a forma como as informações provenientes do meio ambiente podem ser transmitidasentre as gerações sem o envolvimento de alterações na sequência de DNA. Neste sentido, uma série de estudos recentes sugere que os níveis de estresse e do estado nutricional dos pais (e até avós) podem influenciar a saúde e comportamento de seus filhos. Entretanto, esses estudos têm sido um tanto obscuros em descrever os detalhes sobre como esta transmissão geracional pode ocorrer. Recentemente, cientistas da Universidade da Pensilvânia que haviam mostrado anteriormente que o estado de estresse dos genitores é capaz de produzir mudanças comportamentais na prole de camundongos, demonstraram como isso acontece: os espermatozoides dos machos carregam pequenas moléculas de RNA que influenciam a expressão dos genes de sua prole.

Estes pesquisadores da Universidade da Pensilvânia já vinham estudando a herança epigenética em camundongos há algum tempo. Eles expunham ratos machos a uma variedade de fatores de estresse, tais como odor de raposa, contenção e ruído. Eles descobriram que os filhotes de ratos estressados apresentavam redução na liberação do hormônio corticosterona em resposta ao estresse, fenômeno que induz uma baixa reação a tais eventos estressantes. Isso é relevante e problemático, porque as respostas insuficientes ao estresse, em humanos, estão associadas a distúrbios neuropsiquiátricos como a depressão, esquizofrenia e autismo. Além disso, os pesquisadores descobriram que o esperma dos pais tinham níveis aumentados de nove miRNAs (pequenas moléculas de RNA não codificadoras que alteram a expressão de genes). Os cientistas então levantaram a hipótese de que estes miRNAs poderiam ser responsáveis pela redução da corticosterona nos filhotes. No estudo atual, publicado na renomada revista PNAS em outubro de 2015, os pesquisadores injetaram os nove miRNAs em embriões de camundongos normais. Os camundongos resultantes destes embriões mostraram a mesma versão alterada da corticosterona em resposta ao estresse, embora seus pais não tivessem sido expostos ao estresse. Isto indicou que alguma combinação dos nove miRNAs realmente é responsável por transmitir o estresse paterno à prole.

Sabe-se que os miRNAs agem inibindo a expressão de genes específicos. Então, usando outros embriões injetados com os miRNAs, os pesquisadores mediram a expressão de genes que são alvos conhecidos dos nove miRNAs. Como esperado, muitos alvos dos miRNAs foram inibidos, dentre eles genes importantes no controle da estrutura dos cromossomos e genes expressos em estruturas cerebrais do indivíduo adulto, como o hipotálamo (estrutura que controla praticamente toda nossa forma de viver: alimentação, sono, ritmo diário, estresse, reprodução). Os pesquisadores sugerem que esta alteração na expressão dos genes no embrião inicia uma cascata alterada de expressão de genes que, em última análise, acaba por inibir genes responsáveis pela regulação do estresse em ratos adultos.

Entretanto, ainda permanece a pergunta de quais são as modificações permanentes que estes miRNAs moduladores promovem no embrião e que levam à alteração da resposta ao estresse no indivíduo adulto e à alteração da expressão de genes em seu cérebro.

Para acessar o artigo original, clique aqui.

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