Envelhecer… ou talvez não!

Por Hélia Neves
Prof. da Faculdade de Medicina de Lisboa – Portugal

Saber envelhecer bem é, possivelmente, um dos nossos maiores desejos! Trata-se de uma das grandes inquietações do homen desde os primórdios do tempo. Veja-se o mito grego de Eos e Tithonis. Eos, Aurora na mitologia Romana, pediu a Zeus a imortalidade do seu amante, Tithonus, o príncipe de Tróia. No entanto, ao esquecer-se de pedir também a sua eterna juventude, acabou por condenar Tithonus a envelhecer para todo o sempre… E hoje? Será que com os extraordinários progressos da ciência, podemos finalmente “roubar estes poderes divinos” e desafiar os limites da nossa juventude e mortalidade?

Cientistas descobriram que… a reprogramação celular por expressão transitória dos fatores Yamanaka “atrasa” o relógio do envelhecimento, prolongando a vida em murganhos (camundongo)com uma doença de envelhecimento precoce (Progeria) e melhorando a homestase (equilíbrio fisiológico) dos tecidos em animais idosos. Para percebermos melhor o que revela esse estudo, precisamos primeiro de compreender alguns conceitos.

O que é a reprogramação celular? E o que são os fatores Yamanaka?

A reprogramação celular é a modificação, ou edição, da informação genética da célula através de variadas técnicas de biologia molecular. Os fatores Yamanaka são um conjunto de quatro proteínas – Oct4, Sox2, Klf4 e c-Myc – que quando presentes/funcionais numa célula adulta transformam-na numa célula embrionária (indiferenciada) conhecida como uma célula estaminal (tronco) pluripotente induzida, ou célula iPS. Essa descoberta levou ao reconhecimento do seu autor, o Japonês Shinya Yamanaka, com o prémio Nobel de Medicina e Fisiologia em 2012.

O estudo que vos trago hoje foi desenvolvido pela equipe de Juan Carlos Belmonte do Salk Institute for Biological Studies, nos Estados Unidos, e foi publicado, em dezembro de 2016 na conceituada revista científica “Cell”. Nesse trabalho, os investigadores alteraram as células do corpo de murganhos (camundongos) com os fatores Yamanaka, mas utilizando uma nova abordagem. Os fatores só foram ativos/funcionais nas células por curtos períodos de tempo na vida do murganho, levando apenas a uma reprogramação parcial das células. E porque é tão importante este detalhe?

Os investigadores começaram por reprogramar parcialmente as células do corpo de murganhos com uma doença de envelhecimento prematuro, designada por Progeria. A Progeria, ou o síndrome de Huntchinson-Gilford, é uma doença genética rara que, no ser humano, se manifesta por volta dos 18 meses de idade. Essa doença é caracterizada por um rápido envelhecimento – cerca de 7 vezes superior à taxa normal – apresentando alterações várias em tecidos e órgãos, como no músculo esquelético ou na pele. As crianças portadoras dessa disfunção vivem, em média, até os 13/14 anos e geralmente morrem de enfarte do miocárdio.

Nesse estudo, os fatores Yamanaka foram ativados dois dias por semana, o que permitiu prolongar o tempo médio de vida dos murganhos com Progeria, de 18 para 24 semanas. Estes animais ainda assim morreram prematuramente, quando comparados aos saudáveis, cujo o tempo de vida é de aproximadamente 2 a 3 anos (Figura 1).

Figura 1: Painel esquerdo – esquema da experiência realizada em murganhos com Progeria que sofreram um tratamento de reprogramação parcial das células do organismo. Painel direito – curva de sobrevivência dos murganhos com Progeria, com o tratamento dos fatores Yamanaka (azul) e sem tratamento (vermelho). OCAMPO et al., 2016 / Cell.

Paralelamente, e usando a mesma técnica, os investigadores também reprogramaram parcialmente as células do organismo de murganhos adultos/idosos normais (com 1 ano de idade) (Figura 2). Depois de fazerem o tratamento 2 dias por semana, durante três semanas, os animais mostraram capacidades melhoradas de reparação muscular e de renovação das células produtoras de insulina do pâncreas. No entanto, nem todos os órgãos dos animais tratados mostraram melhorias, indicando que mais estudos são necessários para compreendermos estas diferenças.

Figura 2: Painel superior – esquema da experiência realizada em murganhos adultos com reprogramação parcial. Painel inferior – Secções transversais de músculo esquelético de animais com a mesma idade. Imagem da esquerda – tecido normal envelhecido (fraca capacidade de reparação). Imagem da direita – murganho tratado com reprogramação parcial usando os factores Yamanaka (aspecto mais jovem). OCAMPO et al., 2016 / Cell

Então porque foi tão importante nesse estudo a técnica de reprogramação parcial das células? Porque as células parcialmente reprogramadas mostraram melhorias funcionais e os murganhos tratados não desenvolveram tumores, ao contrário do que foi observado em outros contextos experimentais com o uso dos fatores Yamanaka. Segundo os autores, o importante é que as células adultas tratadas com os esses fatores não façam uma reprogramação total até ao estado embrionário pluripotente, perdendo a sua identidade/funcionalidade e potenciando as suas propriedades oncogénicas. As células devem sim, sofrer uma reprogramação parcial permitindo a reversão/retardamento do envelhecimento celular.

Embora seja necessário mais investigação para que possamos perceber todas as implicações funcionais deste tipo de “edição”/modificação da informação genética das células, esse estudo é, no entanto, um avanço promissor para a compreensão das doenças do envelhecimento.

Para acessar o artigo original, clique aqui.

Um comentário sobre “Envelhecer… ou talvez não!

  1. Parabéns pelo artigo. Sou um grande aficionado pelo envelhecimento. Mas acho que a nossa sociedade não está prepara para estender a esperança de vida. Antes de isso, existem alguns problemas que a sociedade tem de responder:

    – Se tentamos continuamente prolongar a esperança média de vida, temos, em sociedade, de conseguir responder aos problemas que surgem com o envelhecimento. Caminhamos para os 10.000M de habitantes em 2050, um problema grave de sobrepopulação. Acho que em vez de procurarmos o rejuvenescimento deveríamos focar a pesquisa na senilidade e na sua prevenção e numa resposta rápida para os problemas que levantam a sobrepopulação.

    No entanto, a reprogramação celular é um tema muito interessante e que nos deixa muito esperançosos para o futuro dos avanços na saúde.

    Obrigado Prof. Hélia!

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