Os vírus são capazes de conversarem entre si

Por Ricardo Castilho Garcez                                                                                                  
Dpto. de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC

Para que um vírus possa se multiplicar, ele precisa infectar uma célula. Após a infecção, o vírus passa a controlar a maquinaria de produção de proteínas da célula hospedeira, obrigando-a a produzir novos vírus. Esse processo acaba levando a célula hospedeira à morte, liberando vários vírus que irão infectar novas células. Note que existe um paradoxo nesse sistema, pois ao matar as células hospedeiras, o vírus tende a ficar sem ter como se multiplicar. Porém, recentemente cientistas israelenses descobriram que alguns vírus se comunicam entre si controlando a infecção. Essa comunicação permite que seja mantido um equilíbrio entre células infectadas que produzirão novos vírus, versus, células infectadas que não produzirão vírus e, portanto, não morrerão.

Em cada infecção viral, os vírus decidem entre replicarem-se, levando a célula hospedeira à morte – ciclo lítico, ou manterem-se dentro da célula, em um estado de dormência, até que algum gatilho altere isso – ciclo lisogênico. Notem que essa decisão entre ciclo lítico e lisogênico é de extrema importância para a sobrevivência do vírus. Uma escolha errada poderia rapidamente matar todas as possíveis células hospedeiras, deixando os novos vírus sem ter como se reproduzir. Isso levaria a população viral à extinção.

No início de 2017, um grupo de pesquisadores de Israel, liderados pelo Dr. Rotem Sorek, descobriu que um tipo de vírus, que infecta bactérias (chamados de phagos), estimula a produção de uma pequena proteína com apenas seis aminoácidos ao infectar essa bactéria (a albumina, proteína presente no ovo e no sangue, por exemplo, tem 610 aminoácidos). A proteína em questão foi nomeada como phi3T. É nesse ponto que essa história fica fantástica! No ciclo lítico, os vírus se multiplicarão e phi3T será produzido. Quando a célula romper liberando os vírus, será também liberada grande quantidade de phi3T. A concentração desse peptídeo (pequenas sequencias de aminoácidos) será percebida pelos vírus que infectarão novas células. Se o phi3T estiver em concentração alta, quer dizer que o número de células infectadas já é grande. Então os vírus que estão prestes a infectar novas células, já as infectam com a informação que deverão entrar no ciclo lisogênico. Essa comunicação entre os vírus evitará a morte massiva das células hospedeiras, garantindo a sobrevivência dessa população viral.

É importante ressaltar que esse sistema de comunicação viral foi descrito para vírus que infectam bactérias, os chamados phagos. Ele ainda não foi demonstrado para vírus que infectam organismos multicelulares, como o nosso. Mas como essa variação entre ciclo lítico e lisogênico existe em vírus como o HIV e o vírus da Herpes, a hipótese de que esses vírus também sejam capazes de se comunicarem é muito atraente. Se tal hipótese for verdadeira, substâncias capazes de interferir nesse sistema de comunicação seriam excelentes candidatos a medicamentos!

Note, caro leitor, que até mesmo os vírus, que sequer organismos unicelulares são considerados, utilizam-se de estratégias para que seus recursos naturais (células hospedeiras) não terminem. Isso quer dizer que nós, seres humanos, o exemplo máximo de evolução, estamos perdendo até para os vírus!

Para acessar o artigo original, clique aqui.

 

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