O primeiro passo de nossos ancestrais talvez tenha tenha sido um salto…

Por Giordano Wosgrau Calloni e Kay Saalfed                                                                                Prof. do Dpto. de Biologia Celular, Embriologia e Genética; Prof. do Dpto. de Ecologia e Zoologia – UFSC

Para ouvir o áudio do texto com um dos autores, clique aqui.

blogA vida no planeta Terra nunca mais foi a mesma desde que um grupo de seres vivos aquáticos resolveu sair das lagoas e mares e ganhar a terra firme. Esses seres vivos, representados por alguns peixes capazes de respirar fora da água, podem ser considerados nossos ancestrais mais remotos. É a eles a quem devemos a aquisição de nossas pernas. Pelo registro geológico, isso deve ter ocorrido há cerca de 350-400 milhões de anos. Esses peixes transformaram suas nadadeiras em “pernas” e formaram o chamado grupo dos tetrápodes (que inclui os anfíbios, répteis, aves e mamíferos). Sempre se acreditou que essa transição de nadadeiras para “pernas” foi lenta e gradual e, obviamente, esta concepção foi embasada em sólidas informações científicas, mas, sobretudo, filosóficas e históricas.

Um artigo recente publicado na revista Nature coloca em xeque esta concepção reforçando o debate de um dos mais acirrados dogmas dentro da Biologia: o mecanismo de seleção natural proposto por Charles Darwin e Alfred Wallace (1850 em diante).

Segundo Darwin, os seres vão adquirindo mudanças que os tornam mais adaptados a um determinado meio. Essas mudanças são gradativas e ocorrem ao longo de muitos milhares de anos, sendo a seleção natural neodarwinista o mecanismo pelo qual os seres vivos mais adaptados são selecionados, vencendo competitivamente outros seres vivos. Estes vencem a competição pela sobrevivência, pois adquiriram características evolutivas que lhes conferem vantagens em relação a outros seres menos adaptados.

O principal questionamento a essa teoria, proporcionado pelo artigo publicado na revista Nature pelos pesquisadores Emily Standen, Trina Du e Hans Larsson, é justamente a questão temporal.

Esses pesquisadores forçaram peixes africanos do gênero Polypterus a viverem por oito meses sobre a terra. Estes peixes vivem em água pouco oxigenada, necessitando buscar ar para respirar fora do ambiente aquático. O que aconteceu com essa mudança forçada do hábitat aquático para o terrestre durante apenas oito meses? Os peixes mudaram a tal ponto sua anatomia corpórea que eles passaram literalmente a usar suas nadadeiras (que ficaram afiladas) para caminhar sobre a terra. Ou seja, eles adaptaram-se fisiologicamente de maneira rápida ao ambiente terrícola. As mudanças anatômicas observadas incluíram alterações ósseas importantes como o crescimento das omoplatas e outros ossos da cintura escapular que se aproximaram e possibilitaram o desenvolvimento de algo parecido com um pescoço. Estas alterações na verdade recapitularam exatamente a mesma anatomia observada nos registros fósseis na transição dos peixes para os vertebrados terrícolas possuidores de quatro patas (tetrápodes). Essas alterações anatômicas refletiram-se nas alterações locomotoras desses peixes, os quais conseguiram levantar a cabeça com mais eficiência e, desta forma, projetar com mais força seus corpos para frente (ou seja, um movimento serpenteante mais próximo ao caminhar sobre pernas).

O artigo científico da Dra. Standen e seus colegas parece refletir o atual cenário de estudo da evolução nas Ciências Biológicas e talvez estejamos aqui presenciando os primeiros passos para uma revisão de conhecimentos científicos e hipóteses que acreditavam-se bem estabelecidos. Assim como os peixes ancestrais lançaram seus primeiros passos sobre a terra em busca de oxigênio é mais do que hora de sairmos de nossas ideias pré-concebidas a respeito dos mecanismos que permearam e permeiam o processo evolutivo em busca de novos ares e horizontes. Afinal, o processo científico é feito de um ir e vir constante de novos conhecimentos que jamais devem ser petrificados sob o custo de morrermos sufocados.

Acesse o artigo original clicando aqui.

Para saber mais a respeito dos peixes fósseis que deixaram o ambiente aquático em direção ao terrícola, clique aqui.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s