O efeito paralisante do estresse sobre as células de defesa

Por Marco Augusto StimamiglioInstituto Carlos Chagas – Fiocruz/PR

É provável que você já tenha ouvido falar, ou mesmo tenha lido em algum texto, que o estresse nos torna fracos e débeis para combater as doenças. Talvez você tenha até percebido que, após uma situação de grande estresse, sentiu seu corpo debilitado e teve um resfriado ou apareceram aquelas pequenas erupções de pele. Esta relação entre estresse e saúde é bastante conhecida e estudada na área médica. Muitos trabalhos científicos apontam uma relação causa-consequência que vincula o estresse (psicológico ou físico) à redução da imunidade. Entretanto, os mecanismos fisiológicos pelos quais esta relação acontece são pouco conhecidos.

Em um estudo conduzido nas universidades australianas de Melbourne e Monash, cientistas descobriram que, em condições de estresse, o neurotransmissor noradrenalina – que desempenha um papel fundamental na resposta ao estresse agudo ou reação de ‘luta ou fuga’ – prejudica as respostas imunológicas ao inibir os movimentos de várias células de defesa (os glóbulos brancos) em diferentes tecidos. Para fazer esta descoberta, os cientistas usaram técnicas avançadas de microscopia que permitem visualizar os tecidos vivos para examinar como as células de defesa de camundongos respondem à noradrenalina. Os cientistas então perceberam que, minutos após a injeção deste neurotransmissor, as células de defesa dos animais pararam de se mover. Por outro lado, a injeção de outros neurotransmissores, como a dopamina, não teve o mesmo efeito.

Como os glóbulos brancos viajam constantemente por todo o corpo e são capazes de se locomover para dentro e para fora dos tecidos, isso os permite localizar e erradicar patógenos e tumores. Portanto, para ver quanto tempo o efeito de paralização destas células duraria e se isso diminuiria a capacidade dos animais de lutar contra infecções, os cientistas inocularam o vírus do herpes na pele dos camundongos. Depois de dois dias, eles trataram os animais com uma molécula chamada Iso, que imita a ação da noradrenalina ao se ligar aos mesmos receptores, conhecidos como receptores adrenérgicos. Observando os nódulos linfáticos dos animais, com os avançados microscópios para rastrear os movimentos das células de defesa, os cientistas descobriram que a Iso interrompeu abruptamente o movimento das células por mais de duas horas e reduziu assim o recrutamento de células de defesa específicas contra o vírus para o local da infecção na pele. Efeitos semelhantes foram observados em camundongos com melanoma (câncer de pele) ou infectados com parasitas. Resultados adicionais ainda sugeriram que os efeitos da ativação do sistema nervoso central na motilidade das células de defesa podem ser mediados pela contração dos vasos sanguíneos, redução do fluxo de sangue e privação de oxigênio nos tecidos.

As descobertas deste trabalho foram publicadas em junho de 2021 na revista Immunity e sugerem que os neurotransmissores liberados pelos neurônios durante experiências estressantes fazem com que as células de defesa parem de funcionar em vez de patrulhar o corpo para identificar e combater invasores. Os resultados podem ter implicações importantes para a saúde de pacientes que usam drogas ativadoras do sistema nervoso central para tratar doenças como insuficiência cardíaca, sepse, asma e reações alérgicas. Entretanto, ainda não está claro se estas descobertas serão generalizadas para humanos com diferentes condições de saúde.

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