A nova geração de exames de sangue: a resposta para encontrar as primeiras células tumorais?

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Adaptado de Lui et al., 2020. Annals of Oncology

Em seu livro “The first cell” ou em tradução livre “A primeira célula”, ainda não publicado em português, a médica oncologista Azra Raza expõe de maneira clara o que para ela tem sido, há décadas, a maior limitação dos fundos de financiamento de pesquisa, passando pelos projetos de pesquisa básica e aplicada e chegando aos ensaios clínicos de novos medicamentos antitumorais: o foco na investigação e tratamento de doenças tumorais em fases avançadas. Esta observação é baseada não apenas na opinião pessoal da Dra. Azra, mas em dados sólidos que mostram que uma vez em fases tardias, ou seja, com presença de metástases em gânglios linfáticos e em órgãos distantes, os tumores são, de maneira geral, intratáveis e letais. Visto isso, ela propõe que, se de fato quisermos erradicar mortes por doenças tumorais, devemos aprender não sobre as células que adoecerão os pacientes tumorais até as suas mortes, mas sobre como identificar o aparecimento das primeiras células tumorais. Uma vez que tivermos tecnologias para isso, possivelmente seremos capazes de identificar tumores em suas fases iniciais e de agir na remoção segura e definitiva destas células de forma a garantir a cura de pacientes oncológicos. Continuar lendo

Nanopartículas inteligentes: como elas são capazes de carregar remédios e encontrar as células doentes do corpo humano para fazer a entrega?

Por Keli F. Seidel – Universidade Tecnológica Federal do Paraná – UTFPR

Muitos de vocês conhecem bem certos aplicativos onde é possível solicitar comida e esta é entregue na sua casa (delivery = entrega). Com o endereço correto, a comida chegará até você. Esta é a analogia ao assunto de nosso texto onde vamos falar sobre nanopartículas capazes de auxiliar no “drug delivery” (drug delivery = entrega de medicamentos). Das várias dúvidas que podemos ter sobre este assunto, talvez a mais intrigante é: como as nanopartículas sabem em qual célula (o “endereço”) deve entregar o medicamento? Continuar lendo

Abaixo à corrupção tumoral!!: O retorno

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Fonte: istock

Em sequência ao texto “Abaixo à corrupção tumoral!!”, publicado no CDQ em outubro de 2013, falaremos nessa ocasião sobre o recente artigo do grupo do Dr. Ingo Ringshausen, da Universidade de Cambridge, publicado em 15 de janeiro de 2020 na revista americana Science Translational Medicine. Neste trabalho, Cientistas Descobriram Que o uso de drogas dirigidas às células não tumorais podem resultar em respostas melhores e mais prolongadas contra tumores hematológicos. Continuar lendo

O impacto do câncer de boca na qualidade de vida dos pacientes

Por Filipe Modolo – Dpto. de Patologia, UFSC

Imagem original: fundacred.org.br

O câncer de boca é uma doença extremamente importante no contexto da saúde pública do Brasil, representando o quinto tipo de câncer mais frequente entre os homens e o 12º entre as mulheres1. Tal importância já foi anteriormente discutida neste Blog, no texto: Qual o seu lugar na “fila do câncer de boca”. O tratamento do câncer de boca é determinado pelo estádio clínico da doença e deve levar em conta a preservação das funções bucais, mastigação, ato de engolir e fala2. A remoção de todo o tumor e mais uma parte do tecido não doente na sua volta é o tratamento padrão e pode ser complementada por radioterapia ou quimioterapia. Continuar lendo

Os mecanismos do câncer sempre a surpreenderem-nos!

Por Rita Zilhão, Faculdade de Ciências de Lisboa, Portugal

Antes de iniciar o texto sobre a descoberta que os cientistas fizeram, eu gostaria, de um modo simples, fornecer três conceitos (para quem eles já forem claros pode passar de imediato ao texto): 1) Para que uma célula eucariótica* se divida e dê origem a duas novas células é necessário que ela passe por uma série de fases que, no seu conjunto, se designa de ciclo celular; 2) De forma a assegurar uma correcta divisão e que tudo corra bem para as novas células-filhas, o ciclo celular está sujeito a uma série de pontos de controle designados “checkpoints”; esses, ao longo das diferentes fases do ciclo celular, aferem as condições da célula e asseguram que a divisão celular ocorra unicamente em condições favoráveis; 3) O genoma corresponde ao conjunto de toda a informação genética que se encontra  inscrita na molécula de DNA que, por sua vez, está estruturalmente organizada em cromossomas que se localizam no núcleo de cada célula dos organismos. Continuar lendo

Acionando a destruição de tumores a partir da injeção de células moribundas 

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Como discutido no artigo do CDQ de 30 de outubro de 2013 (Abaixo à corrupção tumoral!), apesar das células cancerígenas serem as protagonistas nas lesões tumorais, a conivência de células não tumorais, como as do sistema imune, é chave para o aparecimento e progressão maligna de tumores. Apesar de já estudada durante alguns anos, a utilização de células imunes geneticamente modificadas para matar tumores, também conhecidas como células T com receptor de antígeno quimérico ou células T CAR, só foi aprovada para uso em pacientes em 2017 pelo FDA dos Estados Unidos (U.S. Food & Drug Administration). Essa aprovação, inicialmente aplicada em pacientes pediátricos com leucemia e adultos com linfomas, abriu uma encorajadora gama de possibilidades para a potencial erradicação de tumores de difícil tratamento, como os com espalhamento metastático. Utilizando como base um racional parecido, em um trabalho liderado pelo Dr. Andrew Oberst da Universidade de Washington, publicado na revista Science Immunology, em junho de 2019, Cientistas Descobriram Que a inoculação de células não tumorais em estado moribundo são capazes de induzir significante resposta imune antitumoral em animais Continuar lendo

Novas “velhas” descobertas sobre cromossomos e a agressividade de tumores de próstata

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Uma vez ou outra nos deparamos com conceitos científicos que apesar de serem tidos como estabelecidos, às vezes simplesmente por fazerem muito sentido frente a achados clássicos da literatura, nunca foram testados de maneira aprofundada e sistemática. Esse é o caso da associação entre mudanças no número de cromossomos com o desenvolvimento de células tumorais agressivas. Esta mudança numérica, conhecida também como aneuploidia, é uma velha conhecida das aulas de genética na escola, especialmente nos casos das síndromes de Down, Patau e Edwards, aonde se observa uma cópia extra dos cromossomos 21, 13 e 18, respectivamente.

A ideia é que, devido à sua grande propensão de acumular erros na cópia de genes, Continuar lendo