Tumores hibernam para sobreviver à quimioterapia

Apesar de termos à disposição uma razoável gama de drogas com efeito antitumoral, de maneira geral, um determinado tumor será sensível apenas a uma fração destas drogas. Além disso, mesmo quando um tumor é sensível a uma droga específica, comumente observa-se o desenvolvimento de resistência a curto ou médio prazo. Uma das explicações mais aceitas para este processo é a de que, mesmo quando a maioria das células em uma massa tumoral é sensível à uma determinada droga, comumente existirão populações de células tumorais resistentes à uma terapia em questão. Assim, ao final do tratamento com uma determinada droga, haveria espaço para uma população inicialmente minoritária se expandir e formar novas massas tumorais. Levando em conta esta teoria, em casos de retorno da massa tumoral, a estratégia mais adotada é a de buscar uma droga alternativa que possa ser eficiente contra estas células tumorais emergentes. Entretanto, não raramente, há casos aonde não é possível obter resposta antitumoral com drogas alternativas, seja por falta de efeito da droga e/ou por excessiva toxicidade da terapia em questão. Infelizmente, estes casos costumam resultar em baixa sobrevida dos pacientes.

Com isso em mente, de forma a melhorar a resposta e a sobrevida de pacientes oncológicos, fica clara a importância de buscarmos compreender com mais detalhes como tumores tornam-se resistentes às drogas. Outra questão crucial, sem uma resposta no campo da oncologia, é sobre como células cancerígenas se mantém inativas (ou dormentes) durante anos após um primeiro tratamento, voltando a formar lesões tumorais as vezes décadas depois do primeiro diagnóstico. 

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Uma doce batalha: como o consumo de açúcares define a resposta de tumores a imunoterapias

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Como fruto dos trabalhos de James Allison e Tasuku Honjo, premiados com o prêmio Nobel de Medicina em 2018, um número crescente de pacientes com câncer tem tido acesso a uma nova modalidade de tratamento antitumoral, chamada de imunoterapia. O princípio destas terapias é bloquear o que inibiria a ação antitumoral do sistema imunológico. Apesar de produzir resultados bombásticos em muitos doentes, estas terapias são ineficazes para um número considerável de doentes. Por este motivo, um dos tópicos mais investigados na área de imuno-oncologia é a base biológica para o funcionamento ou não de imunoterapias. A ideia é compreender porque alguns pacientes não respondem a imunoterapias para então ter a oportunidade de desenvolver estratégias para contornar esta resistência.

Fonte: BioRender.com

            Em um trabalho publicado na revista britânica Nature em 15 de fevereiro de 2021, liderado pelos Doutores Taha Merghoub, Jedd Wolchok e Roberta Zappasodi (todos do instituto estado-unidense Memorial Sloan Kettering), investigou-se como o açúcar, um recurso disputado tanto por tumores quanto por células do sistema imunológico, pode desempenhar um papel na resposta a imunoterapias. Os Cientistas descobriram que quanto maior o consumo de açúcar por células tumorais menor é a eficácia de imunoterapias. Como evidência disso, o trabalho descreve que o bloqueio do consumo de açúcar por células tumorais aumenta a quantidade de açúcar à disposição de células imunes e, consequentemente, também aumenta a resposta a imunoterapias. Em experimentos feitos com tumores de mama em camundongos, observou-se que o bloqueio do consumo de açúcar por tumores aumentou o efeito de imunoterapias, diminuiu a quantidade de metástases e, consequentemente, aumentou a sobrevida dos animais. Os investigadores estudaram ainda a captura de açúcar em pacientes oncológicos. Neste estudo, observou-se que quanto maior o consumo de açúcar por células tumorais, menor a quantidade de células imunes presentes nos tumores.

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Fechando a ferida que nunca cura: O papel de Myc na formação de tumores

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Fonte: BioRender

Avanços obtidos nas últimas décadas na compreensão sobre como tumores crescem e causam doenças já apresentam resultados visíveis no desenvolvimento de tratamentos novos e mais eficientes para pacientes com câncer. Apesar disso, o nosso conhecimento sobre como tumores surgem ainda é insuficiente, o que nos impede não apenas de prevenir, mas também de reverter em muitos casos a formação de cânceres malignos. Uma noção que permeia o pensamento de muitos oncologistas e oncobiologistas é a de que tumores se formam em decorrência de uma “irritação crônica”. O primeiro a propor esta hipótese foi o patologista alemão Rudolf Virchow (também conhecido como o pai da patologia celular) no ano de 1858, ao dizer que a formação de tumores se daria a partir de lesões térmicas, químicas e/ou mecânicas crônicas. Só depois de 128 anos, com base nesta primeira observação, é que o patologista americano Harold Dvorak propôs a ideia de que tumores são como feridas que nunca curam. Mais especificamente, diversos eventos que observamos na resolução de uma ferida, como o aumento de fluxo sanguíneo e de infiltração de células do sistema imune (que costuma resultar na vermelhidão que vemos em feridas recentes) estão também presentes em lesões tumorais. Enquanto em uma cicatrização estas mudanças desaparecem, em tumores estes processos persistem por anos e desempenham um papel essencial na biologia destas células malignas.

Um dos exemplos mais marcados do envolvimento de células não tumorais em cânceres é o de tumores de pâncreas, onde até 90% das células presentes em uma massa tumoral são não cancerígenas, incluindo vasos sanguíneos e células do sistema imune. Tendo em vista as diversas semelhanças entre tecidos lesionados em recuperação e massas tumorais, surge a pergunta, tida por alguns como o santo graal da oncobiologia: Por que e como tumores e lesões teciduais são tão parecidas? Tomando como base estudos iniciados por outros grupos na primeira metade da década de 80, em um trabalho liderado pelo Continuar lendo

A nova geração de exames de sangue: a resposta para encontrar as primeiras células tumorais?

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Adaptado de Lui et al., 2020. Annals of Oncology

Em seu livro “The first cell” ou em tradução livre “A primeira célula”, ainda não publicado em português, a médica oncologista Azra Raza expõe de maneira clara o que para ela tem sido, há décadas, a maior limitação dos fundos de financiamento de pesquisa, passando pelos projetos de pesquisa básica e aplicada e chegando aos ensaios clínicos de novos medicamentos antitumorais: o foco na investigação e tratamento de doenças tumorais em fases avançadas. Esta observação é baseada não apenas na opinião pessoal da Dra. Azra, mas em dados sólidos que mostram que uma vez em fases tardias, ou seja, com presença de metástases em gânglios linfáticos e em órgãos distantes, os tumores são, de maneira geral, intratáveis e letais. Visto isso, ela propõe que, se de fato quisermos erradicar mortes por doenças tumorais, devemos aprender não sobre as células que adoecerão os pacientes tumorais até as suas mortes, mas sobre como identificar o aparecimento das primeiras células tumorais. Uma vez que tivermos tecnologias para isso, possivelmente seremos capazes de identificar tumores em suas fases iniciais e de agir na remoção segura e definitiva destas células de forma a garantir a cura de pacientes oncológicos. Continuar lendo

Nanopartículas inteligentes: como elas são capazes de carregar remédios e encontrar as células doentes do corpo humano para fazer a entrega?

Por Keli F. Seidel – Universidade Tecnológica Federal do Paraná – UTFPR

Muitos de vocês conhecem bem certos aplicativos onde é possível solicitar comida e esta é entregue na sua casa (delivery = entrega). Com o endereço correto, a comida chegará até você. Esta é a analogia ao assunto de nosso texto onde vamos falar sobre nanopartículas capazes de auxiliar no “drug delivery” (drug delivery = entrega de medicamentos). Das várias dúvidas que podemos ter sobre este assunto, talvez a mais intrigante é: como as nanopartículas sabem em qual célula (o “endereço”) deve entregar o medicamento? Continuar lendo

Abaixo à corrupção tumoral!!: O retorno

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Fonte: istock

Em sequência ao texto “Abaixo à corrupção tumoral!!”, publicado no CDQ em outubro de 2013, falaremos nessa ocasião sobre o recente artigo do grupo do Dr. Ingo Ringshausen, da Universidade de Cambridge, publicado em 15 de janeiro de 2020 na revista americana Science Translational Medicine. Neste trabalho, Cientistas Descobriram Que o uso de drogas dirigidas às células não tumorais podem resultar em respostas melhores e mais prolongadas contra tumores hematológicos. Continuar lendo

O impacto do câncer de boca na qualidade de vida dos pacientes

Por Filipe Modolo – Dpto. de Patologia, UFSC

Imagem original: fundacred.org.br

O câncer de boca é uma doença extremamente importante no contexto da saúde pública do Brasil, representando o quinto tipo de câncer mais frequente entre os homens e o 12º entre as mulheres1. Tal importância já foi anteriormente discutida neste Blog, no texto: Qual o seu lugar na “fila do câncer de boca”. O tratamento do câncer de boca é determinado pelo estádio clínico da doença e deve levar em conta a preservação das funções bucais, mastigação, ato de engolir e fala2. A remoção de todo o tumor e mais uma parte do tecido não doente na sua volta é o tratamento padrão e pode ser complementada por radioterapia ou quimioterapia. Continuar lendo