Bactérias podem controlar o aparecimento de melanomas

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal 

Para os queridos leitores mais assíduos, que acompanham as matérias do blog cientistas descobriram que, o título desta nova matéria pode, com razão, parecer uma contradição ao que publicamos no final do último mês de outubro, quando falamos da descoberta de que bactérias podem consumir agentes antitumorais e contribuir para casos de resistência de tumores a tratamentos. De fato, tem se observado, em diversos campos das ciências biológicas e médicas, que as bactérias presentes no nosso corpo servem não apenas para nos deixar doentes como para ajudar as empresas de cosmético a venderem desodorantes. Além disso, tem se observado que ao interagir com as nossas células humanas, essas bactérias exercem papéis cruciais para a nossa saúde.

Apesar de diversas evidências do possível envolvimento de bactérias com o aparecimento de tumores, como, por exemplo, nos casos de cânceres de colón e reto, por Streptococcus bovis, Fusobacterium nucleatum e Prophyromonas gingivalis, de pulmão, por Chlamydia pneumoniae, e de estômago, por Helicobacter pylori, também tem se observado que bactérias podem estar associadas com uma menor incidência de doenças tumorais. Esse é o caso das bactérias intestinais do gênero Bifidobacterium, estudadas em um trabalho liderado pelo Dr. Thomas Gajewski da Universidade de Chicago, publicado em novembro de 2015 na revista Science. Nesse estudo, cientistas descobriram que essas bactérias são capazes de interagir com o sistema imune, ensinando-o a montar uma resposta contra células de melanomas. Ou seja, o que foi sugerido é que, em principio, a administração dessas bactérias em, por exemplo, iogurtes podem futuramente representar uma estratégia de prevenção e até potencialmente um tratamento de alguns tipos de tumores.

Na mesma direção desse achado, foi o estudo do grupo liderado pelo Dr. Richard Gallo da Universidade da Califórnia, publicado no final de fevereiro de 2018 também na revista Science. Nesse trabalho, cientistas descobriram que bactérias comumente presentes na pele humana, chamadas de Staphylococcus epidermidis, ou Staph epi para os mais íntimos, já conhecidas por ajudar a controlar o crescimento de algumas bactérias patogênicas em nossa pele, podem também prevenir ou reduzir o aparecimento de tumores de pele. Mais detalhadamente, esse time de investigadores descobriu que um composto produzido por uma cepa específica dessas bactérias, chamado de 6-N-hidroxiaminopurina, ou 6-HAP, que se assemelha à molécula de Adenosina presente no nosso DNA, foi capaz de bloquear a produção de DNA e, consequentemente, frear a multiplicação de células tumorais. Além disso, foi observado que o 6-HAP não só reduziu o crescimento de melanomas em mais de 60%, mas também reduziu drasticamente o aparecimento de lesões pré-tumorais na pele de animais expostos a altas doses de luz ultravioleta. Outro ponto importante foi a constatação de que esse composto aparentemente não apresentou efeito tóxico sobre células não tumorais, sugerindo que o 6-HAP possa apresentar graus aceitáveis de segurança em potenciais futuras aplicações em pacientes oncológicos.

Como toda boa descoberta que expande de maneira significante a barreira do nosso conhecimento, esse trabalho deixou algumas perguntas importantes no ar. Uma delas é o fato de não ter esclarecido o quanto a ausência de Staph epi na pele pode estar associada ao maior risco de desenvolvimento de melanomas. Outro ponto a ser melhor compreendido em futuros estudos é o fato de que apenas 20% da população de pessoas saudáveis apresenta cepas dessa bactéria que produzam 6-HAP. Desta forma, é ainda preciso entender o quanto a presença ou ausência natural dessas bactérias possa estar associado, respectivamente, à proteção ou ao risco de desenvolvimento de melanomas. Entretanto, o que o trabalho do grupo do Dr. Gallo sugere é que a investigação mais aprofundada da interação de bactérias com as células humanas do nosso corpo pode não apenas explicar como apresentamos maior ou menor chance de termos tumores, mas também levar à descoberta de novos mecanismos de interação bactérias-humanos que possam ser utilizados no tratamento de doenças tumorais.

Para saber mais, acesse os artigos originais:

Modulação dos telômeros para impedir a sua instabilidade: característica das células cancerígenas e em envelhecimento

Por Rita Zilhão, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Portugal

Figura 1 – Estrutura do telómero

As nossas células têm 23 pares de cromossomas e durante a divisão celular o DNA cromossómico terá que replicar de forma que uma cópia de cada cromossoma seja transmitida a cada uma das duas novas células-filhas que se formam. Acontece que, nos organismos eucariotas*, devido a particularidades do processo de replicação, as enzimas responsáveis por esse processo não conseguem duplicar a sequência de DNA até às extremidades dos cromossomas. Quais seriam as consequências disto? De cada vez que uma célula/DNA replicasse as extremidades dos cromossomas corriam o risco de ficarem encurtadas e, consequentemente, perder-se a informação genética aí contida.
Existe, contudo, um mecanismo que compensa esse problema: uma enzima, a telomerase, reconstitui as extremidades dos cromossomas lineares acrescentando-lhe sequências de DNA que se repetem sucessivas vezes (DNA repetitivo). Nos Continuar lendo

Uma caneta e 10 segundos podem ser suficientes para detectar células cancerígenas

Por Bruno José Gonçalves da Silva Prof. Dpto. de Química – UFPR

Figura 1: Dispositivo, semelhante a uma caneta, utilizado para detectar células cancerígenas. Fonte: Divulgação/Universidade do Texas

“Hoje é um belo dia para salvar vidas!”. Fãs de seriados com certeza reconhecem essa frase. Trata-se das palavras comumente ditas pelo personagem Derek Shepherd, da séria Grey’s Anatomy, antes de iniciar suas complicadíssimas neurocirurgias. Mas calma…, apesar deste texto apresentar o que parece ser um grande avanço para a medicina cirúrgica e preventiva, ele não irá tratar de seriados e não contém spoilers. Na verdade, trata-se do desenvolvimento de um dispositivo portátil para detectar, em apenas 10 segundos, células cancerígenas durante uma cirurgia! Tal dispositivo, que se assemelha muito a uma caneta (Figura 1), foi criado por cientistas da Universidade do Texas, Estados Unidos, sendo que a pesquisa foi conduzida por uma brasileira, a professora de química Livia Eberlin.

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Células-tronco, câncer e as células-tronco tumorais

Por Filipe Modolo – Dpto. de Patologia, UFSC

As células-tronco possuem a capacidade de diferenciar em diversos tipos de células de nosso organismo e isso faz delas objeto de grande interesse na ciência. Recentemente, diversas pesquisas mostraram os resultados positivos da utilização de células-tronco no tratamento de doenças, como hemofilia, osteogênese imperfeita, lesões de cartilagem ou na recuperação da medula óssea após quimioterapia/radioterapia, na recuperação do músculo cardíaco após infarto do miocárdio e no tratamento de lesões neurais após acidente vascular encefálico ou trauma. Além disso, diversos estudos clínicos envolvendo células-tronco estão em desenvolvimento e os resultados são bastante promissores. Continuar lendo

À pesca de um tratamento personalizado do câncer

Por Rita Zilhão, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Portugal

Apesar dos avanços na terapia dirigida ao câncer, principalmente do progresso da imunoterapia (baseada na administração de anticorpos), a quimioterapia continua a ser uma das armas de ataque no combate ao câncer, sobretudo num cenário em que já se detectou o aparecimento de metástases. Os protocolos de administração dos diferentes quimioterápicos estabelecem-se e são aprovados de acordo com a sua, previamente demonstrada, eficácia e segurança em situações de câncer idênticas. Ou seja, baseiam-se numa estatística de diferentes respostas de diferentes indivíduos, e não na resposta individual de um determinado doente com um câncer específico. Devido a numerosos fatores, entre os quais a heterogeneidade de células dos tumores malignos e a própria evolução do processo tumoral, observa-se em alguns casos, o tratamento protocolar acaba por se revelar ineficaz, com a agravante de expor os doentes a uma toxicidade desnecessária que só os enfraquece. Por este motivo, desde há muito que se tem procurado progredir numa terapia personalizada.

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Bactérias podem degradar drogas antitumorais e contribuir para o crescimento de tumores

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Apesar do massivo investimento no desenvolvimento de novas drogas antitumorais, que atualmente envolve uma cifra de mais de 100 bilhões de dólares anuais (valor que deve aumentar em pelo menos 50% até o ano de 2020), casos de resistência a drogas antitumorais ainda representam um grande desafio no tratamento de pacientes oncológicos. De forma geral, entende-se que o desenvolvimento dessa resistência ocorre, por exemplo, pela seleção de populações de células tumorais desprovidas do alvo terapêutico dessas drogas durante o tratamento. Outro processo de resistência que vem sendo observado envolve o desenvolvimento de mecanismos, pelas células tumorais, que permitem a degradação e/ou eliminação dos medicamentos antitumorais, possibilitando que os tumores não apenas sobrevivam, mas que também Continuar lendo

O segredo numa gota de sangue…

Por Hélia Neves – Faculdade de Medicina de Lisboa – Portugal

Todos nos questionamos qual rumo da Medicina e como esta evoluirá para nos tornarmos indivíduos cada vez mais saudáveis. Uma coisa é certa, desejamos que a Medicina do futuro melhore a capacidade de detectar precocemente as doenças com métodos não-invasivos, e idealmente, que consiga até prevenir/evitar o seu aparecimento. Muitos avanços foram feitos nesse sentido e parece que vamos no bom caminho…

“Os cientistas descobriram que…” é possível detectar precocemente algumas formas de cancro (câncer) utilizando apenas uma gota de sangue… Em agosto deste ano (2017) uma equipe de Investigadores, liderados por V. Velculescu do “Johns Hopkins Kimmel Cancer Center”, publicou na revista Science Translational Medicine (Figura 1), uma nova técnica de análise ao sangue que permite a detecção precoce de algumas formas de cancro (colo-rectal, mama, pulmão e ovário). Continuar lendo