Células-tronco podem servir como vacina contra o câncer

Por Marco Augusto Stimamiglio – Instituto Carlos Chagas – Fiocruz/PR

Baseando-se na reconhecida habilidade de proliferar rapidamente e gerar inúmeros clones de si mesmas, as células cancerosas têm sido comparadas às células-tronco pluripotentes. Essa e outras similaridades compartilhadas entre esses dois tipos celulares deram origem à atual hipótese das células-tronco tumorais, cuja proposta define que, dentre todas as células cancerosas, algumas atuem como células-tronco que se reproduzem e sustentam o câncer de forma semelhante às células-tronco que normalmente renovam e sustentam nossos órgãos e tecidos. Foi com essa ideia em mente que um grupo de cientistas de diferentes partes do mundo (Estados Unidos, Holanda, Alemanha e Coreia) ousou testar células-tronco pluripotentes induzidas (iPSCs; consulte nossos textos anteriores) como uma potencial vacina anticâncer. O artigo publicado em fevereiro de 2018, na renomada revista Cell Stem Cell, relata que injeções de iPSCs irradiadas protegem camundongos do desenvolvimento de câncer de mama, pulmão e pele, assim como previnem o reaparecimento de tumores removidos cirurgicamente. Continuar lendo

Bactérias podem controlar o aparecimento de melanomas

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal 

Para os queridos leitores mais assíduos, que acompanham as matérias do blog cientistas descobriram que, o título desta nova matéria pode, com razão, parecer uma contradição ao que publicamos no final do último mês de outubro, quando falamos da descoberta de que bactérias podem consumir agentes antitumorais e contribuir para casos de resistência de tumores a tratamentos. De fato, tem se observado, em diversos campos das ciências biológicas e médicas, que as bactérias presentes no nosso corpo servem não apenas para nos deixar doentes como para ajudar as empresas de cosmético a venderem desodorantes. Além disso, tem se observado que ao interagir com as nossas células humanas, essas bactérias exercem papéis cruciais para a nossa saúde. Continuar lendo

Modulação dos telômeros para impedir a sua instabilidade: característica das células cancerígenas e em envelhecimento

Por Rita Zilhão, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Portugal

Figura 1 – Estrutura do telómero

As nossas células têm 23 pares de cromossomas e durante a divisão celular o DNA cromossómico terá que replicar de forma que uma cópia de cada cromossoma seja transmitida a cada uma das duas novas células-filhas que se formam. Acontece que, nos organismos eucariotas*, devido a particularidades do processo de replicação, as enzimas responsáveis por esse processo não conseguem duplicar a sequência de DNA até às extremidades dos cromossomas. Quais seriam as consequências disto? De cada vez que uma célula/DNA replicasse as extremidades dos cromossomas corriam o risco de ficarem encurtadas e, consequentemente, perder-se a informação genética aí contida.
Existe, contudo, um mecanismo que compensa esse problema: uma enzima, a telomerase, reconstitui as extremidades dos cromossomas lineares acrescentando-lhe sequências de DNA que se repetem sucessivas vezes (DNA repetitivo). Nos Continuar lendo

Uma caneta e 10 segundos podem ser suficientes para detectar células cancerígenas

Por Bruno José Gonçalves da Silva Prof. Dpto. de Química – UFPR

Figura 1: Dispositivo, semelhante a uma caneta, utilizado para detectar células cancerígenas. Fonte: Divulgação/Universidade do Texas

“Hoje é um belo dia para salvar vidas!”. Fãs de seriados com certeza reconhecem essa frase. Trata-se das palavras comumente ditas pelo personagem Derek Shepherd, da séria Grey’s Anatomy, antes de iniciar suas complicadíssimas neurocirurgias. Mas calma…, apesar deste texto apresentar o que parece ser um grande avanço para a medicina cirúrgica e preventiva, ele não irá tratar de seriados e não contém spoilers. Na verdade, trata-se do desenvolvimento de um dispositivo portátil para detectar, em apenas 10 segundos, células cancerígenas durante uma cirurgia! Tal dispositivo, que se assemelha muito a uma caneta (Figura 1), foi criado por cientistas da Universidade do Texas, Estados Unidos, sendo que a pesquisa foi conduzida por uma brasileira, a professora de química Livia Eberlin.

Continuar lendo

Células-tronco, câncer e as células-tronco tumorais

Por Filipe Modolo – Dpto. de Patologia, UFSC

As células-tronco possuem a capacidade de diferenciar em diversos tipos de células de nosso organismo e isso faz delas objeto de grande interesse na ciência. Recentemente, diversas pesquisas mostraram os resultados positivos da utilização de células-tronco no tratamento de doenças, como hemofilia, osteogênese imperfeita, lesões de cartilagem ou na recuperação da medula óssea após quimioterapia/radioterapia, na recuperação do músculo cardíaco após infarto do miocárdio e no tratamento de lesões neurais após acidente vascular encefálico ou trauma. Além disso, diversos estudos clínicos envolvendo células-tronco estão em desenvolvimento e os resultados são bastante promissores. Continuar lendo

À pesca de um tratamento personalizado do câncer

Por Rita Zilhão, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Portugal

Apesar dos avanços na terapia dirigida ao câncer, principalmente do progresso da imunoterapia (baseada na administração de anticorpos), a quimioterapia continua a ser uma das armas de ataque no combate ao câncer, sobretudo num cenário em que já se detectou o aparecimento de metástases. Os protocolos de administração dos diferentes quimioterápicos estabelecem-se e são aprovados de acordo com a sua, previamente demonstrada, eficácia e segurança em situações de câncer idênticas. Ou seja, baseiam-se numa estatística de diferentes respostas de diferentes indivíduos, e não na resposta individual de um determinado doente com um câncer específico. Devido a numerosos fatores, entre os quais a heterogeneidade de células dos tumores malignos e a própria evolução do processo tumoral, observa-se em alguns casos, o tratamento protocolar acaba por se revelar ineficaz, com a agravante de expor os doentes a uma toxicidade desnecessária que só os enfraquece. Por este motivo, desde há muito que se tem procurado progredir numa terapia personalizada.

Continuar lendo

Bactérias podem degradar drogas antitumorais e contribuir para o crescimento de tumores

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Apesar do massivo investimento no desenvolvimento de novas drogas antitumorais, que atualmente envolve uma cifra de mais de 100 bilhões de dólares anuais (valor que deve aumentar em pelo menos 50% até o ano de 2020), casos de resistência a drogas antitumorais ainda representam um grande desafio no tratamento de pacientes oncológicos. De forma geral, entende-se que o desenvolvimento dessa resistência ocorre, por exemplo, pela seleção de populações de células tumorais desprovidas do alvo terapêutico dessas drogas durante o tratamento. Outro processo de resistência que vem sendo observado envolve o desenvolvimento de mecanismos, pelas células tumorais, que permitem a degradação e/ou eliminação dos medicamentos antitumorais, possibilitando que os tumores não apenas sobrevivam, mas que também Continuar lendo