Negacionistas, Cientistas e Pseudocientistas

Por Paulo César Simões-Lopes do Departamento de Ecologia e Zoologia da UFSC

O Negacionismo tem muitas faces, e a Ciência?…

Sempre existiram negacionistas. Tapar o sol com a peneira não é coisa nova. Após a epopeia de Fernão de Magalhães, com a primeira volta ao mundo em 1522, continuaram a existir “terraplanistas”, mesmo nos dias de hoje.

Negacionista é quem nega a realidade verificável, óbvia, imediata. O faz, talvez, como arma política ou desconforto religioso sobre uma parcela crédula da sociedade. Há o negacionismo do holocausto judeu, do genocídio indígena brasileiro, da escravidão contemporânea, racismo, epidemias de sarampo, COVID-19, aquecimento global, queimadas, teoria da evolução, extinções, vacinas, importância do uso de máscaras numa pandemia…

Negacionistas vestem suas ideias com roupagem científica para dourar a pílula. São mentores da teoria da conspiração e mestres em usar informações fora de contexto, fabricando notícias falsas. E, sabemos, a mentira permanente confunde (Hitler era fã dessa ideia).

É importante aqui separar inocentes e crédulos daqueles que se vestem com as roupas da ciência, mas não a praticam. São esses que muitas Continuar lendo

Mais uma “Falsa medida do homem (e das mulheres)”

Por Paulo César Simões-Lopes – Departamento de Ecologia e Zoologia da UFSC

Fonte: hrportugal.sapo.pt

Em seu livro “A Falsa Medida do Homem”, Stephen Jay Gould disseca alguns dos desvios mais sombrios da história da ciência e de como ela foi usada, tendenciosamente, para reproduzir e propagandear preconceitos. A ideia de embasar, cientificamente, preconceitos de racismo como os defendidos pelo médico Samuel George Morton (1799-1851) ou com relação aos criminosos ou às pessoas com problemas mentais ou às diferenças de gênero ou às questões de homossexualidade foi (e pelo jeito continua) uma prática nefasta.

Essas ideias foram usadas para a espoliação de povos colonizados ou para justificar a escravidão e levaram à programas de limpeza étnica e de esterilização em massa de pessoas consideradas “fora do padrão” ou “fora do normal” e isto não apenas na Alemanha nazista, mas também nos Estados Unidos, Turquia, África do Sul, Iugoslávia, União Soviética. Em essência, significava que existiam genes adequados e genes ruins − o que acabou chamado de eugenia −, mas isso se provou absurdo. Era uma subversão da ciência convertida em ideologia, prática que infelizmente não findou, pelo contrário, ela continua nos subterfúgios do machismo…

Fonte da imagem: Engajamundo

As mulheres têm sido escondidas, mantidas num eterno segundo plano, mesmo na ciência moderna, onde tiveram as suas maravilhosas descobertas da dupla hélice do DNA, do sistema de classificação de estrelas, da fissão nuclear, dos pulsars, creditadas a colegas do sexo masculino. Vejam o livro de Sergio Erill Sáez,La Ciencia Oculta”2, para saber o que “As Cientistas Descobriram (e o) Que … e como foram roubadas.

Mas então, em pleno século 21, na era da conectividade, em meio a campanhas de igualdade de gênero, brota (do nada?) um artigo na mais renomada revista científica do mundo e que deixa um QUÊ (em letras maiúsculas) de machismo desenfreado. Em Nature Communications3, neste recente 17 de novembro de 2020, os autores Bedoor AlShebli, Kinga Makovi e Talal Rahwan, de uma universidade em Abu Dhabi, afirmam que mulheres não deveriam ser mentoras (ou orientadoras) de outras mulheres na Academia, já que isso lhes conferiria desvantagens. Mais ainda, dizem que elas deveriam ser orientadas por homens: “Female scientists, in fact, may benefit from opposite-gender mentorships in terms of their publication potential and impact throughout their post-mentorship careers.”

Sem dúvida há aí uma simplificação extrema e que não leva em conta uma miríade de questões históricas, variáveis e medidas não utilizadas no estudo. Foram milhões de dados contabilizados na pesquisa e mais de uma centena de anos amostrados, porém nada muito diferente do que fez George Morton ao “provar”, por medidas do crânio, a “inteligência superior” dos caucasianos contra a dos africanos, tasmanianos, malaios, mongóis e índios americanos. É sabido que Morton adequou os dados aos seus propósitos (uso-os a maneira que lhe convinha).

O próprio Gould havia sublinhado em seu livro que “…os números sugerem, limitam e refutam, mas, por si sós, não especificam o conteúdo das teorias científicas. Estas são construídas sobre a base da interpretação desses números, e os que as interpretam são com frequência aprisionados pela própria retórica.”

Apenas três dias depois vem a réplica de Lindzi Wessel4 [não deixem de ler sua resposta à Nature, publicada na revista Science]: esse estudo nos deixa um “olho roxo”. O que fez o estudo foi encontrar [ou seria buscar] evidências de sexismo sistêmico e propor mais sexismo como solução. Agora a Nature se vê debaixo de uma enxurrada de pedidos de reparação por estar permitindo a replicação de ideias fora de moda e de propósito, ideias, aliás, constrangedoras. Dentre as manifestações de indignação compiladas por Wessel estão a completa inadequação dos índices utilizados pelo estudo, e o uso de termos mal definidos. Novamente o homem busca uma medida que lhe favoreça (que favoreça o gênero masculino), mais uma falsa medida do homem por ele proposta? Uma medida deles para enquadrar a elas?

O círculo vicioso continua a fechar-se, mesmo no alvorecer do século 21. Lembrando: subverter a ciência consiste em ideologia. Vejamos o que nos dizem a Nature e as sociedades científicas em resposta…

Referências utilizadas nesse texto

  1. A Falsa Medida do Homem.
  2. La Ciencia Oculta. Fundacion.
  3. The association between early career informal mentorship in academic collaborations and junior author performance.
  4. After scalding critiques of study on gender and mentorship, journal says it is reviewing the work

De volta para o futuro: transformar astrócitos em neurônios, que raios é isso?

Por Giordano W. Calloni – Dpto. de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC

O “clássico” painel do carro DeLorean do filme De volta para o futuro. A primeira data (em vermelho) é a data da viagem utilizada no filme, a segunda data (em verde) é a data de destino que marca o dia de publicação do primeiro artigo científico que relata a conversão de astrócitos em neurônios. A terceira data (em amarelo) é a data do último destino visitado: 7 de dezembro de 1998, dia em que Michael Jay Fox anuncia publicamente que sofre de Parkinson.

– São exatos 01 hora e 21 minutos da madrugada de um sábado chuvoso do ano de 1985, raios e relâmpagos iluminam o céu. Mais do que de repente as marcas de pneu invadem a pista e um carro prateado surge do nada.

– De dentro desse carro-espaçonave surge um rapaz agitado que grita ao velho de cabelos esbranquiçados:

– Doc! Acabo de voltar do dia 07 de dezembro de 1998 e me vi anunciando ao público que sofro de uma doença terrível. Ela é causada pela morte de certos neurônios no cérebro. Esses neurônios produzem um neurotransmissor chamado dopamina. Entre outras funções, eles são responsáveis por controlar os movimentos. Se não fizermos nada eu terei essa doença chamada de Doença de Parkinson! Eu me vi tremendo e com dificuldades de caminhar! Foi como um pesadelo!

– O velho sem pestanejar responde:

De volta para o futuro, Michael, digo Martin, coloque no DeLorean o ano 2020!

Martin surpreso intercede:

– Poxa Doc, você acha que em apenas 35 anos os cientistas já terão a cura para essa doença?

– Não sei Martin, mas eu sou um cientista e acredito na ciência e nos cientistas, vamos verificar!

Se chegassem de sua viagem no tempo no dia 30 de abril de 2020, data de publicação de um interessante artigo na revista científica Nature, Martin e o velho Cientista ficariam realmente entusiasmados. Nesse artigo, eles leriam que os Cientistas descobriram que é possível converter um tipo de célula abundante em nosso cérebro (chamada de astrócito) em neurônios produtores de dopamina. Exatamente leitor, aqueles neurônios que Michael (ops, Martin) tanto precisa ter de volta em seu cérebro!

Mas como os cientistas conseguiram isso? No Instituto de Neurociências da China, o grupo liderado pelo Dr. Zhou observou que a diminuição de Continuar lendo

A mutação gênica que predispõe os seres humanos à aterosclerose

Por Marco Augusto StimamiglioInstituto Carlos Chagas – Fiocruz/PR 

Estudos científicos que tratam da evolução da humanidade sugerem que a perda de genes foi decisiva na origem de nossa espécie. Estima-se que, entre 2 e 3 milhões de anos atrás, os humanos perderam a função de um gene com a sigla CMAH (proveniente do nome em inglês CMP-Neu5Ac Hydroxylase) . Esse gene permanece atualmente ativo em outros primatas não humanos. A mutação no gene CMAH aumentou a resistência dos nossos ancestrais para correr longas distâncias. Esta ‘vantagem adaptativa’ pode ter sido decisiva na conquista de novos territórios e na fuga de predadores, por exemplo. Naturalmente, é razoável considerar que não foi apenas essa mutação individual que nos trouxe tão atrativa adaptação, mas, possivelmente, também a perda de pelos ​​e a expansão das glândulas sudoríparas tenham ajudado a manter esses ‘maratonistas’ arejados. Seja como for, os cientistas ainda não sabem muito sobre as alterações celulares que nos proporcionaram maior resistência na corrida quando comparados aos macacos. Continuar lendo

Imagine – PanGea: competição de popularização científica intercontinental e multicultural

Por Ricardo Castilho Garcez
Dpto. de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC

PT-PANGEANessa semana nossa postagem é sobre o Imagine-Pangea, uma competição de divulgação científica, idealizada pelo Projeto Imagine, que vai envolver vários países da América Latina e África.

Para participar do Imagine-PanGea, mestrandos e doutorandos ,vinculados a Universidades da América Latina e África, deverão preparar um vídeo de 3 minutos apresentando o seu trabalho de pesquisa. O vídeo pode estar em português, inglês, francês ou espanhol e deve, obrigatoriamente, estar em linguagem simples, permitindo que qualquer pessoa interessada possa compreender. Continuar lendo

Nas 55 linhas de um embate entre Ciência e Política

Por Geison Souza Izídio                                                                                                                  Dpto. de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC

geison-imagemAno 55, século XX, faleceu Albert Einstein, um dos maiores cientistas que já viveu neste nosso pálido ponto azul, chamado de planeta Terra. Não seria preciso ressaltar aqui as enormes contribuições científicas deixadas por esta mente brilhante, ao longo dos seus anos de vida. Porém, nem todos sabem que pouco antes de falecer, Einstein foi signatário do “Manifesto Russell-Einstein” (1955), escrito por Bertrand Russell, filósofo premiado com o Nobel de literatura. Este texto alertava para os perigos da proliferação de armamentos nucleares e solicitava que os líderes mundiais Continuar lendo

Ciência e Política em tempos de intolerância

Por Vitor Klein                                                                                                                         Professor do Depto de Governança Pública da UDESC

vitor-imagemO que o estado islâmico, constantes crises econômicas e discursos xenofóbicos na política têm a ver com ciência? Para Stephen Toulmin tudo, pois foram esses os ingredientes que vieram a moldar nossa concepção moderna de ciência. Contrariando a noção comum de que com o Iluminismo as sociedades Europeias teriam substituído tradição e superstição por ciência e método, Toulmin faz uma incursão minuciosa na história das ideias Continuar lendo