Pondo os tumores para dormir: como a regulação do ciclo de sono celular pode ser utilizada em terapias anti tumorais

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal  

Apesar de ainda pouco investigado, já é sabido há algum tempo que, assim como nós (e quase todos os seres vivos), as células que nos compõem também apresentam períodos de maior e menor atividade metabólica durante as 24 horas de um dia. Esse processo é definido como ciclo circadiano. Sabe-se ainda que, diferentemente de células saudáveis, tumores muito frequentemente adotam um regime de “serão”, ficando constantemente com seu metabolismo ativado. Com isso, ao estarem ininterruptamente recolhendo e reciclando nutrientes e biomoléculas, tumores conseguiriam manter constante o ritmo de geração de novas células necessário para o crescimento de massas tumorais.

Tirando vantagem de descobertas anteriores, que decifraram a base molecular do ciclo circadiano, cientistas descobriram que ao “botar as células tumorais para dormir” é possível não apenas parar o crescimento de tumores, mas também induzir a morte dessas células. Nesse estudo, liderado pelo cientista Satchidananda Panda do Instituto Salk nos Estados Unidos e publicado na revista cientifica britânica Nature em janeiro de 2018, cientistas conseguiram com sucesso bloquear o crescimento de diversos tipos tumorais, incluindo leucemias, melanomas e tumores de mama, colón, reto e de cérebro. Para isso, eles utilizaram duas drogas experimentais originalmente desenvolvidas para o tratamento de doenças metabólicas, chamadas de SR9009 e SR9011. Essas drogas ativam duas proteínas importantes para a regulação do ciclo circadiano, denominadas VER-ERBα e VER-ERBβ.

Os resultados do estudo demonstraram que, ao ativar as proteínas VER-ERB, os processos celulares críticos para a sobrevivência de células tumorais são afetados, levando-as à morte. Outro achado importante desse trabalho foi que essas drogas não apenas foram capazes de atuar sobre tumores em crescimento ativo, mas também em tumores dormentes. Isso se torna especialmente importante considerando que células dormentes estão frequentemente associadas com o reaparecimento de doenças tumorais, as chamadas recidivas, assim como o desenvolvimento de quadros altamente letais como os de metástases. Além disso, outro aspecto importante para uma droga de sucesso, diz respeito à toxicidade causada em células não tumorais, uma vez que o objetivo de um bom tratamento é eliminar a doença e não o doente. Nesse ponto, os compostos testados pelo grupo do Dr. Panda também apresentaram resultados promissores, uma vez que não causaram níveis detectáveis de toxicidade em células não tumorais. Foi ainda observado que, ao serem injetados na circulação periférica de roedores, esses compostos foram capazes de entrar no cérebro desses animais. Este ultimo ponto é de grande importância, uma vez que diversos compostos anti tumorais são incapazes de entrar no sistema nervoso central, o que dificulta o tratamento não apenas de tumores cerebrais, mas também de tumores que formam metástases no cérebro, que são comumente letais.

Na sequência desse estudo promissor, o grupo ainda tem planos de investigar o quanto outras drogas que atuem sobre o metabolismo e ciclo circadiano possam ser também úteis para a eliminação de células tumorais, além de aprofundar o estudo de forma a testar a viabilidade dessas abordagens em cenários clínicos. Além disso, o grupo pretende ainda investigar potenciais efeitos desses tratamentos em bactérias da flora intestinal, que como já mencionamos em outros textos do CDQ (Bactérias x Drogas antitumorais; Bactérias x Melanomas), têm papel importante no desenvolvimento e progressão de doenças tumorais.

Para saber mais, acesse o artigo original aqui.

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