Uma pequena história sobre fungos, plantas fósseis e mudanças climáticas

Caros leitores, no final do ano passado abrimos uma votação pública para escolha do melhor texto de 2013 (para ver clique aqui). Com 16, 46% dos fotos, o texto do Prof. Dr. Elisandro ficou em primeiro lugar. Para comemorarmos, o Cientistas descobriram que convidou o Prof. Elisandro para falar um pouco mais sobre o que os fungos têm a nos ensinar.

Por Elisandro Ricardo Drechsler dos Santos

Os fungos foram os responsáveis pelo fim dos depósitos naturais de carvão. Para contar essa história, é importante explicar que há dois tipos de carvão, o vegetal e o mineral.Ricardo D FigO vegetal é produzido a partir da queima parcial (carbonização) da madeira e é com esse que preparamos o churrasco. Já o mineral, também de origem vegetal, é um carvão fóssil, formado a partir de restos de plantas que foram depositandos há mais de 300 milhões de anos, no período Carbonífero. Hoje em dia esses depósitos são encontrados, na forma de carvão mineral, em minas subterrâneas ou a céu aberto. O carvão mineral é um dos principais recursos energéticos utilizados desde a revolução industrial, sendo aproveitado até hoje, principalmente, como combustível em indústrias siderúrgicas e na geração de eletricidade em usinas termoelétricas. No Brasil, em função do grande potencial hídrico, pouco mais de e 7% da matriz energética é gerada em termoelétricas. Embora pareça pouco, esta energia é acionada de forma estratégica, principalmente nos períodos de grandes estiagens. Ainda, na região Sul são encontradas mais de 90% das reservas de carvão mineral do território nacional.

Mas, afinal, o que os fungos têm a ver com o carvão mineral? A madeira das plantas, tanto aquela que se fossilizou como esta de hoje em dia, é composta por moléculas de celulose e lignina. A celulose é um açúcar fácil de ser aproveitado como alimento pelos fungos. Já a lignina é “indigesta”, ou seja, além de ser difícil de decompor, protege a celulose dando resistênciaà madeira. Os únicos organismos capazes de realizar a difícil tarefa de decompor a lignina são, em sua maioria, os macrofungos conhecidos como orelhas de pau, alguns cogumelos e outros fungos microscópicos. Para isso, esses fungos que quebram a lignina deixando a celulose disponível (chamados lignocelulolíticos) utilizam enzimas especiais, as lignocelulases. Assim como precisamos quebrar a casca dura para comer uma noz, os fungos precisam decompor a lignina para aproveitar a celulose.

Porém, nem sempre foi assim, há milhares de anos os fungos não conseguiam decompor esta parte da madeira, ou seja, não produziam as enzimas capazes de degradar a lignina. Naquela época, os restos vegetais se depositavam no ambiente e, sem ter quem os degradassem, com o tempo se transformavam em carvão fóssil. É aqui que entra o time de pesquisadores coordenados pelo Dr. David Hibbett da Clark University, dos Estados Unidos da América. Utilizando sequenciamento de DNA de última geração e fósseis de fungos para ajudar na datação, eles conseguiram estimar a época em que alguns fungos começaram a produzir as lignocelulases. O mais interessante é que eles descobriram que este importante evento evolutivo (surgimento dessas enzimas) aconteceu justamente há 360 milhões de anos, período onde os depósitos de madeira passaram a diminuir e, aos poucos, deixaram de existir. Resumindo, a partir do período determinado pelos cientistas (era Paleozoica), os fungos passaram a digerir as plantas sem dar tempo para que se transformassem em carvão fóssil, assim os depósitos deixaram de ser formados. A descoberta de Hibbett e seus colaboradores foi publicada na famosa revista Science em 2012, mas certamente passará a fazer parte, para sempre, dos conteúdos obrigatórios dos livros de geologia e biologia de todo o mundo.

Afinal, embora os fungos tenham sido os responsáveis por tornar o carvão mineral um recurso natural não renovável, é a espécie humana que vem usando indiscriminadamente este recurso energético, o que inclusive está contribuindo rapidamente para a alteração do clima no nosso planeta. A queima das reservas de carvão mineral liberam gases na atmosfera que contribuem para o aquecimento global que, por sua vez, resultará na perda de ambientes naturais e extinção de várias espécies de animais, plantas e fungos, como já vem acontecendo.

Para ver o artigo original

7 comentários sobre “Uma pequena história sobre fungos, plantas fósseis e mudanças climáticas

  1. Qual é a referência para “não se formaram reservas de carvão” posteriores ao evento citado? Eu como paleobotânico fiquei bastante curioso pra saber de onde tiraram tal “conhecimento”,

    • Estimado Guilherme,
      Obrigado pela sua contribuição crítica ao texto e muito obrigado também por ser um leitor do “Cientistas descobriram que…” De fato, o artigo de referência utilizado trata da correlação entre o evento “enzimático” dos fungos e o declínio acentuado na taxa de deposição do carbono orgânico. Adicionalmente a isso, atualmente, os fungos são considerados o único grupo capaz de decomposição da lignina e são encontrados decompondo todo e qualquer tipo de substrato vegetal. Realmente, por não ser da área, não tenho conhecimento sobre uma literatura que aponte o fim dos depósitos, mas também não conheço alguma que informe o contínuo depósito do carvão fóssil.
      Quem sabe no futuro, como nosso convidado, possas escrever um post tratando do assunto.
      Att.
      E.Ricardo

  2. O texto fala em 360 milhões de anos. Utilizando a tabela do tempo geológico observamos que isso é o final do Devoniano, justamente o momento onde os principais grupos de planta (com exceção das angiospermas) surgiram, e madeira começou a ser de fato produzida. Então antes não havia a necessidade de uma enzima que atacasse lignina.

    Entretanto, os grandes depósitos de carvão mineral do hemisfério norte datam do carbonífero, período compreendido entre 359 milhões de anos e 299 milhões de anos, ou seja, já dentro do período citado no texto.

    Já os carvões do hemisfério sul (gondwana) datam do Permiano, entre 299 e 251 milhões de anos.

    Então sim, o dado é interessante e corroborado justamente pelo aparecimento da lignina como substrato. Entretanto, a produção das maiores reservas de carvão do planeta são posteriores a esse evento.

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