Bactérias da cavidade oral estão “de olho” nas restaurações de resina!

Por Michelle Tillmann Biz – Dpto. de Ciências Morfológicas / UFSC

Figura 1: Resina sendo inserida em uma cavidade (Fonte: http://www.fgm.ind.br)

É comum o pensamento que um dente restaurado estará mais fortalecido contra a cárie por ter sido usado um material sintético; ou que ao fazer um tratamento de canal, os dentes estarão livres de serem acometidos por novos episódios de dor/infecção, uma vez que o dente foi preenchido por um material, estando, portanto, “morto”. Entretanto, é preciso ter atenção: os materiais restauradores comumente utilizados na Odontologia fazem parte do “cardápio” destas bactérias também!

No âmbito da Odontologia, restauração é quando utilizamos um material sintético para repor o tecido duro do dente perdido (esmalte ou dentina) seja por cárie ou por trauma/fratura. Já o tratamento de canal é um tipo de tratamento odontológico muitas vezes necessário quando a polpa do dente é acometida de alguma patologia (inflamação/infecção) ou o dente submetido a um trauma severo. Nesse tipo de tratamento, a polpa do dente é removida e a cavidade que a continha (chamada de cavidade pulpar) será limpa, com o uso de limas endodônticas, e desinfetada, com o uso de medicações e líquidos irrigantes. Após esses procedimentos, o espaço será preenchido por um material sintético.

Em ambos os casos, a coroa do dente (parte visível na boca) deverá ser restaurada. O material mais utilizado para este fim são as resinas, (Figura 1), que requerem a aplicação de sistemas adesivos. Esses materiais são compostos basicamente por uma substância chamada dimetacrilatos. Aliado aos sistemas adesivos, a resina terá uma união firme com a superfície da dentina/esmalte, onde os minerais do dente são removidos (por condicionamento ácido prévio) e substituídos pela resina.

O que se imagina é que, pela forte adesão desse material com a superfície da dentina, a entrada de bactérias e desenvolvimento de novas infecções seja nula, ou pelo menos diminuída. Entretanto, Cientistas descobriram que o metacrilato das resinas e dos adesivos utilizados como material restaurador é propenso à decomposição ou modificação pela água (processo chamado de hidrólise), sendo a saliva e as enzimas bacterianas catalisadoras desse processo. Assim, teremos um aumento da degradação da interface resina-dentina/esmalte e a proliferação bacteriana. Mais recentemente, descobriu-se que as bactérias cariogênicas do tipo Streptococcus mutans hidrolisam o metacrilato das resinas, e, portanto, essas bactérias têm o potencial de degradar a interface restauração-dente e aumentar ainda mais a proliferação bacteriana do biofilme e falha de restauração.

Já no âmbito do interior da raiz do dente (o chamado canal radicular), existe uma bactéria que adentra através da coroa e tem sido associada a infecções persistentes. Essa bactéria, chamada Enterecoccus faecalis, tem a capacidade de invadir canais radiculares e aderir à dentina, sobreviver e crescer em condições adversas e causar infecções. Muitas vezes, em casos de lesões persistentes nos canais radiculares, é a E. Faecalis que está ali presente, resistindo ao tratamento e mantendo o foco de infecção. Um estudo publicado em 2018 demonstrou que a E. faecalis possui uma atividade enzimática em níveis que permitem a degradação do metacrilato das resinas compostas e adesivos utilizados comumente na Odontologia.

Sendo assim, cuidado: ao que parece, as bactérias “gostam” de consumir não só do açúcar contido nos alimentos, mas também do metacrilato das resinas compostas. Ou seja, tendo ou não tendo um dente com restauração ou tratamento de canal, mais uma vez a prevenção é a chave de uma boa saúde da boca. Manter uma boa escovação reduz o nível de bactérias presentes na cavidade oral, elimina resíduos de alimentos que ficam aderidos, e, consequentemente, reduz o acúmulo de placa bacteriana nas superfícies dos dentes o que mantém a saúde como um todo, evitando novas cáries, ou reinfecções em dentes já tratados.

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