O segredo numa gota de sangue…

Por Hélia Neves – Faculdade de Medicina de Lisboa – Portugal

Todos nos questionamos qual rumo da Medicina e como esta evoluirá para nos tornarmos indivíduos cada vez mais saudáveis. Uma coisa é certa, desejamos que a Medicina do futuro melhore a capacidade de detectar precocemente as doenças com métodos não-invasivos, e idealmente, que consiga até prevenir/evitar o seu aparecimento. Muitos avanços foram feitos nesse sentido e parece que vamos no bom caminho…

“Os cientistas descobriram que…” é possível detectar precocemente algumas formas de cancro (câncer) utilizando apenas uma gota de sangue… Em agosto deste ano (2017) uma equipe de Investigadores, liderados por V. Velculescu do “Johns Hopkins Kimmel Cancer Center”, publicou na revista Science Translational Medicine (Figura 1), uma nova técnica de análise ao sangue que permite a detecção precoce de algumas formas de cancro (colo-rectal, mama, pulmão e ovário).

Figura 1 – O artigo aqui comentado teve ilustração na capa da revista ”Science Translational Medicine” de 16 de Agosto de 2017. Esta ilustração mostra a libertação progressiva de DNA tumoral circulante no sangue dos doentes com cancro. A quantidade de DNA é muito pequena no início da doença e aumenta à medida que o tumor cresce. Como resultado, os tumores precoces, que sendo potencialmente mais fáceis de tratar, são, no entanto, mais difíceis ou impossíveis de detectar através da análise do DNA do tumor circulante. A equipe de investigadores liberada por V. Velculescu desenvolveu um método inovador que permite uma detecção mais sensível de menores quantidades de DNA circulante do tumor, com o objetivo de permitir, potencialmente, a detecção precoce de tumores em desenvolvimento.
[CRÉDITO: CAROLYN HRUBAN, JOHNS HOPKINS UNIVERSITY SCHOOL OF MEDICINE]

No passado recente, os cientistas descobriram que no sangue periférico (o sangue que circula pelas artérias, veias e capilares) do nosso corpo, existe em condições normais algum DNA livre (DNA é o nome vulgarizado do acido desoxirribonucleico).

É habitual associarmos a designação, DNA, ao DNA genômico, onde reside o nosso patrimônio genético e que se localiza no interior da célula, mais especificamente no seu núcleo. Mas neste caso estamos falando do DNA livre, que circula no sangue, não residente nas células e que apresenta dimensões infinitamente menores que o DNA genômico. No entanto, esse DNA livre, tal como o DNA genômico, contém um código próprio que permite identificá-lo. Mais importante, doentes com tumores apresentam no seu sangue periférico uma maior quantidade de DNA livre que se encontra ligeiramente modificado (DNA tumoral circulante, DNA-tc). Para melhor compreendermos vamos imaginar que cada DNA livre circulante é uma pequena bandeirinha e no caso dos doentes com cancro, o seu sangue possui uma maior quantidade de bandeirinhas que estão alteradas, isto é, que são diferentes das que se encontram nos indivíduos saudáveis. E foi essa descoberta que chamou a atenção dos investigadores, que viram nas bandeirinhas modificadas (DNA-tc) uma potencial forma de diagnóstico do cancro.

Como a quantidade de (DNA-tc) no sangue vai aumentando à medida que o cancro progride, até os resultados obtidos desses investigadores, o DNA-tc só era corretamente detectado nos doentes em estágios avançados do cancro.

Recentemente, a equipe da Universidade Johns Hopkins desenvolveu uma nova abordagem para detectar o DNA-tc em doses muito baixas. Para detectar o aparecimento de DNA-tc (isto é, bandeirinhas modificadas), eles desenvolveram um novo método chamado sequenciação dirigida à correção de erro (“targeted error correction sequencing”,TEC-Seq). Segundo os autores, “era necessário desenvolver um teste de triagem que fosse altamente específico para o cancro, preciso o suficiente para detectar o cancro quando presente, e ao mesmo tempo capaz de reduzir o risco de resultados “falso-positivos” que, muitas vezes, levam desnecessariamente, a mais testes e a mais tratamentos”.

Essa técnica permitiu aos investigadores identificar o DNA-tc em indivíduos que estavam em diferentes estágios da doença, considerando quatro tipos diferentes de cancro: colo-retal, mama, pulmão e ovário. A equipe do Prof. Velculescu detectou os DNA-tc em 62% dos doentes com cancro em estágio I e II (em 86 dos 138 doentes). A título de exemplo, entre as 42 pessoas com cancro colo-retal, o teste previu corretamente o cancro em: 50% dos doentes em estádio I (4 em 8 doentes), 89 % dos doentes em estádio II (8 em 9 doentes), 90 % dos doentes em estádio III (9 em 10 doentes) e 93 % dos doentes em estádio IV (14 em 15 doentes). Por fim, nenhum DNA-tc foi detectado nas amostras de sangue de indivíduos saudáveis (44 pessoas).

Embora esta técnica seja atualmente muito dispendiosa, poderá tornar-se uma alternativa viável de triagem do cancro, se o futuro trouxer, como é frequente, a redução dos custos da técnica pela popularização da sua utilização. A detecção precoce e com precisão de diagnóstico é um dos instrumentos mais importantes no combate ao cancro, útil tanto para a sua prevenção como para a realização de um tratamento mais eficaz.

Para saber mais acesse o artigo original:

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