Terá o rato-toupeira sem pelo a chave para cura do cancro (câncer)?

Por Hélia Neves                                                                                                                                        Prof. da Faculdade de Medicina de Lisboa – Portugal

Para ouvir o áudio do texto com o autor, clique aqui.

O rato-toupeira sem pelo vive no subsolo nos desertos do leste da África e é considerado uma das maravilhas do mundo natural, com grande potencial para contribuir com a medicina humana. Proporcionalmente, se o homem vivesse o mesmo tempo que o rato toupeira sem pelo, viveria até os 600anos...

De pele enrugada e quase cego, o rato-toupeira sem pelo vive no subsolo nos desertos do leste da África. Esta espécie é considerado hoje uma das maravilhas do mundo natural, potencialmente útil à medicina humana pelas características extraordinárias que apresenta. Se a relação de tempo de vida/tamanho da nossa espécie fosse correlacionável à da do rato-toupeira sem pelo… Nós viveríamos até aos 600 anos… e sem cancro! Fonte: Frans Lanting/Corbis

“Quem vê caras… não vê corações” já diz o velho ditado Português, que é como quem diz… não confies nas aparências! E assim acontece com o rato-toupeira sem pêlo! O rato-toupeira sem pêlo pode ser um dos animais mais feios do planeta, mas é nele que actualmente se depositam algumas das esperanças para novos caminhos na prevenção/tratamento do cancro. Estes excepcionais animais vivem até 30 anos, com uma longevidade 10xsuperior à doutros roedores de iguais dimensões, e sem desenvolverem tumores. Estes animais também são resistentes à dor e à exposição de agentes químicos tóxicos (como elevadas concentrações de ácido), propriedades explicadas em parte, por estes roedores viverem de baixo da terra com baixos níveis de oxigênio e altas concentrações de amônia e dióxido de carbono.

Cientistas descobriram que… no rato-toupeira sem pêlo existe uma proteína híbrida codificada por genes onco-supressores do locus (local físico no genoma que codifica para uma determinada função) INK4, que contribui para a notável resistência desta espécie ao cancro.

Os genes onco-supressores, ou supressores de tumores, são genes que codificam para proteínas que impedem a divisão de células alteradas prevenindo o desenvolvimento do cancro. Infelizmente, muitos dos tumores desenvolvem-se porque estes genes são silenciados ou mutados (como os do locus INK4), perdendo as suas propriedades de vigilância celular. Para agravar este cenário, existe outra classe de genes, os proto-oncogenes que quando mutados, ganham novas funções (oncogênicas) contribuindo também para a formação de tumores. Para melhor compreendermos estas duas classes de proteínas vamos imaginar que elas são como as duas personagens principais das histórias aos quadradinhos criadas por Albert Uderzo e René Goscinny em 1959, o Asterix e o Obelix. As proteínas supressoras de tumores são como o pequeno gaulês Asterix, que vence os romanos após tomar a sua poção mágica. A “poção mágica”, por sua vez, é aqui as propriedades especiais das proteínas onco-supressoras que impedem a multiplicação das células alteradas (os romanos). Mas assim como o Asterix, sem a sua poção mágica, não consegue vencer os romanos, as nossas proteínas onco-supressoras quando silenciadas ou mutadas, também perdem as suas propriedades deixando de ser aliadas no combate ao cancro.

Por outro lado, o Óbelix representa as proteínas oncogênicas das células com alterações. Tal como o Obelix que em criança caiu num caldeirão de poção mágica ganhando novos super-poderes, também os genes proto-oncogênicos quando mutados codificam para proteínas com “novas” propriedades oncogênicas que estimulam o desenvolvimento de tumores. No entanto, é importante realçar que na nossa analogia, a poção mágica do Óbelix não é igual à do Asterix, e que por isso, o Óbelix não usa os seus super-poderes para combater os romanos (eliminar as células alteradas), mas sim para se juntar a eles… A “poção mágica” que mudou o Óbelix pode ser as radiações UV, agentes químicos ou infecções virais que promovem alterações genéticas nas células.

Voltando agora ao locus INK4, a equipa de investigação liderada por Vera Gorbunova e Andrei Seluanov (da Universidade de Rochester em Nova York), no seu mais recente estudo, publicado na revista, verificou que este locus é diferente no rato-toupeira sem pêlo. No homem e no murganho, o locus INK4 é composto por dois genes, o CDKN2A e o CDKN2B, que codificam três proteínas onco-supressoras, p15INK4b, p16INK4a e ARF. No entanto, estes investigadores encontraram uma quarta proteína no rato-toupeira sem pêlo, resultante da fusão das p15INK4b e p16INK4a, designada por pALTINK4a/b. Após vários testes celulares, os investigadores concluíram que esta proteína híbrida é capaz de impedir a divisão de células alteradas, prevenindo o desenvolvimento de tumores. Uma vez que outros mamíferos (como o homem e o murganho) possuem apenas três proteínas codificadas por este locus (INK4), os investigadores pensam que a presença da quarta proteína (pALTINK4a/b) nos ratos-toupeira aumenta a probabilidade de parar o crescimento celular anormal, conferindo vantagem quando existe o risco de desenvolver malignidade.

Por fim, esta equipa mostrou que a proteína híbrida também tem o potencial para prevenir o crescimento celular descontrolado em células humanas. Os cientistas esperam de futuro usar esta proteína para a criação de novos tipos de medicamentos capazes de controlar o desenvolvimento de tumores em doentes oncológicos.

Pode consultar o resumo deste trabalho, clique aqui

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