Jogando dados: seria o azar o principal responsável pelo câncer?

Por Tiago Góss dos Santos                                                                                                 Pesquisador do CIPE, Hospital AC Camargo;

Tumor dadoNo primeiro dia do ano de 2015, a revista Science publicou um artigo que causou (e ainda está causando) muitas polêmicas. Os autores do estudo são dois conceituados cientistas na área do câncer, Bert Vogelstein e Cristian Tomasetti, do hospital Johns Hopkins em Baltimore, Estados Unidos. O artigo lança uma possível explicação sobre porque alguns órgãos tem maior probabilidade de serem acometidos por um câncer do que outros. A culpa, nesse caso, estaria nas células-tronco normais do nosso corpo.

Já é bem aceito na ciência que a presença de células-tronco é essencial para a manutenção de um órgão e é bem discutido entre os cientistas se essas mesmas células-tronco também não estariam por trás da origem de tumores, uma vez que elas têm a capacidade de se diferenciar nas células específicas de cada órgão. Nesse trabalho, os autores recuperaram dados de trabalhos já publicados sobre o número e capacidade de divisão (mitoses) de células-tronco de diferentes órgãos e comparam com as taxas de risco de tumores para os mesmos órgãos. Esses dados foram comparados de maneira que se pudesse visualizar em um gráfico e estimar o risco de um órgão ser acometido por um tumor juntamente como o seu número total de mitoses de células-tronco, este tipo de comparação entre duas variáveis (risco e número de mitoses) é chamada de correlação, a qual é representada por um coeficiente que indica o quão relacionadas estão as duas variáveis, indicando quanto a mudança de uma variável (risco) pode influenciar no comportamento da outra (número de mitoses). Utilizando este raciocínio, os autores demonstraram que, sim, um órgão com muitas células-tronco (em processo contínuo de divisão celular) é um órgão com maior risco de originar um tumor e que a geração deste tumor dependeria do acúmulo de mutações nas células-tronco que, em um determinado momento, as transformariam em células cancerosas. Ou seja, o número de células-tronco em divisão confeririam um valor de risco adicional. Os cálculos dos autores levaram a divisão dos tumores em dois tipos: os ‘R’ (de replicativos) e os ‘D’ (de determinísticos). Os do grupo D seriam os tumores com elevado risco e poderiam estar relacionados com causas ambientais ou hereditárias, e para estes grupos seriam essenciais a existência de políticas de prevenção primárias (vacinação ou mudança de estilos de vida). Os do grupo R seriam os tumores com baixo risco (aqueles com menor participação de células-tronco) e teriam se originado de maneira aleatória. Para esta classe de tumores, os autores sugerem que políticas de prevenção seriam ineficientes, pois a exposição a agentes de risco não seriam importantes. Neste caso, o ideal seria melhorar as condições que privilegiassem o diagnóstico precoce nestes pacientes.

Evidentemente que, após a publicação do trabalho, começaram a surgir as críticas, situação normal na ciência e que é essencial para o seu avanço. As principais referem-se à maneira utilizada pelos autores para calcular o número de divisões de células-tronco durante a vida de um ser humano. Primeiramente, os autores partiram de dados publicados por outros pesquisadores que, em alguns casos citados, podem ser bastante especulativos, ou seja, baseadas em observações não totalmente controladas, com muitos vieses. Sabe-se, por exemplo, que a frequência de divisões celulares pode variar de maneira considerável entre indivíduos e podem ser sim afetada por fatores ambientais. Talvez por isso os autores preferiram desconsiderar os tumores de mama e próstata (que, por sinal, são tumores muito frequentes), tecidos nos quais a frequência de divisões celulares de células-tronco são ainda mais misteriosas. Outra crítica importante foi que os autores se basearam em estatísticas estadunidenses que, por sua vez, podem diferir de outros países. Essa generalização leva a um problema sério na interpretação, pois assume que as taxas de incidência de câncer nos Estados Unidos representam as taxas mundiais, o que não é verdade, longe disso, por sinal. Por exemplo, a incidência de câncer de esôfago é quase 30 vezes mais alta na China quando comparado com os Estados Unidos. Levando esse fato em consideração, se este estudo tivesse sido feito em outra população, o resultado poderia totalmente diferente.

Outro problema é que ao atribuir para certos tipos de câncer (tipo R) o efeito do azar, os autores de maneira talvez até involuntária, cometeram um ato pouco sábio de questionar as políticas de prevenção como as que estimulam as pessoas a mudar seus hábitos de vida como consumo de álcool, tabaco, de dietas ricas em gorduras e açúcares e também de exposição à radiação solar (raios UVB). Muitos dos tipos de câncer classificados como tipo R pelos autores tem sido estudados e os efeitos destes agentes cancerígenos são bem caracterizados, o que também invalida parte das conclusões dos autores.

A repercussão do trabalho foi muito grande, os autores tiveram grande mérito de estimular a discussão em torno da origem de tumores incluindo um novo jogador no time. Entretanto, para que conceitos propostos sejam consolidados, muita discussão deverá ser feita, inúmeros experimentos e observações clínicas deverão ser realizados e devidamente documentados em artigos científicos. No fim, saberemos o que é, de fato, sorte ou azar.

Veja aqui o artigo original

Nos links abaixo encontram-se os questionamentos do estudo.

http://www.sciencemag.org/content/347/6223/727.1.short

http://www.sciencemag.org/content/347/6223/727.2.short

http://www.sciencemag.org/content/347/6223/728.1.short

http://www.sciencemag.org/content/347/6223/728.2.short

http://www.sciencemag.org/content/347/6223/728.3.short

http://www.sciencemag.org/content/347/6223/729.1.short

https://pubpeer.com/publications/25554788

A réplica dos autores

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