O impacto do câncer de boca na qualidade de vida dos pacientes

Por Filipe Modolo – Dpto. de Patologia, UFSC

Imagem original: fundacred.org.br

O câncer de boca é uma doença extremamente importante no contexto da saúde pública do Brasil, representando o quinto tipo de câncer mais frequente entre os homens e o 12º entre as mulheres1. Tal importância já foi anteriormente discutida neste Blog, no texto: Qual o seu lugar na “fila do câncer de boca”. O tratamento do câncer de boca é determinado pelo estádio clínico da doença e deve levar em conta a preservação das funções bucais, mastigação, ato de engolir e fala2. A remoção de todo o tumor e mais uma parte do tecido não doente na sua volta é o tratamento padrão e pode ser complementada por radioterapia ou quimioterapia.

Cientistas descobriram que… o tratamento do câncer de boca tem impactos negativos extremamente importantes e profundos na qualidade de vida dos pacientes. Segundo a equipe de pesquisa do
“Carolinas Medical Center”3, localizado no estado da Carolina do Norte (EUA), é possível verificar diversos problemas comuns à maioria dos pacientes que passaram pelo tratamento do câncer de boca, principalmente problemas físicos, psicossociais e financeiros.

Dentre os efeitos físicos, destacam-se os danos estéticos (deformidades faciais após a cirurgia), problemas de fala, alterações na voz e no ato de engolir, além de dor crônica, que são alterações bastante importantes em nossa qualidade de vida.

Tais problemas físicos podem levar a problemas emocionais. Tanto antes quanto depois do tratamento, o paciente portador de câncer enfrenta medos progressivos como medo do desconhecido, medo de morrer, medo da solidão, medo de perder o controle e medo de perder a identidade (principalmente pela deformidade facial). Tais sentimentos conflituosos podem levar ao isolamento social (“morte social”) e distúrbios psicológicos (depressão, raiva, impotência, ansiedade, síndrome do pânico entre outros).

Participam ativamente desse quadro emocional os familiares, que também enfrentam sentimentos de medo de perder o ente amado, tristeza e ansiedade e grandes dificuldades de se ajustar à nova realidade. Familiares podem desenvolver comportamentos reativos como lamentação crônica, superdependência, imprudência, comportamentos perigosos e até doenças físicas.

Outro aspecto importante é o impacto financeiro, pois os tratamentos e os medicamentos são caros, o que deve gerar um custo elevado a ser pago, normalmente, pelos serviços públicos de saúde. De acordo com a Agência de Pesquisa e Qualidade da Saúde dos EUA, os custos médicos diretos com o câncer (não apenas câncer de boca) nos EUA em 2011 foram de 88,7 bilhões de dólares, e esse número aumentará, pois a incidência global do câncer deve triplicar até 20304; 5. No Brasil, os custos dos tratamentos quimioterápicos realizados pelo SUS quadruplicaram nos últimos anos6.

Além disso, o câncer gera custos indiretos difíceis de calcular, pois o paciente irá faltar ao trabalho, diminuirá a sua produtividade ou aposentar-se-á de forma precoce e, consequentemente, diminuirá a sua contribuição para a economia em geral.

Felizmente, na maioria dos casos, é possível prevenir o câncer de boca. Voltando a me referir ao texto: Qual o seu lugar na “fila do câncer de boca”: “Consultas frequentes com um bom Cirurgião Dentista (pelo menos uma a cada seis meses) … ajuda na prevenção do câncer, pois o Dentista sempre analisará toda a sua boca (não só os dentes) …”. “Além disso, se você fuma e/ou bebe, é importante consultar um Cirurgião Dentista o mais rápido possível e buscar ajuda para parar de fumar e/ou beber menos, ou até parar...”. Está em nossas mãos!

Para saber mais, seguem abaixo artigos utilizados na elaboração desse texto: 

  1. Estimativa 2018: incidência de câncer no Brasil.
  2. Current status of oral cancer treatment strategies: surgical treatments for oral squamous cell carcinoma.
  3. Impact of Oral Cancer on Quality of Life.
  4. World Cancer Report 2008.
  5. Cancer Facts & Figures 2015.
  6. BRASIL, M. D. S. Custos do SUS aumentaram mais de 400% nos últimos anos. Rio de Janeiro, 2007.

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