Qual o seu lugar na “fila do câncer de boca”?

Dr. Filipe Modolo – Dpto. de Patologia, UFSC

Por por meio de um simples exame de raspagem da mucosa (semelhante aos exames de rotina da ginecologia) é possível determinar o risco de câncer de boca nos pacientes portadores de doenças cancerizáveis. Em outras palavras, organizar uma “fila do câncer de boca”

Fonte: blog Bon voyage Harlye

O câncer de boca é uma doença muito relevante no nosso país, principalmente na Região Sul, onde é o sexto câncer mais frequente em homens e o décimo quinto em mulheres[1]. Já foi amplamente divulgado que o fumo, principalmente quando associado ao consumo de álcool, é o principal causador do câncer de boca. Essa notícia está nos meios de comunicação de massa (televisão, rádio, revistas) e até nos maços de cigarros…

No entanto, um fato não divulgado é que, antes do câncer de boca, normalmente acontecem as chamadas doenças cancerizáveis, sendo a leucoplasia e a eritroplasia as principais. Segundo estudos, essas doenças aumentam em 20% a chance de ter câncer de boca em comparação com um paciente que não apresente essas doenças… A detecção das doenças cancerizáveis normalmente alerta para esse perigo e coloca o paciente em constante acompanhamento nos serviços de saúde. Até o início deste ano, não se sabia de forma segura como medir o risco real de desenvolvimento do câncer entre os pacientes que têm alguma doença cancerizável na boca, ou seja, não se sabia qual o lugar desse paciente na “fila do câncer de boca”.

Cientistas descobriram que… por meio de um simples exame de raspagem da mucosa (semelhante aos exames de rotina da ginecologia) é possível determinar o risco de câncer de boca nos pacientes portadores de doenças cancerizáveis. Em outras palavras, organizar uma “fila do câncer de boca”. É importante ressaltar que somente entram nessa fila os pacientes que apresentam maior risco de ter câncer, ou seja, os pacientes que apresentam uma doença cancerizável e fumam/bebem.

Pesquisadores da “Capital Medical University” da China, associados a pesquisadores da “North Carolina Central University” e “The Ohio State University”, ambas nos EUA, por meio de modelos matemáticos avançados. Criaram o índice OCRI2 (em português: índice de risco para o câncer 2), que é baseado em dados clínicos como a idade e gênero do paciente, o local da lesão (língua, gengiva ou outro) e uso de fumo e álcool, e em dados celulares, como a investigação do DNA das células coletadas no exame de raspagem da lesão cancerizável [2, 3].

As vantagens dessa técnica são várias, incluindo procedimentos clínicos simples e não invasivos, de baixo custo e boa aceitação pelo paciente, já que o exame de raspagem não é uma cirurgia. Além disso, segundo os autores, o OCRI2 é o índice mais confiável para prever a ocorrência do câncer de boca em paciente com doenças cancerizáveis.

No entanto, apesar da simplicidade dos procedimentos clínicos, como o OCRI2 envolve modelos matemáticos avançados, deve haver uma estrutura mínima para que esse exame se torne rotina nos serviços de diagnóstico. Infelizmente, devido aos problemas crônicos enfrentados nos serviços públicos de saúde do Brasil, a incorporação desse tipo de análise ainda é uma realidade distante.

A boa notícia é que, apesar de não termos previsão de uso do OCRI2 no Brasil, é possível prevenir o câncer de boca. Consultas frequentes com um bom cirurgião Dentista (pelo menos uma a cada 6 meses), além de prevenir as outras doenças da boca, como cárie e gengivite, também ajuda na prevenção do câncer, pois o dentista sempre analisará toda a sua boca (não só os dentes) e, ao menor sinal de uma doença cancerizável, poderá fazer o encaminhamento para o especialista, chamado Estomatologista (especialidade da Odontologia). Além disso, se você fuma e/ou bebe, é importante consultar um cirurgião dentista o mais rápido possível e buscar ajuda para fumar e/ou beber menos, ou até parar, antes de entrar na “fila do câncer de boca“.

Para saber mais:

  1. Estimativa 2016: Incidência de Câncer no Brasil. 2015.
  2. Quantitative risk stratification of oral leukoplakia with exfoliative cytology.
  3. Quantitative prediction of oral cancer risk in patients with oral leukoplakia.

 

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