O despertar da era dos exossomos: serão os antigos lixeiros promovidos a carteiros?

Por Bruno Costa da Silva                                                                                                 Pesquisador na Medical College, Cornell University/Nova Iorque – EUA

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Bruno CS - imagemEm um ramo que vem tomando força na última década, cientistas começaram a revisitar antigos conceitos sobre o que até então se entendia como “os lixeiros das células”, ou mais formalmente falando, os exossomos. Apesar do seu pequeno tamanho (em torno de 100 nanômetros, o que se compara ao tamanho de um vírus ou de 0,2 a 1% do tamanho de uma célula), os exossomos são formados por diversos componentes presentes nas células, em especial os lipídeos e as proteínas.

Desde a primeira descrição até poucos anos atrás, acreditava-se que estas diminutas esferas de gordura e proteína tinham a provável função de empacotar e se livrar de componentes celulares indesejados, quase como lixeiros. Entretanto, revisitando o papel dos tais exossomos para sua célula de origem, cientistas descobriram que a grande pergunta não era o porquê de estes “sacos de lixo” estarem sendo jogados fora pelas células, mas sim o que acontece com esse “lixo” depois que ele é descartado.

Onde, então, os exossomos poderiam ter alguma função que não a de “sacos de lixo” depois que deixam suas células de origem? Com essa nova perspectiva em mente, um novo ramo da biologia tem ganhado relevância nos últimos 5 anos, inclusive com a fundação de uma sociedade internacional sobre biologia de exossomos, no final de 2011. Dentre as descobertas recentes observou-se que, uma vez fora das células, exossomos são capazes de cair na circulação sanguínea e se espalharem para outras partes do corpo, vindo muitas vezes a serem “reciclados” por outras células distantes.

Em um trabalho publicado em 2012, cientistas mostraram que, em animais com câncer de pele, uma proteína produzida pelos tumores podia ser carregada até as células-tronco da medula óssea por meio de exossomos. Observou-se que células que receberam os exossomos tumorais começavam a comportar-se de maneira diferente, saindo da medula em direção aos pulmões. Quando nos pulmões, essas células ajudavam na recepção e sustentação de células tumorais metastáticas vindas dos tumores presentes na pele (assim como descrito no artigo do CDQ “Metástases tumorais iniciam muito antes do que se imagina”).

Mais recentemente, em 2014, descobriu-se que exossomos podem carregar não apenas lipídeos e proteínas, mas também material genético, como RNA e DNA!! Esta última descoberta pode ter implicações enormes para os campos da biologia e da medicina. Por facilitar o acesso ao conteúdo dos tumores, como mutações genéticas e proteínas tumorais com papel diagnóstico, o impacto na rotina médica pode ser enorme. Isso porque as usualmente invasivas biópsias poderiam ser substituídas por um simples exame de exossomos no sangue, o que tem sido chamado de “biópsia líquida”.

Além disso, temos agora que expandir nossos conceitos de como células interagem entre si em um sistema biológico. Isto fica evidente em outro trabalho, publicado no final de 2014, aonde se viu que exossomos produzidos por tumores de mama são capazes de se ligar a células saudáveis da mama, fazendo com que estas comecem a apresentar características de células tumorais, como, por exemplo, crescimento descontrolado. Isso abre caminho para novos componentes da trama tumoral, uma vez que além dos tumores e de outras células associadas a tumores já conhecidas (como os macrófagos descritos no artigo do CDQ “Abaixo à corrupção tumoral”), células antes saudáveis influenciadas pelos exossomos tumorais podem ter grande importância em cânceres.

Mesmo sendo um ramo muito recente, estudos dos possíveis papeis destes “lixeiros promovidos a carteiros” apresentam um grande potencial. Os benefícios da melhor compreensão dos papeis dos exossomos não afetariam apenas o campo dos tumores, onde avanços em diagnóstico, tratamento e acompanhamento são realidades muito próximas para diversos tipos tumorais, mas potencialmente ramos como a neurologia, embriologia, hematologia, dentre tantos outros.

Para saber mais acessar os artigos abaixo:

3 comentários sobre “O despertar da era dos exossomos: serão os antigos lixeiros promovidos a carteiros?

  1. Pingback: Células-tronco do cérebro podem influenciar o ritmo do envelhecimento | Cientistas descobriram que... "CDQ"

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