Cancele a omelete, os ovos podem matar você! Será?

Por Daniel Fernandes – Dpto de Farmacologia – UFSC

O leitor deve estar pensando neste momento “de novo, não!”. O debate sobre o consumo de ovos realmente parece não ter fim! Na década de 60, foram publicados estudos observacionais que mostravam uma importante associação entre os níveis de colesterol sanguíneo e o risco de doenças cardiovasculares. Sendo o ovo um dos alimentos mais ricos em colesterol e amplamente consumido, ele rapidamente se tornou um vilão. Diante deste cenário, em 1968 a American Heart Association, umas das principais organizações que determina diretrizes para a prevenção e tratamento de doenças cardiovasculares, recomendou que as pessoas consumissem menos de três ovos inteiros por semana, alegando que o colesterol elevado na dieta é igual a colesterol alto no sangue e, consequentemente, representa maiores riscos de doenças cardiovasculares. Isto gerou um grande medo na sociedade em relação ao consumo de ovos. Em uma crônica de Luiz Fernando Veríssimo intitulada “Ovo”, ele descreve bem esse fato: “Cardíacos deviam desviar o olhar se um ovo fosse servido num prato vizinho: ver o ovo fazia mal”. Continuar lendo

Estamos cada vez mais perto de descobrir os segredos da imortalidade dos Vampiros?

Por Giordano W. Calloni – Dpto. de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC

Fonte: favpng.com

Quem não sente um certo fascínio por histórias de vampiros? Esses personagens amedrontam e excitam na mesma proporção sobretudo as crianças e os adolescentes. A miríade de personagens vampirescos é imensa. Uma excelente introdução a respeito do assunto foi realizada no projeto SPORUM (páginas 107-111) que uniu professores e alunos da Universidade Federal de Santa Catarina – Brasil, em um belo livro de Divulgação Científica. Vocês podem acessar gratuitamente o pdf do livro clicando aqui. Continuar lendo

Prêmio Nobel 2019: Medicina, Química e Física

O CDQ… preparou um texto especial para nossos leitores. Reunimos pesquisadores das áreas de Biologia/Biomedicina, Física e Química para explicar as grandes descobertas que renderam os prêmios Nobel de Medicina, Física e Química de 2019. Aproveitem!

Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia – como nossas células percebem o oxigênio

Por Giordano W. Calloni – Dpto. de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC

© Johan Jarnestad/The Royal Swedish Academy of Sciences

Em fevereiro de 2007, o time do Flamengo enfrenta na Continuar lendo

Proteger a Vida verde para que(m)?

Por Giordano W. Calloni – Dpto. de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC

Figura 1: Pahvo: um planeta sem Vida? Momento em que a nave USS Discovery adentra o planeta Pahvo (Fonte: Foto do próprio autor de Star Trek Discovery, Temp.1-8).

6’:55’ – Estamos dentro de uma nave e vamos nos aproximando de uma densa e exuberante mata. Detalhe: as folhas não são verdes, mas azuis.

7’:14” – Caminhando em meio às árvores a especialista Michael Burnham se apresenta ao público. Descobrimos que o planeta se chama Pahvo (Figura 1) e a tripulação da nave já está ali há 18 horas na vã tentativa de detectar alguma forma de vida.

7’:23” – A especialista, ainda em meio às árvores, nos adverte: “parece ser um planeta desabitado, mas único e, para nós, estratégico”.

7’:29” – A especialista Burnham está com os outros dois tripulantes da nave, o humano Ash Tyler e o alienígena Saru. Uma substância Continuar lendo

Novas “velhas” descobertas sobre cromossomos e a agressividade de tumores de próstata

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Uma vez ou outra nos deparamos com conceitos científicos que apesar de serem tidos como estabelecidos, às vezes simplesmente por fazerem muito sentido frente a achados clássicos da literatura, nunca foram testados de maneira aprofundada e sistemática. Esse é o caso da associação entre mudanças no número de cromossomos com o desenvolvimento de células tumorais agressivas. Esta mudança numérica, conhecida também como aneuploidia, é uma velha conhecida das aulas de genética na escola, especialmente nos casos das síndromes de Down, Patau e Edwards, aonde se observa uma cópia extra dos cromossomos 21, 13 e 18, respectivamente.

A ideia é que, devido à sua grande propensão de acumular erros na cópia de genes, Continuar lendo

A onda da impressão 3D de tecidos personalizados: como a ciência ensaia reparar o coração

Por Marco Augusto StimamiglioInstituto Carlos Chagas – Fiocruz/PR 

Cientistas da Universidade de Tel Aviv, em Jerusalém, construíram com uma impressora 3D um coração vivo a partir de tecido humano. Essa foi a notícia amplamente veiculada pela imprensa nacional e internacional no mês de abril de 2019. O estudo, publicado na revista Advanced Science, provocou um estado de êxtase na mídia em relação à possibilidade da realização de transplantes cardíacos sem a necessidade de busca por doadores compatíveis ou risco de rejeição. Apesar de seu tamanho reduzido (cerca de três centímetros), o coração impresso apresenta as características físicas bem próximas à realidade (tecido muscular, vasos sanguíneos, câmaras internas) efetivamente impressiona. No entanto, sem tirar o mérito dos cientistas israelenses, é importante ponderar o impacto deste estudo para o desenvolvimento da área de engenharia de tecidos e para sua possível aplicação clínica em pacientes cardíacos.

É bastante evidente a evolução das técnicas e estratégias de impressão 3D de tecidos nos últimos anos. O uso dos chamados hidrogéis, que são polímeros altamente hidratados como o próprio nome sugere (uma espécie de gelatina), permite moldar estruturas tridimensionais vascularizadas (com canais Continuar lendo

Mais uma esperteza das bactérias: contra tudo e contra todos

Por Rita Zilhão, Faculdade de Ciências de Lisboa, Portugal

Em 2015, escrevi para este blogue um texto que se intitulava “Mais uma lição das bactérias: dão de comer a quem tem fome”. Nesse texto eu falei da formação de nanotubos (apêndices membranares) entre bactérias que permitiam a transferência dirigida de elementos do citoplasma específicos com uma função nutricional. Os nanotubos ajudariam desta forma a distribuir as funções metabólicas dentro das comunidades microbianas, ampliando significativamente o seu repertório bioquímico e possibilitavam às bactérias enfrentar ou contrariar uma situação de stress nutricional.

Ora, já há muito se sabe, que bactérias patogénicas (patogênica, em português do Brasil) como as enteropatogénicas de Escherichia coli (EPEC), colonizam o intestino e utilizam um sistema de secreção conhecido como “injectossoma” – sendo essa justamente uma das características que as torna patogénicas – por transferirem para as células epiteliais (enterócitos), que forram o interior (lúmen) do intestino, diversas proteínas efectoras existentes no citoplasma da bactéria. Continuar lendo