Fármacos antivirais podem ser aliados no combate à Doença de Alzheimer?

Por Iara Zanella Guterres, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Farmácia da UFSC, orientada pela Profa. Dra. Izabella Thaís da Silva do Depto de Ciências Farmacêuticas/UFSC. 

A Doença de Alzheimer (DA) é o tipo mais comum de demência em pessoas idosas. E, com o aumento da expectativa de vida, os casos têm crescido cada vez mais. Mas afinal, o que acontece no cérebro? Dois protagonistas desse processo são a proteína TAU e os peptídeos beta-amiloide (Aβ), que, quando se acumulam ou se modificam, podem prejudicar o funcionamento dos neurônios1.

Nos últimos anos, porém, surgiram evidências de que o Alzheimer pode ter mais um componente nessa história: as infecções por vírus. E um dos principais suspeitos é o Herpes simplex vírus tipo 1 (HSV-1) — sim, o mesmo responsável pelo herpes labial. O HSV-1 é um vírus que gosta do sistema nervoso (e a isso chamamos de neurotropismo). Depois da infecção inicial, ele fica latente nos gânglios sensoriais e pode reativar de tempos em tempos ao longo da vida. E é justamente aí que entra a possível ligação com o Alzheimer.

Vários estudos mostram que essas reativações ao longo dos anos podem afetar o cérebro. Em estudo com animais, ciclos repetidos de reativação do HSV-1 resultaram em processos muito parecidos com os observados na DA: maior produção e acúmulo de Aβ, aumento da fosforilação da proteína TAU e, claro, prejuízos cognitivos progressivos 2,3,4.

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Um metal usado para produção de baterias poderia ser a cura do Alzheimer?

Um metal usado para produção de baterias poderia ser a cura do Alzheimer?

Por Daniel Fernandes e Gabrielle Delfrate – Departamento de Farmacologia UFSC

Se você já assistiu ao filme “Para Sempre Alice”, que rendeu à atriz Julianne Moore o Oscar de Melhor Atriz, pode lembrar da história da professora Alice, diagnosticada com Alzheimer aos 50 anos de idade. Esse filme retrata com sensibilidade a vivência de uma pessoa que descobre a doença. Aos poucos, ela começa a se perder em situações do dia a dia e, eventualmente, até nas ruas da cidade. O filme mostra de forma intensa a angústia vivida por pessoas com a doença de Alzheimer, que é caracterizada pela perda das funções cerebrais, o que afeta principalmente a memória, linguagem, raciocínio e capacidade de realizar tarefas diárias. Essa condição afeta cerca de 55 milhões de pessoas no mundo. 

Mesmo após mais de um século desde que foi identificada, a doença de Alzheimer ainda guarda segredos. Muitas das alterações que ocorrem em nossas células (mecanismos moleculares) ainda são pouco compreendidas. Atualmente, os tratamentos para a doença são focados em retardar a progressão da doença e gerenciar os sintomas, a fim de melhorar a qualidade de vida do paciente. Contudo, ainda não há um único tratamento eficaz capaz de reverter os danos causados na função cerebral. Porém, uma nova descoberta pode começar a mudar este cenário! Recentemente, Cientistas descobriram que baixos níveis de lítio podem contribuir para declínio cognitivo, tanto em roedores quanto em humanos.

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Podemos ganhar resiliência ao Alzheimer!?

Por Rita Zilhão – Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (ULisboa)

A doença de Alzheimer (AD) é a forma mais comum de demência, afetando 47 milhões de indivíduos em todo o mundo. Por esta razão, urge identificar fatores de risco e avançar na identificação de fatores e componentes que possam reduzir a incidência do AD. 

O diagnóstico final inclui a detecção de características neuropatológicas clássicas da AD, como as designadas placas de beta amiloide (Aβ) e a agregação desordenada da proteína Tau fosforilada (pTau) em determinadas zonas do cérebro. 

Recentemente verificou-se que alguns indivíduos mostram uma discrepância entre a cognição e a quantidade de alterações neuropatológicas, indicando que estas alterações em si podem não ser suficientes para explicar o declínio cognitivo. Por outras palavras, algumas pessoas apresentam alterações compatíveis com o Alzheimer, não tendo, no entanto, nenhum sintoma da doença … quase como se os seus cérebros fossem mais resistentes a esta patologia neurodegenerativa. A compreensão dos mecanismos moleculares e celulares subjacentes a este fenômeno que se designou de “resiliência”, ainda é mal compreendida. A fim de elucidar melhor como indivíduos resilientes podem permanecer cognitivamente intactos, e quem sabe no futuro descobrir novas vias terapêuticas, um grupo de cientistas na Holanda selecionou numa coleção cerebral do Banco de Cérebros*, um conjunto de:

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Desvendando o elo: irisina, exercício e o desafio contra a demência

Por Heiliane de Brito Fontana – Departamento de Ciências Morfológicas – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

À medida que envelhecemos, nosso cérebro também passa por esse processo, e isso pode resultar em um declínio cognitivo. A demência é um desafio global para a saúde no século XXI, principalmente entre pessoas com mais de 65 anos. Seu impacto tem sido impulsionado nas últimas décadas, afinal – ainda bem – a ciência tem nos ajudado a reduzir mortes prematuras por doenças tratáveis, aumentando a longevidade.

Embora o envelhecimento do nosso cérebro seja um fato, a Comissão Lancet sobre Prevenção, Intervenção e Cuidados com a Demência alerta: “a demência de forma alguma é uma consequência inevitável de atingir a idade de aposentadoria, ou mesmo de entrar na nona década de vida”. Existem fatores que podem ajudar a modificar o declínio cognitivo, e a atividade física é um dos mais promissores e mais suportados por evidências. 

Estudos prospectivos, acompanhando milhares de indivíduos sem demência por longos períodos, revelaram que a atividade física possui um efeito protetor significativo contra o declínio cognitivo. Especificamente, exercícios de alta intensidade mostraram a maior eficácia na preservação da cognição. Além disso, o exercício reduz substancialmente o risco de desenvolver a doença de Alzheimer, chegando a uma diminuição de quase 50%. 

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A alimentação que transforma a microbiota em saúde!

Por Geison Souza Izídio, Laboratório de Genética do Comportamento, Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC

Atualmente, estima-se que para cada célula do nosso corpo, existe mais de uma outra de hospedeiros que pegam uma “carona” conosco. Estes hospedeiros são bactérias, fungos e vírus, que compõem a nossa microbiota. Aliás, esta proporção numérica é tão impressionante, que, pelo ponto de vista lógico, como nossas próprias células estão em menor número, na verdade nós seríamos os “caroneiros” da nossa microbiota.

Sabe-se que a composição da microbiota varia entre indivíduos e possivelmente tem a contribuição de fatores genéticos e da idade. Mas, o ambiente representado pelo contato que temos com pessoas próximas, ou animais de estimação, também influenciam a composição da nossa microbiota. Por exemplo, pessoas que dividem a mesma casa têm a tendência a compartilhar a mesma microbiota entre elas, ou também com seus animais de estimação.

As bactérias da nossa microbiota têm papel fundamental na digestão de alimentos, síntese de vitaminas, regulação energética, proteção contra patógenos e na modulação do sistema imune. Mas, recentemente, diversos cientistas vêm demonstrando também a importância da microbiota na nossa saúde física ou mental. Transtornos neuropsiquiátricos, como os de depressão, ou neurodegenerativos como o Alzheimer, estão sendo explicados, em parte, devido à microbiota. Aparentemente, algumas bactérias da microbiota, ou produtos delas, modificam o funcionamento de sistemas neuronais, favorecendo o aparecimento da depressão, ou causam a morte de neurônios, favorecendo doenças neurodegenerativas. Provavelmente, esta relação se dá através da comunicação direta entre intestino e o nosso cérebro (eixo intestino-cérebro). Inclusive alguns pesquisadores já propõem também uma expansão do conceito para um eixo boca-intestino-cérebro ressaltando a enorme importância da nossa boca na composição da microbiota. O compartilhamento da microbiota entre pessoas que moram juntas inclusive parece explicar, ao menos em parte, a tendência de predisposição comum a transtornos neuropsiquiátricos.

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Bloqueio do hormônio sexual FSH reduz o desenvolvimento do mal de Alzheimer em mulheres

Por Ricardo Castilho Garcez, Departamento de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC

Modificado a partir de Flores, et al., 2018

O mal de Alzheimer é uma doença bastante conhecida por causar perda de memória. Há um tempo pesquisadores têm observado que mulheres, após a menopausa, apresentam maior risco de desenvolver o mal de Alzheimer. A pergunta até então sem resposta era: qual a relação da menopausa com o mal de Alzheimer?

A menopausa é o período em que a mulher para de produzir óvulos e de menstruar. Isso tudo é causado por uma grande mudança na produção dos hormônios sexuais. Nesse período, a produção de hormônios como estrogênio e progesterona caem, já o hormônio folículo estimulante (FSH) e o hormônio luteinizante (LH) sobem. Esses dois hormônios, FSH e LH, são produzidos pela hipófise, uma glândula localizada na base do sistema nervoso central. Inicialmente, a redução nos níveis de estrogênio foi sugerida como uma possível causa do aumento de mulheres com mal de Alzheimer na menopausa, mas seu papel permanece controverso entre os pesquisadores. 

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A caminho de uma restauração dentária biológica

Por Michelle Tillmann Biz – Dpto. de Ciências Morfológicas / UFSC

As restaurações dentárias, em decorrência de cáries, são uma rotina nos consultórios odontológicos e envolvem o uso de materiais sintéticos e/ou cimentos minerais.

Em relação à profundidade da cárie, podemos ter vários níveis de lesões (Figura 1). Geralmente as cáries rasas e médias atingem somente o esmalte e a dentina. Já as cáries profundas podem atingir a polpa dentária, um tecido vital, rico em células-tronco (vide texto anterior no CDQ sobre o assunto), que se encontra no interior do dente.

Figura 1: Diferentes profundidades de cavidades de cárie. (adaptado de Avery e Chiego Jr., 2001)

Em todos os casos, após o acesso à lesão de cárie e limpeza da cavidade, os materiais restauradores preenchem essas cavidades permanecendo no dente de forma definitiva. Mas, quando a cavidade é profunda e expõe a polpa dentária, uma sequência de eventos de reparo natural é ativada nesse tecido. Neste processo, células-tronco residentes da polpa serão mobilizadas a diferenciarem-se em novas células produtoras de dentina (os odontoblastos). Esses odontoblastos irão produzir Continuar lendo