Sobre lobos, cães e homens… uma origem da domesticação

Por Paulo César Simões-Lopes – Dpto de Ecologia e Zoologia – UFSC

Há vários lobos dentro de mim, mas todos eles uivam para a mesma lua”, teria dito Virgílio. Os lobos traduzem nossos medos, que são muitos, no mais das vezes medos do mundo natural. Para muitos, natureza é só aquela que pode ser modificada, transformada, subjugada. E com os lobos não foi diferente. Nossa relação com eles não é nada nova, tampouco amistosa. Foram caçados, comidos, sequestrados e por fim modificados. Precisávamos de sentinelas gratuitas para nossos acampamentos quando ainda éramos caçadores-coletores nômades. Precisávamos de alguém com um bom focinho para seguir as trilhas olfativas de nossas presas. Precisávamos de carne quando tudo mais faltasse.

E foi assim que roubamos filhotes de lobos ou matamos suas mães zelosas para cria-los como parte de nossa família humana. Logo ficaríamos com os lobinhos mais mansos e abateríamos os mais ferozes. De geração em geração, dobramos seu temperamento, sua autonomia, sua iniciativa. Mas quando esse lento processo começou? Quando os lobos viraram cães? Onde foi que essa transformação ocorreu pela primeira vez? Teria ela ocorrido em diferentes locais ao mesmo tempo?

Mais tarde modificaríamos a cevada, o sorgo, o arroz, os bodes, mas primeiro vieram os cães. A busca pelos fósseis dos primeiros cães é uma tarefa ingrata, já que os primeiros cães eram naturalmente semelhantes aos lobos. Alguns Cientistas Descobriram Que os primeiros fósseis de cães provêm do leste da Europa, do Oriente Médio e das Montanhas de Altai na Sibéria, isto é, o melhor amigo do homem é nativo da Eurásia1. Mas quando isso aconteceu? 

Origens geográficas e idade dos mais antigos espécimes de cães fósseis validados na Eurásia.

Bem, aí a coisa complica. As datas dos primeiros fósseis variam de 27 a 36 mil anos e isto coloca os cães na dianteira domesticação. Nossa visão utilitária da natureza nasceu muito antes, mas aquilo “que é do homem” (domini) nasceu com os cães. Aí está a noção de domínio, propriedade, posse. O problema para rastrear o início da domesticação dos cães está justamente na semelhança entre as matrizes selvagens e sua derivação canina. Entre os Cientistas que Descobriram Que estão Adam H. Freedma e Robert K. Wayne1. Eles acrescentam que podem ter ocorrido múltiplas domesticações e retrocruzamentos posteriores entre cães e lobos. Além disso, não sabemos nem mesmo se os lobos modernos são os ancestrais diretos dos cães ou se estes derivaram de uma linhagem extinta de lobos Pleistocênicos.

Assim, Adam e Robert se propuseram a encarar o problema usando abordagens complementares, que vão da morfometria geométrica 3D ao DNA mitocondrial e a genômica. Isso lhes permitiu chegar a algumas conclusões preliminares para aquelas perguntas feitas no início. Primeiro, nossos cães modernos teriam se originado de populações de lobos agora extintas. Isto teria ocorrido a pouco mais de 25 mil anos, quando ainda éramos caçadores-coletores. Datas mais antigas que essa podem ser enganosas e não deveriam ser consideradas. Num segundo estágio, quando do advento da agricultura há aproximadamente 10 mil anos, iniciou a modificação mais marcada da aparência ou fenótipo dos cães em uma ampla gama de tamanhos para cumprir diferentes tarefas. Por último, na Era Vitoriana, iniciou a seleção para a estonteante variedade de cães domésticos que temos hoje, de um plácido dogue-alemão aos irritados Chihuahua, e Yorkshire. Em todo esse processo, não só a forma ou o tamanho, mas também o metabolismo dos lobos foi modificado, incluindo a aceitação do amido2 no que viria a ser a dieta dos cães. Isto facilitou muito a relação mutualista que se firmaria a partir daí, já que eles poderiam se alimentar de nossos restos.

Seja como for, ainda há muito o que fazer para explicar porque o lobo foi o único canídeo a ser verdadeiramente domesticado. O fato de você ter outros pets em casa não pressupõe domesticação. Teríamos de sequenciar o genoma de outros canídeos antigos para tentar compreender isso1

Fato é, que lobos e cães são componentes cruciais na compreensão da história (e pré-história) humana. Pobres lobos agora quase extintos pela mão do homem, a uivar pela mesma lua como disse Virgílio certa vez. Os lobos banidos dos Alpes e dos Pirineus, do Cáucaso e do Tibet. Banidos por aquele homem com a tal visão utilitária da natureza, com a visão de dominação. Mesmo assim, ele, o lobo-cão é nosso melhor amigo. Ele, a quem dobramos o temperamento, a autonomia, a iniciativa.

Glossário: 

DNA Mitocondrial – é aquele presente nas organelas chamadas mitocôndrias. Corresponde à uma porcentagem ínfima de DNA (0,1%), mas muito utilizado para estudos de origem e rastreamento de populações, uma vez que as mitocôndrias são transmitidas à descendência exclusivamente pela linhagem materna. Vejam também o texto produzido pelo CDQ sobre o assunto:

Genoma – é a sequência completa de DNA de um organismo, isto é, o conjunto de todos os genes de um ser vivo.

Para saber mais: 

  1. Deciphering the Origin of Dogs: From Fossils to Genomes
  2. The genomic signature of dog domestication reveals adaptation to a starch-rich diet.

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