Um tesouro invisível no leite materno

Por Fabienne Ferreira, Dpto de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFSC

Você provavelmente já ouviu falar que o aleitamento materno apresenta inúmeros benefícios à saúde do bebê, certo? Não pode ser à toa que diversos órgãos em saúde, como a Organização Mundial de Saúde (OMS), recomendam o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de idade da criança. O leite materno já é conhecido a muito tempo por fornecer todos os nutrientes necessários nos primeiros meses de vida do bebê, além de conter anticorpos que ajudam a proteger a criança contra diversas doenças. Evidências científicas mais recentes apontam benefícios adicionais do leite materno, como o auxílio no desenvolvimento do sistema imunológico (sistema de defesa) do bebê, que parece impactar positivamente em etapas posteriores da sua vida. Talvez seja por isso que alguns estudos apontam que crianças alimentadas com leite materno tendem a apresentar menores taxas de alergias, diabetes e asma ao longo da vida. 

Porém, o que não se sabe é COMO exatamente o leite materno promove tantos benefícios. O leite humano é majoritariamente composto por carboidratos complexos (tipos de açúcares) chamados de oligossacarídeos. Mas como estes carboidratos poderiam ajudar tanto assim na saúde? Até o momento, as evidências científicas apontam que estas moléculas servem como um tipo de alimento (conhecido pelo termo técnico “prebiótico” – organismos vivos ingeridos por nós e que tem o potencial de trazer benefícios para a saúde) para a microbiota intestinal dos bebês. A microbiota intestinal corresponde a um conjunto de microrganismos (sobretudo bactérias, seres vivos microscópicos e invisíveis a olho nu) que residem no nosso corpo e que são fundamentais para nossa vida, participando de processos fisiológicos importantes, como degradação de alguns nutrientes que comemos, produção de vitaminas que não conseguimos fabricar sozinhos, e para o desenvolvimento do nosso sistema imunológico.

Um recente estudo científico, publicado na revista Nature Microbiology, foi mais fundo no entendimento destes benefícios. Os cientistas primeiro confirmaram que estes “açúcares” presentes no leite materno favorecem o crescimento de bactérias da microbiota intestinal conhecidas como bifidobactérias (gênero Bifidobacterium, que têm sido inclusive utilizadas como “probióticos”). Através da análise das fezes de 59 crianças, os cientistas descobriram que, quanto mais oligossacarídeos do leite materno encontravam nas fezes, maior era a abundância de bifidobactérias, e maior era a concentração de substâncias específicas, conhecidas como ácidos láticos aromáticos. Em seguida, foi verificado que quem estava produzindo estas substâncias eram mesmo estas bactérias. Assim, o próximo passo foi investigar o que estas substâncias identificadas tinham de especial. Entre estes ácidos láticos específicos, foi verificado que o ácido “indolático” (chamado de ILA) produzido pelas bifidobactérias tinha um papel ainda mais especial que os outros, pois foi capaz de ativar receptores celulares (conhecidos como AhR e HCA3), em um mecanismo parecido com o de uma chave (ILA) que abre uma fechadura (receptores). Adicionalmente, ainda foi verificado que este efeito foi “dose-dependente”, ou seja, quanto mais “chaves” (ILA) havia, mais “fechaduras” (receptores) eram abertas (mais receptores eram ativados). Esta ação parece produzir um efeito positivo em nosso corpo, sinalizando para as células do intestino e do sistema imune de defesa que tudo está em equilíbrio, funcionando bem (um termo conhecido na biologia como “homeostase”). Tecnicamente, isto pode ser entendido como um mecanismo que contribui para o controle do processo inflamatório (modulando a expressão de moléculas como citocinas, por exemplo), proteção contra potenciais infecções (ação antimicrobiana) e integridade das células, fazendo com que estas realizem corretamente suas funções. 

Ainda é necessário entender melhor como tudo isso acontece a partir do “encaixe” ILA-AhR/HCA3 e como esses benefícios podem ser levados para a vida adulta, quando não mais nos alimentamos de leite materno. Adicionalmente, outras moléculas presentes em menor concentração no leite materno também têm sido estudadas com relação aos seus efeitos benéficos. De qualquer forma, o estudo descobriu um pouco mais sobre os tesouros escondidos neste fantástico alimento, não só reforçando os benefícios da amamentação para a saúde da criança, mas também contribuindo para a criação de melhores alternativas para bebês que não conseguirem ser alimentados com leite materno.

Para saber mais:

  1. Bifidobacterium species associated with breastfeeding produce aromatic lactic acids in the infant gut

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