As montanhas nos dão muito mais que belas paisagens

Por Dr. Elisandro Ricardo Drechsler-Santos, depto. de Botânica da UFSC e Kelmer Martins-Cunha, graduando em Ciências Biológicas pela UFSC

Com certeza você se identifica com algumas dessas situações abaixo, certo?

Pois é, a oferta de água e as condições climáticas são recursos naturais extremamente importantes no nosso dia a dia, e podem significar tanto qualidade de vida quanto verdadeiras tragédias para nossas cidades e áreas agrícolas.

Agora vocês devem estar se perguntando “O que tem a ver as montanhas do título com isso?” Calma, ainda vamos complicar um pouquinho mais, pois a novidade que trazemos hoje está relacionada com os fungos. Sim, falaremos de como os fungos e as montanhas, com seus ecossistemas preservados, significam saúde e bem-estar para a população. 

Então, por partes, primeiro a novidade:

Recentemente, um grupo de cientistas de diversos países, incluindo professores brasileiros da UFSC e da UFMG, apostou em uma pesquisa para tentar responder a seguinte pergunta:

Como os fungos se apresentam no solo ao longo de diferentes altitudes nas montanhas?

Primeiro, com o aumento de altitude e mudanças no relevo, as montanhas “criam” diferentes ambientes com diferenças na temperatura, disponibilidade de chuva e nuvens, química do solo e radiação solar. Essas diferenças ao longo da montanha são alguns dos fatores que favorecem, ou não, a presença de diferentes espécies. Já é bem conhecido que para cada “degrau” da montanha são encontradas espécies de animais e de plantas que melhor se adaptaram àquelas condições específicas.

O estudo (linkado abaixo) foi realizado em montanhas da Argentina, Bornéu, Brasil, Papua Nova Guiné e Panamá. No Brasil, a pesquisa aconteceu no Parque Nacional de São Joaquim, em Santa Catarina. Foram coletadas pequenas quantidades de solo, de onde o DNA dos organismos foi utilizado para saber quais espécies estavam presentes nas amostras. Para mais informações sobre a técnica de sequenciamento utilizada leia: O que os estudos de biodiversidade têm a ver com o combate à COVID-19?).

Os cientistas descobriram que as comunidades de fungos também são altamente especializadas para cada degrau de altitude das montanhas. Isso significa que diferentes conjuntos de espécies de fungos do solo ocupam diferentes ambientes em diferentes altitudes. Considerando os dados do Brasil, a elevação das montanhas pode alterar até 94% a comunidade de fungos, ou seja, muitos fungos que existem em altitudes mais baixas não existem em mais altas e vice-versa. Ainda, associadas à elevação, ficou claro que a temperatura (média anual) e as características do solo, como o pH, são os principais fatores para a estruturação das comunidades fúngicas. Outro resultado interessante é que fungos que atuam de maneiras diferentes no ecossistema, seja degradando madeira ou causando doenças em animais, ou ainda estabelecendo relações de benefícios para as plantas, também se distribuem de acordo com os diferentes fatores ambientais.

OK, agora vamos voltar ao que foi falado no início. Vamos esclarecer o porquê da importância de saber sobre essas variações, da presença ou ausência de fungos em determinadas altitudes das montanhas. 

Já sabemos, e é consenso entre os cientistas, que os fungos são essenciais para o funcionamento dos ecossistemas (com o papel de decomposição da matéria orgânica e relações benéficas com as plantas, por exemplo). Então, saber quais são os fungos, onde eles estão e como vivem no seu ambiente, nos ajuda a entender melhor como preservar os ecossistemas montanhosos. Ou seja, com estes resultados, os cientistas poderão fazer projeções no futuro de como as mudanças do clima irão impactar negativamente ou positivamente os fungos e suas funções, e, consequentemente, como as florestas e ecossistemas naturais “sobreviverão” ao longo do tempo. 

Isso tudo pode parecer tão distante e não relacionado com nossas vidas, mas vocês sabiam que as montanhas preservadas ajudam a abastecer os aquíferos? Sim, a umidade das nuvens barradas pelas montanhas e as consequentes chuvas infiltram no solo pela vegetação, abastecendo os reservatórios naturais. Também é nas montanhas que encontramos a grande maioria das nascentes, com águas de alta qualidade.

Os diferentes ecossistemas montanhosos ajudam a regular as temperaturas, tornando-as mais amenas e, com isso, controlando tempestades extremas, secas, enxurradas, enchentes etc.

Pois é, a conservação dos ambientes naturais das montanhas ajuda a evitar os eventos ocasionados pela crise climática atual, justamente a mesma crise que ameaça nossa biodiversidade, mas que pode ser monitorada com resultados de trabalhos como o apresentado aqui. Além disso, as montanhas que abrigam um terço da biodiversidade terrestre, com espécies únicas e ameaçadas, é fonte inesgotável de plantas, animais e fungos com potencial de aplicabilidade na medicina, biotecnologia, entre outras áreas que são essenciais para nossa qualidade de vida.

Para saber mais:

  1. Community dynamics of soil-borne fungal communities along elevation gradients in neotropical and paleotropical forests

Um Invasor Silencioso: a Misteriosa jornada do Peixe-Leão…

Por Paulo César Simões-Lopes – Dpto de Ecologia e Zoologia – UFSC

Nem todas as invasões são tão silenciosas… H. G. Wells, em sua Guerra dos Mundos, nos contou sobre uma invasão marciana para lá de escandalosa, com máquinas gigantes que sugavam pessoas num mundo em caos. Na Europa dos séculos II a VII, os godos, visigodos e hunos também promoveram invasões escandalosas, mas o que os romanos não sabiam era o que aquelas carretas transportavam. Enquanto os tais ‘bárbaros’ se deslocavam, ratazanas asiáticas apeavam por toda Europa, depois da bem-vinda e improvável carona. Foi uma invasão silenciosa, mas de consequências devastadoras.

Invasões biológicas são uma história à parte e nem sempre tiveram a mão do homem, mas a verdade é que demos um empurrão e tanto depois da nossa chegada. As ratazanas e camundongos embarcaram secretamente em nossos navios e invadiram todos os continentes. Os vírus foram infiltrados como arma de guerra espanhola contra os astecas, maias e incas (existem várias evidências disso!) e mais recentemente se valeram de aviões para conquistar o mundo. Porcos, cabras, galinhas, cães, gatos, lebres, pombos e pardais foram convidados oficiais, além de uma miríade de plantas frutíferas. Também seriam transportados, com todo esmero, o caramujo-gigante-africano, minhocas, rãs-touro, carpas, tilápias, camarões-da-Malásia e por aí vai.

Recentemente, outras invasões silenciosas estão em curso. O mexilhão-dourado desembarcaria no Brasil e na Argentina durante a década de 1990, vindo na água de lastro dos navios mercantes. Logo invadiria as bacias dos rios Paraguai, Paraná e Uruguai, Tietê, Sinos e Caí e obstruiria as tubulações de usinas hidroelétricas, filtros e motores. 

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O Tucuxi na Lista Vermelha (Ou na lista cinzenta). A crônica da Morte Anunciada?…

Por Paulo César Simões-Lopes – Dpto de Ecologia e Zoologia – UFSC

Somos bons nisso… Somos eficientes. Nossa fama não é a de um “exterminador do futuro”, de fato, somos exterminadores do presente no que tange à perda de espécies e hábitats. Estima-se que perderemos 5% das espécies do planeta nas próximas décadas, devido ao aquecimento global, diz uma breve nota publicada na Revista Nature [1]. Em terra e no mar, já alteramos, significativamente, mais de 65% de todas as áreas. E o que fazem alguns dos países mais populosos e poluidores do mundo? Retiram-se do acordo de Paris… ou simplesmente não fazem nenhum esforço para cumpri-lo.

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“Donzelas invocadinhas” estruturam os comportamentos de disputa em recifes de corais

 Por Luisa Fontoura & Sergio R. Floeter, Dpto. de Ecologia e Zoologia, UFSC

Conhece aquela frase “no fundo, somos todos muito parecidos”? Pois é, nas profundezas dos recifes de coral de quase todo o mundo, as disputas por recursos entre pequenos peixes são muito parecidas. Apesar de distribuídos por todos os oceanos tropicais, os recifes não são todos iguais.

No Brasil, os recifes abrigam uma diversidade menor de espécies de peixes comparados aos do Caribe que, por sua vez, têm menor diversidade que os belíssimos e complexos recifes do Indo-Pacífico. Nos recifes, em meio a corais arborescentes, coloridas esponjas tubulares e delicados tufos de algas, pequenos peixes estão em constante disputa. Este comportamento agonístico (quando um peixe é agressivo e persegue outro, por exemplo), pode representar a competição por recursos, como é o caso do alimento ou espaço. E espaço para alguém que mantém um território, como muitas Continuar lendo

Reflexões em tempos de pandemia: cientistas são cidadãos e a ciência pode ser cidadã

Por Kelmer Martins da Cunha & Elisandro Ricardo Drechsler dos Santos,  Depto. BOT-CCB/UFSC

Você já viu um cogumelo com deformação por causa de poluição? Na figura 1 são mostrados cogumelos “saudáveis” (imagem da esquerda) e cogumelos com uma deformação (imagem da direita) causada por gases poluentes da queima de diesel. Essa história é bem interessante e vem lá da Austrália. Um grupo de cidadãos voluntários, de uma associação que monitora espécies ameaçadas de extinção, acompanhou as anomalias na formação de cogumelos da espécie Hygrocybe reesiae. O caso foi parar no senado australiano, que considerou que a má qualidade do ar na área, além de colocar em risco a saúde humana daquela comunidade, também representava um risco para fungos ameaçados de extinção.

Figura 1: Cogumelos de Hygrocybe reesiae, saudáveis na esquerda e com deformação na direita. (fonte: Irga, et al., 2018).

Pois é, todo mundo sabe que os cientistas vêm alertando há décadas sobre as ameaças e extinções de espécies, mas poucos sabem que cidadãos voluntários podem se envolver em defesa da biodiversidade. Esse é um belo exemplo de ciência cidadã, onde cidadãos se engajam para ajudar a construir o conhecimento científico.

Temas como “crise da biodiversidade” e “extinção em massa do antropoceno” são assuntos atuais e carregam consigo uma realidade cruel e ainda ignorada pela maioria. Você sabia que, a cada hora, de duas a cinco espécies são extintas em florestas tropicais? Exatamente, são espécies Continuar lendo

Os fungos podem salvar as abelhas

Por Barbara Lima Silva & Elisandro Ricardo Drechsler dos Santos
Aluna do Curso de Ciências Biológicas & Prof. do Depto. de Botânica da UFSC

Figura 1. Ilustração interpretativa das interações dos fungos com outros seres vivos em um ambiente natural.
Fonte: https://fungi.com

Você já imaginou o que aconteceria se todas as abelhas desaparecessem?

A polinização de muitas plantas não aconteceria.

Tudo bem, mas qual o problema?
O problema é que as abelhas, ao levarem pólen de uma flor para outra, acabam sendo responsáveis pela continuidade da vida de várias espécies de plantas, incluindo aquelas que utilizamos para nossa alimentação. As abelhas polinizam várias plantas que cultivamos (laranja, maçã, café etc.), o que garante a produção de mais da metade dos alimentos para nossa espécie. Por isso as abelhas são consideradas atualmente um dos seres vivos mais importantes do planeta.

Então, voltando à pergunta: você já imaginou o mundo sem abelhas? Continuar lendo

Árvores atraem biodiversidade e protegem espécies raras e ameaçadas de extinção

Por Elisandro Ricardo Drechsler-Santos                                                                               Depto. de Botânica e PPGFAP – UFSC

Fonte da imagem: Coletivo Gaia Brasília 2014.

Fonte da imagem: Coletivo Gaia Brasília 2014.

Qual o segredo das árvores? Elas são nucleadoras, no sentido em que naturalmente cada árvore forma associações diretas ou indiretas com centenas, talvez até milhares de espécies em florestas preservadas ou degradadas. Em setembro de 2016 foi publicado, na prestigiada revista da Academia Americana de Ciências – PNAS, um estudo de avaliação da biodiversidade na Costa Rica, Continuar lendo