Reflexões em tempos de pandemia: cientistas são cidadãos e a ciência pode ser cidadã

Por Kelmer Martins da Cunha & Elisandro Ricardo Drechsler dos Santos,  Depto. BOT-CCB/UFSC

Você já viu um cogumelo com deformação por causa de poluição? Na figura 1 são mostrados cogumelos “saudáveis” (imagem da esquerda) e cogumelos com uma deformação (imagem da direita) causada por gases poluentes da queima de diesel. Essa história é bem interessante e vem lá da Austrália. Um grupo de cidadãos voluntários, de uma associação que monitora espécies ameaçadas de extinção, acompanhou as anomalias na formação de cogumelos da espécie Hygrocybe reesiae. O caso foi parar no senado australiano, que considerou que a má qualidade do ar na área, além de colocar em risco a saúde humana daquela comunidade, também representava um risco para fungos ameaçados de extinção.

Figura 1: Cogumelos de Hygrocybe reesiae, saudáveis na esquerda e com deformação na direita. (fonte: Irga, et al., 2018).

Pois é, todo mundo sabe que os cientistas vêm alertando há décadas sobre as ameaças e extinções de espécies, mas poucos sabem que cidadãos voluntários podem se envolver em defesa da biodiversidade. Esse é um belo exemplo de ciência cidadã, onde cidadãos se engajam para ajudar a construir o conhecimento científico.

Temas como “crise da biodiversidade” e “extinção em massa do antropoceno” são assuntos atuais e carregam consigo uma realidade cruel e ainda ignorada pela maioria. Você sabia que, a cada hora, de duas a cinco espécies são extintas em florestas tropicais? Exatamente, são espécies que desaparecem do nosso planeta e deixam um buraco na biodiversidade. E olha que essa informação foi publicada em 2002, ou seja, é resultado da forma como alteramos a natureza cerca de 20 anos atrás. Como será hoje em dia? O que exatamente significa perder de duas a cinco espécies por hora, ou 14 a 40 mil espécies por ano? Acredite, isso só pode ser algo catastrófico!

Estima-se que exista cerca de 13,6 milhões de espécies no nosso planeta. Perto desse número, perder cinco espécies por hora não parece ser tão significativo assim, certo?

O problema é que dessa estimativa conhecemos apenas 13% (1,76 milhões). Ou seja, além de conhecermos muito pouco é provável que centenas de milhares de espécies possam estar sendo extintas sem termos a chance de conhecê-las.

Aliada à perda de biodiversidade, está o tempo que se leva para se consolidar o conhecimento das espécies. Não basta dar nomes, leva muito tempo para gerar conhecimento sobre sua existência, conhecer bem sua função nos ecossistemas ou o seu potencial de uso por parte da sociedade. Uma publicação recente mostra que para plantas são necessários cerca de 59 até 74 anos para que a espécie seja devidamente estudada, ou seja, depois de catalogada leva todo esse tempo para entender melhor sua distribuição, habitat, ecologia, fisiologia, reprodução, etc. Essa verdadeira corrida contra o tempo faz com que simplesmente não existam cientistas suficiente para que as espécies sejam devidamente conhecidas e reconhecidas.

OK, mas o problema é só dos cientistas? Não, o problema é de todos!

É função dos cientistas alertar sobre as consequências, que são as mais variadas. Desde a falta de alimentos pela extinção das abelhas polinizadoras (“Os fungos podem salvar as abelhas” do CDQ) até pandemias que podem matar milhares de pessoas por conta do tráfico e uso inseguro de vida silvestre. É função dos cientistas informar que a perda de uma espécie de árvore ou de fungo por dia significa perder de 3 a 4 novos possíveis fármacos a cada ano. Isso também significa perder cerca de 600 milhões de dólares que poderiam ser gerados, sem falar nas vidas que potencialmente poderiam ser salvas com aqueles fármacos extraídos da planta ou do fungo extinto.

Se os cientistas estão fazendo a sua parte ao demonstrar e alertar sobre os problemas acerca da biodiversidade, o que a sociedade como um todo pode fazer? Bom, além de uma política de maior investimento na pesquisa científica e formação de novos cientistas, os cidadãos e toda a sociedade devem estar mais envolvidos nessa corrida contra o tempo. Precisamos investir na educação científica para que cidadãos sejam simpatizantes, atuantes e com estilos de vida mais harmoniosos com as questões naturais. Se a humanidade não entender que sofre com um problema coletivo e não mudar seu comportamento em relação à biodiversidade, o futuro será marcado por várias outras pandemias e catástrofes ambientais.

Fonte imagem: Adaptado de Schlorian por Felipe Bittencourt

Seguindo essa ideia de coletividade em prol do conhecimento e do bem comum, a ciência cidadã é uma prática que vem sendo aplicada por alguns grupos de cientistas, e embora seja uma ideia simples pode causar grande impacto positivo para todos os envolvidos. Os cidadãos ganham conhecimento sobre a ciência e ajudam a resolver problemas importantíssimos, enquanto os cientistas recebem ajuda na obtenção de dados, que não seria possível contando somente com sua equipe de pesquisa. A ciência cidadã é flexível, podendo atuar junto com a gamificação (para entender um pouco mais leia: Se você gosta de videogame, você pode ser um cidadão cientista) ou ainda ser aplicada no âmbito educacional formando cidadãos mais conscientes. A educação científica é valiosa para uma sociedade que quer evoluir de forma mais integrada com as questões ambientais.

Para finalizar, deixamos para reflexão a imagem acima, bem como a seguinte pergunta: quando seremos uma sociedade mais preocupada com todas as formas de vida?

Para acessar os artigos utilizados para o texto, clique nos links abaixo:

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